Gonçalo Capela Godinho: “Nos EUA, quem quer trabalhar e se dedica, é sempre bem acolhido”
Foi para Direito sem expectativas e acabou apaixonado pela profissão. Trabalhou em várias partes do mundo e hoje é Country Chair da Pérez-Llorca. Conheça aqui a história de Gonçalo Capela Godinho.
Gonçalo Capela Godinho, Country Chair e Sócio de Corporate e M&A Pérez-Llorca, é o 56º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Começou o seu percurso profissional quando, aos 17 anos, entrou na Faculdade de Direito de Lisboa e, a partir de então, traçou um caminho que nem ele mesmo imaginava ser possível. Passou por Miami, Nova Iorque, Londres, Rio de Janeiro e São Paulo até regressar a Portugal. Garante que é viciado no que faz e que, apesar de adorar explorar diferentes geografias, não se imaginava a reformar sem deixar um legado no próprio país.
“Fui para Direito pela razão menos planeada. Fiz testes psicotécnicos que apontavam na direção de direito, filosofia, história e sociologia. E foram esses os três cursos aos quais me candidatei. Coloquei em primeiro lugar o de Direito, na Faculdade de Direito de Lisboa. Mas, aos 17 anos, eu estava tudo menos preparado para estudar Direito, quer em termos de maturidade, quer em termos de perceção do que é a importância de ser um aluno dedicado àquilo que se estuda. Eu não fazia a mínima ideia do que eu queria fazer a seguir à faculdade”, começou por dizer.
Apesar de não se sentir preparado, Gonçalo Capela Godinho aplicou-se no curso porque tinha decidido que “não ia fazer nem mais um ano do que era necessário”. No entanto, quando chegou ao final do quarto ano, sentiu “uma sensação parecida com medo, receio ou ansiedade” ao se deparar com o facto de que faltava apenas um ano para terminar a faculdade e não tinha a “mínima ideia” do que queria fazer depois. “Eu sabia que não teria perfil numa carreira na magistratura. O que me parecia mais natural e lógico era um escritório de advogados. Então mandei três cartas para três escritórios a dizer que estava disponível para trabalhar durante o quinto ano de faculdade“, contou.
Ao contrário do que estava à espera, um desses escritórios mostrou-se interessado e aceitou trabalhar com ele. Começou aí a sua jornada profissional, a estudar de manhã e a trabalhar à tarde, até que termina o quinto ano e recebe a proposta que mudaria toda a sua vida: “Chego ao fim do quinto ano e o escritório, que tinha achado interessante a minha primeira abordagem e o meu empenho, perguntou-me se eu não queria ir um ano para os EUA trabalhar num escritório americano“. Desta vez foi Gonçalo Capela Godinho quem se mostrou interessado e, sem hesitar, aceitou a oferta.
“Terminei o curso em Junho/Julho. Fiquei o mês de Agosto a preparar-me e em Setembro já estava num escritório americano, em Miami. Tinha 22 anos, nunca tinha vivido fora de casa dos meus pais, nunca tinha pago contas, nunca tinha procurado um apartamento nem negociado um contrato de arrendamento. Portanto, saí de Lisboa com três noites de hotel e sabia que tinha de procurar um apartamento. Completamente sozinho”, partilhou.
Apesar do choque inicial, o agora responsável da Pérez-Llorca garante que se sentiu “muitíssimo bem acolhido” quando chegou aos EUA: “Acho que, nos EUA, quem quer trabalhar, mostra vontade e se dedica, é sempre bem acolhido. Nos meus primeiros dias, passava muitas horas na internet e nos sistemas de gestão de conhecimento do escritório a ler tudo o que podia para me sentir familiarizado e para ter a sensação de que começava a ser útil. A verdade é que, no início, sentia-me inútil e achei que aquelas pessoas tiveram uma generosidade e paciência do tamanho do mundo“.
O acolhimento que sentiu foi de tal forma impactante que, mesmo depois de ter de regressar a Portugal (após um ano nos EUA) para fazer o estágio profissional, tinha a certeza que ia querer voltar. “Eu voltei para fazer o estágio, mas com um foco diferente. Tinha uma obsessão em entender os requisitos de cada uma das universidades americanas e o tipo de recomendações precisava… Sabia que queria ir para um campus universitário tradicional e ter a experiência típica americana. Acabei por ficar indeciso entre três universidades, mas enquanto visitava uma delas, a reitora disse-me que, apesar de as outras duas universidades que eu estava a considerar serem belíssimas instituições, se eu fosse para aquela seria o primeiro português de sempre a estudar naquela faculdade de Direito“, disse.
Mais uma vez, não hesitou e decidiu ficar nessa universidade – a Universidade de Duke. Lá dedicou-se inteiramente ao curso, sempre com o objetivo de tirar as melhores notas para conseguir chegar aos escritórios mais conhecidos, mas sentiu um ambiente muito mais competitivo do que em Portugal, até pela dificuldade que era ser um aluno estrangeiro nos EUA. Começou a sentir-se frustrado e decidiu pedir ajuda no “career services office” da faculdade, que acabou por lhe indicar um escritório de advogados que estava no seu top3, em Nova Iorque.
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Gonçalo Capela Godinho, Country Chair e Sócio de Corporate e M&A Pérez-Llorca, no 56º episódio do podcast "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
"Acho que, nos EUA, quem quer trabalhar, mostra vontade e se dedica, é sempre bem acolhido" Hugo Amaral/ECO -
"Acabei por ficar indeciso entre três universidades, mas enquanto visitava uma delas, a reitora disse-me que, apesar de as outras duas universidades que eu estava a considerar serem belíssimas instituições, se eu fosse para aquela seria o primeiro português de sempre a estudar naquela faculdade de Direito" Hugo Amaral/ECO -
"Sempre tive o secreto desejo de ter a possibilidade de desenhar algo do zero. Então quando a Pérez-Llorca me desafia a abrir em Portugal [...], eu aceitei. Até porque também sempre senti que se a minha carreira terminasse aos 65 anos fora de Portugal, ia ficar com pena de não ter feito algo com significado no meu próprio país" Hugo Amaral/ECO
Consegue entrar nesse escritório, vive na cidade que nunca dorme durante um ano e, em 2009, regressa a Portugal: “Cheguei numa péssima altura porque passado um ano entramos no período de crise. E, um dia, o meu telefone toca e era um headhunter do Brasil a dizer que o meu nome tinha sido dado por um escritório de Nova Iorque para um processo seletivo. A proposta era para ir para o Rio de Janeiro fazer M&A a uma escala global. E eu fui“.
“Fiquei quatro anos no Rio de Janeiro, depois fui para sócio de advogados em São Paulo, em 2014. E, em 2016, esse mesmo escritório pede-me para ir abrir o escritório deles em Nova Iorque. Vou e conheço lá a minha mulher, mas passados dois anos e meio veio uma oferta de um outro escritório brasileiro e volto para São Paulo“, continuou, acrescentando que tinha a convicção que era nesse mesmo escritório que iria ficar até se aposentar.
No entanto, a vida trocou-lhe os planos quando, em abril de 2023, foi a uma conferência na Colômbia, na qual encontrou amigos e sócios da Pérez-Llorca e onde falaram sobre a importância que Portugal poderia ter para a firma: “Em Maio, volto a estar com esses amigos e aí a conversa foi um pouco mais ao detalhe. Começamos a sonhar sobre as coisas que poderíamos fazer juntos. E em junho de 2023 já estava a dizer ao meu managing partner da altura que tinha boas e más notícias – a má notícia é que ia sair do escritório e a boa notícia é que não ia para um concorrente“.
“Sempre tive o secreto desejo de ter a possibilidade de desenhar algo do zero. Então quando a Pérez-Llorca me desafia a abrir em Portugal, quando me diz que vê valor em fazermos greenfield e que me dava o voto de confiança para que isto fosse feito como eu queria, eu aceitei. Até porque também sempre senti que se a minha carreira terminasse aos 65 anos fora de Portugal, ia ficar com pena de não ter feito algo com significado no meu próprio país“, admitiu, reconhecendo que viu neste projeto a oportunidade de cumprir estes dois sonhos.
Mesmo sabendo as dificuldades que enfrentaria ao abrir a Pérez-Llorca em Portugal devido aos “escritórios extraordinários” que reconhece existirem no país, Gonçalo Capela Godinho afirmou que isso, apesar de tornar o seu trabalho mais difícil, dá-lhe muita satisfação: “Das coisas que mais me deixam feliz é ir a Nova Iorque ou Londres e alguém me dizer que trabalhou com um escritório em Portugal, concorrente nosso, e que a experiência foi fantástica. Isso, para mim, dá-me imensa satisfação. É um elogio à qualidade da advocacia portuguesa e do talento português e eu adoro boa concorrência. E a Pérez-Llorca é o que é por termos concorrentes tão bons“.
Além de estar preparado para a concorrência, o sócio da Pérez-Llorca tinha um grande objetivo – contratar jovens com experiências internacionais diferentes e fazer com que todos se sentissem fundadores de um projeto novo em Portugal: “O maior desafio de todas as instituições é conseguir que as suas pessoas tenham um sentimento de pertença e não há nada que acelere mais esse processo do que um greenfield no qual tu te sentes fundador. Mas para fazer algo de greenfield, o nível de energia que as pessoas vão ter de ter é muito grande e, para mim, pessoas mais jovens têm mais energia. Provavelmente, para os standards portugueses, nós temos o partnership mais jovem de Portugal”.
Quando questionado sobre se, apesar do sucesso da Pérez-Llorca em Portugal, não sente falta dos EUA e do Brasil, Gonçalo Capela Godinho não hesitou em responder que, do Brasil, sente falta da escala, e de Nova Iorque, sente a satisfação de ter passado uns anos na capital do mundo dos negócios. “Tenho de ser muito grato a estes dois países. Os EUA deram-me uma carreira académica e profissional internacional. O Brasil deu-me uma mulher, deu-me um filho e deu-me 14 anos de experiência profissional extraordinária. É impossível não estar imensamente grato“, concluiu.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e dos Vinhos de Setúbal.
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