Gouveia e Melo vs Ventura: dois candidatos, nenhuma visão estratégica para o país

Nem de Ventura nem de Gouveia e Melo se ouviu uma visão estratégica para o país e como alcançá-la, com o debate a perder-se na espuma dos temas da atualidade.

No debate entre os dois candidatos que dizem representar os descontentes com o sistema político português e buscam o voto de protesto, André Ventura conseguiu ser mais consistente nos argumentos e desarmar Gouveia e Melo. Há algo em que ambos falham de forma clamorosa: a capacidade de apresentar uma visão estratégica para o país.

André Ventura entrou no debate em vantagem. Uma hora antes, mais uma sondagem, desta vez do CESOP para o Público e a RTP, colocou o líder do Chega na liderança das intenções de voto, com quatro pontos percentuais de diferença sobre o adversário do debate. Teve, ainda assim, dificuldade em lidar com o facto de perder em qualquer cenário numa segunda volta. “Não troco convicções por votos”, atirou.

Em disputa estava o troféu da candidatura que rompe com a lógica partidária dominante. “Temos de dar um murro na mesa do sistema político” atirou Ventura. “Sou o único que não tenho partido. O meu partido é Portugal”, disse Gouveia e Melo.

Mesmo mais contido na habitual agressividade, André Ventura foi melhor na argumentação e conseguiu fazer tropeçar Gouveia e Melo, mais do que uma vez. Puxou pela disputa do eleitorado de esquerda que travou com António José Seguro e pelos elogios que fez a Mário Soares, para atirar que o almirante na reserva “não é suprapartidário”.

Seja na Lei da Nacionalidade ou na revisão constitucional, o líder do Chega foi mais objetivo e concreto sobre o que defende, mas revelando total desdém pela decisão dos juízes do Palácio Ratton: “Foi o país que foi derrotado e o povo português”.

Gouveia e Melo pareceu defender o chumbo do Tribunal Constitucional, mas foi evasivo sobre com que aspetos concordava ou discordava na Lei da Nacionalidade, acabando a alinhar, de forma contraditória, com o discurso de Ventura ao dizer que “se ao fim de 10 anos [um imigrante] andou a cuspir na bandeira e a cometer crimes, não pode ter a nacionalidade”.

Gouveia e Melo teve, ainda assim, uma prestação melhor que noutros debates. Pareceu mais à vontade e confortável. E conseguiu passar a mensagem de que é o candidato da união — “Eu quero unir Portugal. E porquê? Acho que vamos viver tempos difíceis –, por oposição aos que instilam ódios. Exacerbou, no entanto, as competências do Presidente da República quando disse que seria o condutor do país.

Aproveitando uma rábula de Ricardo Araújo Pereira, o almirante disse que o caminho de um presidente “tem de ser feito com a esquerda e a direita. O país não pode ir só com uma perna. Tem de ir com as duas”. “Gouveia e Melo quer agradar a toda a gente e não agrada a ninguém”, reagiu Ventura.

Gouveia e Melo quer a perna esquerda e a direita do eleitorado, mas Ventura foi mais eficaz só com uma.

O debate ainda passou pelo almoço entre os dois candidatos antes de apresentarem a candidatura. O que não se ouviu, de nenhum deles, foi uma visão estratégica para o país e como alcançá-la, com o despique a perder-se na espuma dos temas da atualidade.

(Notícia atualizada às 14h06 para corrigir gráfico com a média das classificações dos dois candidatos)

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