BRANDS' ECO Ponto de rutura
Os sistemas sociais e territoriais aproximam-se de um limite crítico. A pressão sobre os recursos revela urgência de novos paradigmas assentes na resiliência, regeneração e monitorização inteligente.
Estamos hoje perante sistemas que dão sinais claros de se aproximarem de uma rutura. A governação incapaz, a desatenção infraestrutural, a austeridade cega e as respostas reativas, em vez de estratégicas, deixaram expostas fragilidades em múltiplos domínios: da seca severa aos incêndios florestais, das inundações urbanas à insípida diversificação económica. A complexidade crescente dos desafios do mundo atual, marcada pelos chamados “problemas perversos”, difíceis de definir, sem soluções inequívocas e sem início ou fim claros, mostra que já não é possível confiar em modelos lineares de intervenção. Cada problema envolve múltiplas escalas, partes inseparáveis de um todo, e qualquer decisão tomada tende a ser irreversível. Assim, a preparação de sistemas mais resilientes torna-se não apenas desejável, mas indispensável.
A especulação urbana é um dos sintomas visíveis deste ponto de rutura. É um problema global, mas muito presente em Portugal, em particular nas principais cidades e nos territórios caracterizados por especializações turísticas intensas. A habitação é tratada como um produto financeiro, adquirida pelo seu potencial enquanto reserva de valor e não pelo seu valor de uso. Um processo alimentado por expectativas, não por necessidades reais, que resulta num mercado que se autonomiza da economia produtiva. A perspetiva de lucros atrai mais investidores, pressiona preços, dificultando o acesso à habitação e agravando desigualdades territoriais. Este fenómeno não surge isoladamente: é amplificado pelo turismo, que transformou as cidades e regiões em plataformas de extração de rendimento. Após décadas de otimismo quanto ao potencial socioeconómico do turismo, a crescente perceção dos seus impactos negativos tem evidenciado o caráter predatório do modelo em que se apoia. Apesar das numerosas vantagens e benefícios que proporciona. Em vários contextos, o turismo tem sido descrito como uma indústria extrativa. Não só explora de forma agressiva os recursos da região, sobretudo os ambientais, diminuindo o seu valor, como também retira valor económico e social do território sem assegurar mecanismos de reposição ou de redistribuição em benefício das comunidades locais.

É neste cenário que se torna urgente afirmar novos paradigmas económicos baseado na resiliência e na regeneração. A resiliência implica a capacidade de absorver choques, adaptar-se e transformar-se. A regeneração enfatiza a necessidade de reparar danos acumulados e reconstruir os sistemas de forma mais justa e sustentável. Ambos exigem abordagens dinâmicas, centradas em capacidades adaptativas, que superem a lógica de exploração contínua e reconheçam os limites ecológicos e sociais dos territórios e a existência de falhas de mercado na economia.
Para que estes paradigmas se materializem, a monitorização torna-se fundamental. Não basta recolher dados estatísticos, organizá-los e divulgá-los publicamente: é preciso selecionar indicadores relevantes, capazes de captar a complexidade dos fenómenos, orientar decisões informadas e promover a boa governação. Importa igualmente reconhecer que os indicadores escolhidos nunca são neutros. São performativos, isto é, transformam a própria realidade, criam incentivos, moldam comportamentos e influenciam como os atores públicos e privados interpretam as suas prioridades e os seus resultados. Por exemplo, do ponto de vista do turismo, os novos indicadores deverão privilegiar cada vez mais a capacidade de carga dos destinos e a sua sustentabilidade ambiental, social e cultural, preocupando-se menos com o crescimento infinito do número de visitantes ou de receitas. Escolher indicadores é, portanto, escolher futuros possíveis: aquilo que se mede torna-se aquilo que conta, e aquilo que conta condiciona o que se faz.
Perto do ponto de rutura, a resposta não pode ser apenas a mitigação dos impactos imediatos. Exige visão estratégica, coragem na tomada de decisão e uma nova relação com o território. Num momento em que os velhos modelos mostram os seus limites, a construção de sistemas resilientes, regenerativos e apoiados em monitorização inteligente surge como o único caminho capaz de assegurar um futuro desejável.
Este artigo expressa apenas a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.
Hugo Pinto
Professor de Economia Regional e Urbana, Faculdade de Economia da Universidade do Algarve & Investigador do CinTurs – Centro de Investigação em Turismo, Sustentabilidade e Bem-Estar.
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