Fórmula 1 marca reencontro com o país onde Senna iniciou a subida ao topo

A Fórmula 1 tem regresso assegurado a Portugal em 2027 e 2028, soube-se na terça-feira. Recuperamos momentos gloriosos (e outros nem tanto) das passagens do "Grande Circo" pelo país.

O dia em que os carros planavam sobre a água, os pilotos lutavam para os manter em pista, vários acabaram fora desta, e um brasileiro no seu segundo ano de Fórmula 1 alcançou a primeira vitória de sempre num Grande Prémio, é aquele que colocou Portugal no livro da história desta modalidade

 

Estrela internacional adorada por milhões de fãs e “deus” pagão para o povo brasileiro, Ayrton Senna liderou do início ao fim o Grande Prémio do Estoril há exatamente 40 anos. Sob chuva copiosa, torrencial durante cerca de 15 minutos, o brasileiro do Lotus-Renault com o número 12 resistiu à pista escorregadia, à visibilidade quase zero nas ultrapassagens aos carros a quem impunha voltas de atraso e aos ataques de Alain Prost. O “professor”, alcunha do francês, perdera, um ano antes, o campeonato na última prova do campeonato, precisamente no Estoril, por apenas meio ponto, apesar da vitória ali alcançada.

Prost e Senna têm no Estoril também o ponto inicial da sua relação de dura rivalidade, após incidentes na pista portuguesa em 1988, quando os dois pilotos da hegemónica McLaren se provocaram, incluindo um apertão de Senna junto ao muro das boxes em plena aceleração na reta da meta – esse seria o ano do primeiro campeonato do brasileiro.

Na corrida à chuva de 1985 no Estoril, quando já eram só Senna e mais oito e a corrida levava duas horas, após muitos despistes e uma pista cada vez mais suja devido à projeção de terra dos despistados, a prova foi finalmente interrompida e o brasileiro subiu, pela primeira vez na sua carreira, ao lugar mais alto do pódio da Fórmula 1. Um ano depois, repetia a pole position, mas no decurso da prova ficou sem gasolina e desistiu.

As histórias da F1 em Portugal tinham então mais de 25 anos, mas como a de Senna os livros não contam outra anterior. Nem posterior. No mais recente regresso dos Grandes Prémios a Portugal, em 2020, uma outra vitória teve cunho histórico, a 92.ª de outro ídolo dos tempos modernos, Lewis Hamilton, tornando-o então o mais titulado piloto de F1 de sempre.

Senna acabaria por, de forma indireta e trágica, contribuir também para o fim da F1 em Portugal. Depois da sua morte num acidente em Ímola em 1994, as regras de segurança deste desporto apertaram e o circuito do Estoril viu encurtar-se a pista à sua frente para continuar a acelerar na modalidade onde estava desde 1984 e de onde saiu em 1996.

Esse ano teve um dos momentos altos para os fãs na história moderna da F1, numa ultrapassagem histórica de Jacques Villeneuve ao alemão Michael Schumacher. O Grande Prémio de 1996 foi também o último em Portugal com um português em pista – o primeiro piloto lusitano foi Nicha Cabral, em 1959, no Circuito de Monsanto; o último, precisamente em 1996, Pedro Lamy, que tinha sido antecedido por Pedro Matos Chaves; quando chegou a vez de Tiago Monteiro, em 2005 e 2006, a F1 já não passava por Portugal.

“Grande Circo” demasiado exigente para Portugal

Com um cada vez mais chorudo envelope financeiro exigido aos países que queriam assegurar a competição, somado às obras necessárias e a uma relação difícil entre o patrão da F1, Bernie Ecclestone, e a família proprietária do Autódromo do Estoril, a competição já não voltaria a Portugal em 1997, o ano de falecimento da personalidade a quem se atribui a “paternidade” da vinda da F1 para Portugal, Alfredo César Torres.

Próximo de Ecclestone, tinha sido vice-presidente da FIA e era presidente delegado da FIA para o desporto, carregando consigo uma especial noção dos impactos no turismo – além de presidente da Junta de Turismo da Costa do Estoril, membro do conselho geral do ICEP e presidente da Enatur, foi secretário de Estado do Turismo na primeira maioria de Cavaco Silva, surgindo como impulsionador da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, por si inaugurada em 1991.

A Fórmula 1 continha então, de forma crescente, uma dimensão de espetáculo que levou cada fim-de-semana a receber a designação de “Grande Circo”. Já nada tinha a ver com o purismo da década de 1950, no final da qual o Circuito da Boavista, no Porto, recebeu o primeiro Grande Prémio de sempre em Portugal, ainda a ditadura tinha, no país, 16 anos pela frente.

Nessa prova, entre estrelas como Sterling Moss, participaria Maria Teresa de Filippis, piloto com apenas três corridas no curriculum e a quem o diretor de prova em do GP de França terá impedido de participar na prova e, segundo as crónicas, sugerido a troca do capacete da Fórmula 1 por um secador de cabelo.

O GP de Portugal ainda passaria pelo Monsanto, mas foi com o “rei” Ayrton Senna a subir ao trono, fez a 21 de abril último 40 anos, que entrou definitivamente na história da competição.

Com a necessidade de refazer o calendário de 2020, por força dos confinamentos em tempo de pandemia, Portugal voltou ao calendário. Curiosamente, o mesmo aconteceu com o circuito de Ímola, onde Senna morrera na curva de Tamborello, e que deixou de ser palco da F1 em 2006, pressionado por diretrizes de segurança e pelo esforço financeiro exigido pelos “patrões” da F1 – tal como sucedera ao Estoril em 1997.

As obras necessárias para recuperarem Imola para a F1 podem funcionar como exemplo do que poderá ser necessário fazer no Estoril, considerando o crescimento exponencial das equipas, dos espaços VIP, da afluência de imprensa e da “arquitetura” dos circuitos modernos, capítulo em que o Autódromo em Portimão se tornou famoso pelo seu perfil conhecido por “montanha-russa”. Apesar disso, o presidente da Câmara de Cascais, Nuno Piteira Lopes, assegura querer levar a Fórmula 1 de novo para aquela pista.

Mas se Imola ficou de 2021 a 2025 no alinhamento – já para 2026, perdeu lugar para Madrid –, Portimão só em 2027 recupera um slot no restrito número de 24 corridas que perfazem o calendário.

Com pouco mais de um ano e meio pelo meio, haverá acertos a fazer na infraestrutura, em estrada à volta do circuito, mas sobretudo no principal que rodeia o “Grande Circo”: marketing. Para tal, a Parkalgar, gestora do Autódromo Internacional do Algarve, já está a preparar uma equipa com elementos dentro e fora de Portugal.

Os números do investimento do Estado português estão ainda sob secretismo, mas, pelos exemplos internacionais, poderão atingir 50 milhões de euros. O presidente do Turismo do Algarve assegura que os impostos diretos serão suficientes para fazer face ao investimento. O Governo antevê 140 milhões de euros de impacto. Paulo Reis Mourão, professor de Economia da Universidade do Mundo e autor do livro Economia dos Desportos Motorizados – O caso da Fórmula 1, considera as previsões “otimistas”.

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