“Cada empresa deve definir a sua política de IA, de acordo com a cultura e ética”
A 4.ª Talk .IA debateu a produtividade e a utilização da IA nas empresas, com Margarida Couto, dos CTT, Pedro António, do Grupo Ageas, e João Nascimento, da EDP, a discutir o futuro das organizações.
Não há uma receita que sirva para tudo e cada organização tem de ter um pensamento profundo sobre a sua política de utilização de Inteligência Artificial. Antes da implementação em massa da tecnologia, há que pensar no para quê e no até onde.
Na 4.ª Talk .IA, Margarida Couto, administradora não executiva dos CTT, sintetizou a ideia ao afirmar que “cada empresa deve definir a sua política de IA de acordo com a sua cultura e ética”. Presente no painel “Como aproveitar a IA para acelerar a produtividade”, a responsável explicou esta segunda-feira que, embora a IA possa ser útil em processos como o recrutamento, cada organização tem valores e padrões diferentes, o que torna essencial definir claramente a visão ética e cultural antes de aplicar a tecnologia.

“Algo que pode ser considerado não ético para os CTT pode ser perfeitamente aceitável noutra empresa com uma visão diferente. O importante é definir claramente qual é essa visão”, afirmou a administradora. Caso contrário, alertou, as decisões acabam por ser tomadas “às arrecuas”, comparando o processo a “conduzir a olhar para o espelho retrovisor”, algo que considerou “nada recomendável”.
Também na discussão, João Nascimento, Chief Information Officer da EDP, destacou que, no final do dia, a decisão sobre a utilização da IA é estratégica de cada organização. “Continua a ser uma opção da empresa manter um ‘homem no meio’ nos processos, como no recrutamento, ou não. É preciso definir claramente o que se está a fazer. Cada organização deve decidir como quer se posicionar face a este tipo de tecnologia”, afirmou.
Margarida Couto explicou que, no caso da IA, a ética é fundamental e que a regulamentação europeia, como o AI Act, é importante para impedir decisões automatizadas que ultrapassem limites éticos. “Quando as empresas são forçadas ou incentivadas a passar esses limites, coisas muito trágicas acontecem na sociedade”, atirou. A administradora não executiva entende que “não é a regulação que impede que as empresas aproveitem os ganhos de produtividade e até de reengenharia de negócios que a IA pode proporcionar”, afirmou.

A administradora sublinhou ainda que, para quem pretende usar a IA de forma efetiva no negócio, o ponto de partida deve ser sempre a governança da tecnologia. “Uma empresa que verdadeiramente tenciona pôr a IA ao serviço do seu negócio, seja pelo lado da produtividade ou por outro objetivo, deve começar pelo governance da IA”, destacou.
A produtividade e o ‘medo’ da IA
Pedro António, membro da Comissão Executiva do Grupo Ageas Portugal, que também participou no painel, explicou que no dia-a-dia da empresa, a ferramenta de IA utilizada pelos funcionários da Ageas é o Copilot, da Microsoft, e que não teme uma rejeição da tecnologia por parte dos trabalhadores devido a um eventual medo de perder o emprego. “São ferramentas de produtividade pessoal. Íamos perder o emprego todos há muitos anos, e hoje estamos em pleno emprego. Haverá sempre algum receio, mas não é com aquilo que temos vindo a fazer“, explicou.
O executivo reforçou que a IA poderá ter um impacto significativo na produtividade nos próximos anos. “Até hoje, temos feito algumas experiências e ‘use cases’, entrando no desconhecido, testando, medindo resultados e aprendendo com o processo. Umas coisas correm melhor, outras correm pior. Acho que isso tem sido um bocadinho a história da maior parte das empresas em Portugal nos últimos dois, três anos”, afirmou. Foi, aliás, uma das mensagens fortes deste encontro, de que vamos entrar agora numa fase de maior impacto da IA nas empresas e na sua produtividade.

O Governo anunciou nas últimas semanas a intenção de formar dois milhões de pessoas até 2030, e Margarida Couto considera que a política pública é essencial para apoiar a formação em larga escala, mas que as empresas também têm responsabilidades. “Acho que as empresas têm de fazer esse esforço, e é um esforço difícil”, afirmou, sublinhando que a responsabilidade de formação deve ser partilhada entre setor público e privado.
A administradora destacou ainda que provocar mudanças nas empresas é, por natureza, um desafio, que vai ter de ser concretizado. “Qualquer pessoa que trabalha em empresas sabe que mudar é difícil. Somos seres conservadores, porque isso é uma forma da espécie sobreviver. Neste caso [com a IA], é especialmente difícil porque é preciso mudar rapidamente. Os CTT não têm cinco anos para formar 14 mil pessoas. Têm de o fazer num espaço temporal muito curto”, explicou.
Para Margarida Couto, gerir essa mudança é o grande desafio, sobretudo nas organizações de maior dimensão. “Se os custos de contexto e de tecnologia baixarem, as PME podem ter uma oportunidade maior, porque é muito mais fácil gerir a mudança numa organização pequena do que acompanhar este ritmo acelerado numa grande empresa”, acrescentou.
Qualquer pessoa que trabalha em empresas sabe que mudar é difícil. Somos seres conservadores, porque isso é uma forma da espécie sobreviver
João Nascimento, Chief Information Officer da EDP, explicou que as grandes empresas tinham uma dificuldade em apropriarem-se do valor da inteligência artificial devido à sua complexidade, e que agora o paradigma mudou. “Era preciso ter especialistas de IA a trabalhar lado a lado com especialistas de negócio, e muitas vezes isso não acontecia da melhor forma. Os resultados também nem sempre eram espetaculares. Com a IA generativa, surge uma facilidade de aprendizagem e utilização, especialmente através da linguagem natural, o que torna a tecnologia mais acessível e promissora”, afirmou.

O executivo destacou ainda que essa acessibilidade cria oportunidades para as PME, permitindo-lhes aproximar-se e alavancar estas ferramentas de forma mais rápida. Para João Nascimento, o grande desafio das empresas é adotar a IA, pois só começam a “criar valor” quando essas ferramentas são efetivamente implementadas.
Veja aqui o debate do painel “Como aproveitar a IA para acelerar a produtividade”:
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