Portugal desigual. Alentejo é parente pobre, o país é Lisboa

Grande Lisboa, Madeira e Algarve têm vindo a acelerar consecutivamente a níveis acima da média nacional, enquanto o Alentejo reboca um pesado legado, mostram os números do INE.

ECO Fast
  • O INE revelou dados sobre a evolução do PIB regional em 2024, destacando a estagnação do Alentejo em contraste com o crescimento do Norte, Algarve e Madeira.
  • Entre 2021 e 2024, a Madeira e o Algarve registaram crescimentos significativos no PIB, impulsionados pelo turismo, enquanto o Alentejo ficou aquém da média nacional.
  • A disparidade no PIB per capita entre o Alentejo Litoral e o Alto Alentejo reflete um problema persistente de desigualdade e risco de pobreza na região.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Há expressões que sintetizam realidades complexas. Quando se analisam os dados da riqueza criada nas diversas regiões portuguesas, as hipóteses multiplicam-se. Ao Alentejo podemos aplicar “não passar da cepa torta”, na Madeira e Algarve poder-se-ia aplicar o “à sombra da bananeira” – ainda que a expansão destas regiões por via do turismo não viva só da riqueza ecológica e geográfica – e, em mais um ditado à medida, à Grande Lisboa cola-se “O país é Lisboa e o resto é paisagem.””.

Partindo dos dados revelados da evolução regional do Produto Interno Bruto (PIB) revelados pelo INE nesta quarta-feira, referentes a 2024, o ECO/Local Online traçou uma linha temporal da criação de riqueza em cada região, segundo o critério NUTS II (Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos).

A realidade por região revela um país a várias velocidades. Na análise do PIB real, aquele em que à criação de riqueza se retira o valor da inflação, o Norte (1,61%), o Algarve (1,47%) e a Madeira (1,23%) são as regiões do país com um crescimento mais vistoso no período de 15 anos, ainda que, na realidade, em valores pouco expressivos para um horizonte tão extenso.

Ainda assim, as três regiões quase se podem congratular com o seu “destino” quando se vê o desempenho do Alentejo. Ali, a criação de riqueza estagnou na “viagem” entre 2010 e 2024, com uma retração do crescimento do PIB real de 0,15%.


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Só nos anos mais recentes se viveu um desafogo na região que agrega território dos distritos de Beja, Évora e Portalegre. De 2021 a 2024, mostram os cálculos do ECO/Local Online a partir dos números do INE, o Alentejo cresceu 3%, num cenário de subida de 4,43% da média nacional do PIB real.

A puxar pelo crescimento do país entre 2021 e 2024 estiveram duas regiões que têm um forte contributo do turismo, um dos motores da economia nacional. Na Região Autónoma da Madeira (RAM), o PIB disparou 8,2%, acima até dos 8,09% do Algarve, praticamente duplicando o ritmo do país. A alguma distância, e igualmente acima da média nacional, a Grande Lisboa (4,87%) e a Região Autónoma dos Açores (4,81%).

O INE publicou nesta quarta-feira os dados da economia regional em 2024. O Norte e a Grande Lisboa contribuíram com mais de 175 mil milhões de euros para o PIB total do país de 289,428 mil milhões de euros. As duas regiões tiveram forte preponderância também no ano anterior (abaixo)

Algarve e Madeira não são só turismo

Na publicação dos dados nesta quarta-feira, o INE aponta vários cenários para as variações verificadas de 2023 para 2024 nas distintas regiões.

Na Grande Lisboa, o Valor Acrescentado Bruto (VAB) das atividades de informação e comunicação (4,2%) e atividades e seguros (3,6%) deu o maior contributo para o crescimento do território. Também no comércio, transportes, alojamento e restauração o crescimento do VAB superou a média nacional.

Em 2024, o Algarve e a Madeira destacaram-se fora do turismo. A sul, o VAB da indústria e energia vale mais 9,9% e o ramo de agricultura, silvicultura e pescas aumentou 8,9%. Já no capítulo de transportes, alojamento e restauração, no qual tem havido crescimento histórico nos últimos anos, a riqueza criada em 2024 aumentou apenas 1,7%.

Quanto à Madeira, que vinha registando crescimentos vigoroso no PIB até 2024, apenas cresceu 1,5%, menos que os 2,1% da média nacional. Para tal, explica o INE, contribuiu a retração de 4,4% no VAB dos serviços prestados às empresas, “associada à menor atividade do Centro Internacional de Negócios da Madeira”, explica o INE.

Na outra região autónoma, a dos Açores, o VAB de comércio, transportes, alojamento e restauração subiu, entre 2024 e 2023, 4,1%, o ramo da indústria e energia 6,4% e a agricultura, silvicultura e pescas criaram mais 7,1% de riqueza para a região.

O Alentejo, que volta a ficar abaixo da média nacional, (1,1% vs 2,1%), sofreu, de 2023 para 2024, com a redução mais acentuada do VAB da indústria e energia e das atividades imobiliárias. Além disso, pauta-se como única região do país a apresentar uma quebra na criação de riqueza nos ramos do comércio, transportes, alojamento e restauração.

Destaque também para a Península de Setúbal, que em 2024 teve um desempenho ligeiramente acima da média nacional, fruto do comércio, transportes, alojamento e restauração.

Alentejo a duas velocidade num país desencontrado

A estagnação do Alentejo continua um fardo. Em 2023, apesar de o PIB real do país aumentar 2,5%, esta região não foi além de uma melhoria de 0,4% face ao ano anterior.

No polo oposto, a geração de riqueza na Madeira evoluiu 4,5%, os Açores 3,4% e o Algarve e Grande Lisboa cresceram, ambos, 3,3%. Acima da média nacional ficou ainda o Oeste e Vale do Tejo, com +2,9%.

No caso alentejano, se olharmos o PIB per capita, a verificação da evolução histórica da última década revela uma dessintonia contínua entre o Alentejo Litoral e as demais zonas da região.

“O Alentejo foi a NUTS II com a maior disparidade regional”, notava o INE há um ano, salientando a diferença de quase 44 pontos percentuais (p.p.) no PIB per capita entre os índices do Alentejo Litoral (121,9) e do Alto Alentejo (78,2). A disparidade tinha sido ainda maior em 2022, corrigindo ligeiramente em 2023, por força da descida de 13,9 p.p. no Alentejo Litoral e reforço de 4,5 p.p. no índice do Alto Alentejo.

Recuando uma década, a distância estava no mesmo nível. Se há um ano havia uma diferença de 43,7 p.p. entre o Alentejo mais rico e o mais pobre, em 2014 o Alto Alentejo apresentava um índice de 77,9 (em que 100 é a média nacional) e o Alentejo Litoral estava nos 121,5, o que perfazia 43,6 p.p., sinal de uma disparidade que teima em manter-se.

A menor criação de riqueza e o indicador de PIB per capita cruzam-se com a conclusão verificada noutra publicação do INE este mês, referente ao risco de pobreza. O Alentejo é, precisamente, o ponto do país mais penalizado neste ranking, coincidindo com os Açores e Oeste e Vale do Tejo numa “incidência da pobreza superior a 17%”, nota o instituto.

Entre 2023 e 2024, o risco de pobreza apenas aumentou nas regiões do Alentejo, Oeste e Vale do Tejo e Centro, tendo registado a maior redução na Região Autónoma dos Açores.

INE

A média nacional situa-se nos 15,4%, menos 1,2 pontos percentuais que em 2023. Lisboa é a região melhor posicionada: 12,2%.

“Entre 2023 e 2024, o risco de pobreza apenas aumentou nas regiões do Alentejo, Oeste e Vale do Tejo e Centro, tendo registado a maior redução na Região Autónoma dos Açores”, aponta a instituição.

Noutro exercício, em que a média se traça dentro de uma só região, os dados revelam uma realidade distinta. Neste caso, em que se comparam os rendimentos entre os habitantes de uma região em concreto, mostra-se como a Grande Lisboa e a Península de Setúbal são os pontos com maior desigualdade entre rendimentos.

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