Portugal tem potencial de crescimento na literacia mediática, aponta UNESCO
“Nenhuma nação está 100% preparada para o fenómeno da desinformação”, afirmou Alexandre Sayad, consultor da UNESCO na área da educação mediática.
O consultor da UNESCO na área da educação mediática, Alexandre Sayad, considera que Portugal tem potencial para avançar na alfabetização mediática, mediante uma integração mais robusta de políticas públicas.
Em entrevista à Lusa, Alexandre Le Voci Sayad explicou que “Portugal revela um potencial significativo de avanço, sobretudo no que diz respeito à formalização e integração mais robusta de políticas públicas de Alfabetização Mediática e Informacional (AMI) no currículo escolar, na formação de professores e em estratégias nacionais coordenadas“.
Tendo em conta a versão mais recente do Media Literacy Index, Portugal ocupa o 12.º lugar entre 41 países europeus, o que reflete “um desempenho consistente em indicadores estruturais associados à alfabetização mediática, com níveis educacionais relativamente elevados, liberdade de imprensa, confiança institucional e ambiente democrático“.
“No contexto europeu, Portugal situa-se claramente acima da média, ainda que abaixo do grupo de liderança tradicional, composto sobretudo pelos países nórdicos e bálticos, que contam com políticas históricas e sistémicas de educação mediática”, admitiu o representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Ainda assim, Alexandre Le Voci Sayad relembra que o índice sugere que Portugal enfrenta desafios comuns ao sul da Europa, como “a fragmentação de iniciativas e a ausência de uma estratégia transversal de longo prazo”.
O representante da UNESCO mencionou que a nível global a literacia mediática é “desigual e não simétrica”, uma vez que “são poucos os países que contam com políticas públicas estruturadas”, embora a sociedade civil, nomeadamente através da academia, realize práticas e pesquisas sobre o assunto em quase todos os países.
Neste sentido, Alexandre Le Voci Sayad explica que a UNESCO pretende desenvolver as competências críticas de literacia mediática e informacional, a partir da capacidade de aceder, localizar e navegar na informação em diferentes meios e plataformas. Para isso, é necessário “compreender como funcionam os ecossistemas mediáticos e as instituições informacionais“, rematou o consultor.
“A isso soma-se a análise e avaliação crítica dos conteúdos, fontes e narrativas, permitindo distinguir factos de opiniões, identificar desinformação, propaganda e viés, inclusive algorítmicos, e compreender o papel social, político e cultural dos media na formação da opinião pública e na vida democrática“, referiu.
De forma transversal, Alexandre Le Voci Sayad destaca “a importância da consciência ética e legal no uso da informação e das tecnologias, incluindo a inteligência artificial, e da aprendizagem ao longo da vida, que fortalece a autonomia crítica, a adaptação a contextos informacionais em constante mudança e a participação informada e responsável”.
“Nenhuma nação está 100% preparada para o fenómeno da desinformação”
O consultor da UNESCO na área da educação mediática, Alexandre Sayad, admitiu também, em entrevista à Lusa, que nenhum país está totalmente preparado para lidar com a desinformação. “Todas as partes do mundo contam com países vulneráveis e nenhuma nação está 100% preparada para o fenómeno da desinformação”, afirmou Alexandre Le Voci Sayad.
Para o representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), trata-se de uma corrida constante por políticas que cubram educação pública, baixa escolarização, baixo nível de aprendizagem e que permitam combater a desinformação, vista como uma “preocupação fundamental”.
“A desinformação é um fenómeno que abarca desde o excesso de informação até à informação imprecisa, bem como notícias que são criadas propositadamente para prejudicar um grupo um indivíduo”, esclareceu o responsável da organização. Alexandre Le Voci Sayad considerou que o aumento da desinformação em tempo eleitoral, em conjunto com o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA), elevam a desinformação a um nível mais complexo.
Assim, de forma a estabelecer uma estratégia de combate, o representante da UNESCO salientou a necessidade de aliar a literacia mediática e a literacia informacional. “O objetivo é de colaboração entre as muitas epistemologias existentes neste campo trazendo uma visão focada em competências, e não apenas em abordagens ou origens académicas”, rematou o responsável.
Alexandre Le Voci Sayad referiu ainda que “combater a desinformação é olhar para a regulação dos meios digitais, para os Direitos Humanos, para o acesso, qualidade e equidade da educação básica, para a liberdade de imprensa e também para as políticas de literacia mediática e informacional. Sem algum desses pontos, tudo fica incompleto”.
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