Presidenciais. Terminados os debates televisivos, qual a estratégia dos candidatos para o resto da campanha?
Encerrados os debates televisivos e depois da pausa das festas, candidatos vão reforçar a campanha tradicional de rua, mas cada um tem desafios específicos para ultrapassar.
Vinte e oito debates depois e após a pausa das festividades, há candidatos que se vão fazer à estrada a 4 de janeiro, para as presidenciais mais concorridas de sempre, que terão de levar na bagagem ligeiros ajustes na estratégia. É pelo menos essa a recomendação dos politólogos ouvidos pelo ECO, depois de um período intenso de frente a frente que não contrariaram a elevada fragmentação, antes pelo contrário.
Agora, a corrida deverá pausar momentaneamente, devido ao período festivo, para arrancar em força nos primeiros dias de janeiro. Mas aí será uma campanha completamente diferente. A tentação natural será uma busca mais intensa dos contactos de rua, mas esse exercício é mais fácil e natural para uns candidatos do que para outros.
“António José Seguro e Marques Mendes podem beneficiar em alguma medida das máquinas partidárias, com vantagem para Marques Mendes. Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo têm desafios específicos e Ventura corre numa pista autónoma, em que na primeira volta o objetivo é consolidar o eleitorado do Chega”, antevê André Azevedo Alves, professor de ciência política da Universidade Católica Portuguesa, sobre o capítulo que se segue.
No que toca ao almirante, há um desafio particular, depois de uma temporada de debates que não lhe correu bem. Neste sentido, correr atrás do prejuízo é a recomendação. “A campanha tem neste momento de procurar inverter o rumo de declínio. O que a campanha precisava era de reconverter ou reorientar essa perceção usando a ideia de ‘não é tão bom a debater, porque não sabe truques de política, é um de nós”, aconselha.
Para Bruno Ferreira Costa, professor de Ciência Política na Universidade da Beira Interior, “uma questão interessante é como vai Gouveia e Melo lidar com o facto de não ter aparelho e estrutura partidária por trás. Vai procurar uma campanha mais protegida ou vai tentar fazer comícios em salas que podem ficar algo despidas, até pelo cansaço dos portugueses em relação à campanha?”, interroga. Lembra, aliás, que os debates têm vindo a perder alguma audiência, “porque neste momento toda a gente já sabe praticamente tudo o que precisa de saber sobre os candidatos”.
Uma questão interessante é como vai Gouveia e Melo lidar com o facto de não ter aparelho e estrutura partidária por trás. Vai procurar uma campanha mais protegida ou vai tentar fazer comícios em salas que podem ficar algo despidas?
Para além disto, o especialista espera uma mobilização significativa da máquina partidária do PSD em apoio a Luís Marques Mendes, “superior à que deveremos ver do PS em relação a António José Seguro, devido às divisões internas no partido”.
Bruno Ferreira Costa deixa ainda outras pistas para quando a campanha retomar em força. A primeira “é um exercício previsível de dramatização da questão do voto útil, tanto à esquerda como à direita, por parte de candidatos como Marques Mendes ou Seguro”.
A segunda questão é “ver se há desistências à esquerda, que não me parecem totalmente afastadas, nomeadamente dos candidatos Jorge Pinto e Catarina Martins“. Por último, o professor da Universidade da Beira Interior manifesta “curiosidade acerca do impacto do candidato Vieira [Manuel João Vieira] na campanha”.
“Em eleições anteriores tivemos candidatos claramente anti-sistema ou fora do sistema, como o Tino de Rans ou José Manuel Coelho, que conseguiram votações ali nos 3/4%. Um candidato tão disruptivo como este pode vir a dinamizar a campanha, de certa forma”.
Quem ganhou e quem perdeu os debates televisivos?
Com o período de debates televisivos encerrado na segunda-feira com o encontro que opôs Luís Marques Mendes e Henrique Gouveia e Melo, o politólogo André Azevedo Alves destaca dois candidatos: Gouveia e Melo e João Cotrim de Figueiredo, um pela negativa e outro pela positiva. “Não há um momento em particular, mas no balanço geral correu francamente mal a Gouveia e Melo”, considera.
Não há um momento em particular, mas no balanço geral correu francamente mal a Gouveia e Melo.
André Azevedo Alves recorda que, antes do arranque dos frente a frente televisivos, existia um “grande ponto de interrogação” sobre o desempenho do almirante na reserva dada a “falta de experiência política e de debates”, sobretudo perante umas eleições tão unipessoais. E não surpreendeu pela positiva.
“Se há uma candidatura que sai mais fraca é a de Gouveia e Melo“, enfatiza o professor de ciência política, realçando que “seria inevitável algum desinflar” das sondagens iniciais, mas “os debates acentuaram a tendência negativa” em que a campanha caminhava. “Aquele que partia como claríssimo favorito chega ao fim dos debates com dúvidas se vai conseguir passar à segunda volta“, sublinha.
A mesma opinião tem Bruno Ferreira Costa. Ao ECO defende que há duas figuras de destaque nesta espécie de primeira volta da campanha. E no lado negativo está Henrique Gouveia e Melo, devido sobretudo a dois fatores: a sua “inabilidade e falta de experiência política” e também o facto de “os debates se terem centrado muito em temas da atividade legislativa, o que é mais difícil para o almirante porque não teve nenhuma ligação anterior a esses dossiês”.
A sondagem mais recente, a da Pitagórica para a TVI/CNN Portugal divulgada na segunda-feira, coloca Marques Mendes a liderar as intenções de voto, com 20,7%, seguido de perto por António José Seguro, com 19,9%, e André Ventura, com 19,1%, sendo a diferença entre os três inferior à margem de erro. Por seu lado, Henrique Gouveia e Melo conquista 15% das intenções de voto, enquanto João Cotrim Figueiredo está a 0,1 ponto percentuais do almirante.
Há uma flutuação que é normal na medida em que há novidades e acrescento de elementos que obrigam os candidatos a apresentar a sua visão na praça pública.
“A campanha esta ainda numa fase de evolução, porque não conseguimos ainda antever dois ganhadores claros que passarão à segunda volta. Há uma parcela de eleitores que ainda estão a definir a sua opinião, os indecisos que são um valor bastante significativo, e uma flutuação que é normal na medida em que há novidades e acrescento de elementos que obrigam os candidatos a apresentar a sua visão na praça pública“, sublinha Paula Espírito Santo, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa.
Para a politóloga, “havia um candidato que se destacava – Henrique Gouveia e Melo – numa altura em que os candidatos não estavam ainda posicionados e seria normal que se apresentasse em vantagem”.
Porém, “é normal que quando se definem novos avanços em termos de candidaturas e se esmifram argumentos de uma maneira mais concreta, já não se está no abstrato, os candidatos já se digladiaram nos debates”.

Numa corrida “altamente fragmentada onde os debates pouco alteraram”, André Azevedo Alves elogia o até agora desempenho do ex-presidente da Iniciativa Liberal. “Não é uma surpresa completa, porque era expectável que tanto Cotrim Figueiredo como André Ventura tivessem um bom desempenho em debates. O fortalecimento dado pela generalidade das sondagens em que Cotrim passa de outsider para estar entre os principais candidatos mostra-o como um claro vencedor“, aponta Azevedo Alves.
Ainda assim, identifica-lhe um desafio adicional: conquistar o eleitorado mais velho. “Na última sondagem da Católica, Cotrim é que o tem a clivagem mais acentuada em termos de idade dos eleitores. Lidera nos sub-35 e com ensino superior, mas tem uma expressão bastante residual nos mais de 65 anos. O país está envelhecido e os mais jovens votam menos, por isso o grande desafio é conseguir transpor o apoio que tem nesses níveis”, vaticina.
Também Bruno Ferreira Costa aponta Cotrim como o principal destaque positivo até aqui. “Os debates correram-lhe bem mas não atribuo a sua subida só aos debates, é preciso ver o tipo de campanha que está a fazer, muito bem montada, nomeadamente nas redes sociais”, defende o professor, salientando a ideia forte da campanha de colocar os filhos a convencer os pais e avós a votar em Cotrim, procurando fazer subir a sua influência a idades mais avançadas.
Para Bruno Ferreira Costa, “tal como é inegável que Gouveia e Melo cai – mas aí vinha de valores muito altos antes de se conhecer o leque completo de candidatos –, Cotrim de Figueiredo consegue passar de perto de 6/7% para se intrometer na corrida a uma segunda volta”.
Não é uma surpresa completa, porque era expectável que tanto Cotrim Figueiredo como André Ventura tivessem um bom desempenho em debates.
Entre os restantes favoritos, Azevedo Alves sublinha que, a fazer fé nas sondagens, André Ventura “conseguiu aquele que era o seu principal objetivo: consolidar o eleitorado o Chega”.
Para Bruno Ferreira Costa, “Ventura segura o eleitorado do Chega, o seu eleitorado, e se for a uma segunda volta vai poder dizer que os outros uniram-se todos contra si e usar isso para a corrida que verdadeiramente lhe interessa, as legislativas”.
“Não expande muito além disso ao contrário de Cotrim, em que as sondagens lhe dão maior resultado do que o alcançado pela IL, mas consegue segurar o eleitorado”, aponta Azevedo Alves. Ainda assim, acredita que se o líder do Chega “continuar assim tem todas as condições para passar a segunda volta e arriscaria até a dizer sendo o mais votado da primeira volta”.
Paralelamente, o professor de ciência política considera que António José Seguro teve um “desempenho globalmente razoável”. “Não é particularmente carismático, mas tem experiência política. Sem ser um candidato particularmente entusiasmante, conseguiu em vários momentos colocar Gouveia e Melo em dificuldades”, justifica.
No que toca a Marques Mendes, entende que, embora este não tenha cometido “erros graves” nos debates, “continua sem conseguir persuadir perto do pleno o eleitorado da AD, o que é problemático”.
André Azevedo Alves assinala que Marques Mendes “continua sem conseguir persuadir perto do pleno o eleitorado da AD, o que é problemático”.
“Tem uma base de apoio potencial partidário maior do que Antonio José Seguro e beneficia de não ter o tipo de divisão que há dentro do próprio PS, onde a situação é mais aberta e José Luís Carneiro tem menos ferramentas para controlar a união”, indica, recordando que, de acordo com a última sondagem do CESOP – Universidade Católica Portuguesa para a RTP, Antena 1 e Público, só um terço do eleitorado da AD é que declara votar Marques Mendes.
Nesta sondagem, com redistribuição de indecisos, André Ventura lidera, com 22%, seguido de Luís Marques Mendes (20%) e Henrique Gouveia e Melo (18%), ficando os três “em situação de empate técnico”, tendo em conta as margens de erro.
“Neste momento, quando já estamos próximos das eleições, com o apoio claro da AD, as percentagens de Marques Mendes são sinal claro de escassa confiança e capacidade de persuasão“, considera Azevedo Alves.
Antes do último debate, desta segunda-feira, o confronto entre André Ventura e Luís Marques Mendes tinha sido o mais visto até dia 21, com 1.242.261 telespectadores; em sentido contrário, António Filipe e Catarina Martins, com 403.857 espectadores, protagonizaram o debate menos visto.
Antes dos candidatos arrancarem em campanha oficial, os portugueses ainda poderão voltar ouvi-los, desta vez a trocar argumentos a oito e através da radio (Antena1, Observador, Renascença e TSF), no dia 2 de janeiro.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Presidenciais. Terminados os debates televisivos, qual a estratégia dos candidatos para o resto da campanha?
{{ noCommentsLabel }}