“Dia histórico para o multilateralismo”. As reações políticas ao acordo UE-Mercosul

Nas primeiras reações à luz verde dos Estados-membros da UE ao acordo comercial com o Mercosul, alguns líderes não resistiram a deixar recados ao "unilateralismo" de Washington. Leia as reações.

No dia em que que os Estados-membros deram ‘luz verde’ ao acordo com Mercosul, os líderes políticos começaram a reagir à decisão do Conselho da União Europeia. “É um dia histórico”, “Um passo decisivo” ou “Todos vão sair a ganhar”. Conheça a posição dos vários intervenientes.

O Presidente brasileiro, Lula da Silva, classificou a decisão dos 27 Estados-membros como um “dia histórico para o multilateralismo”, num recado à política isolacionista da administração Trump que ainda esta semana retirou os EUA de 66 instituições internacionais.

A assinatura do acordo entre a UE e o Mercosul esteve prevista para 20 de dezembro, quando o Brasil ainda tinha a presidência rotativa do Mercosul, mas Itália colocou obstáculos de última hora à procura de novas garantias para os agricultores. Apesar de ensaiar um ultimato na altura, Lula acabou por concordar em dar mais tempo a Bruxelas para conseguir o compromisso num acordo que começou a ser negociado em 1999.

A data da assinatura esteve para ser 12 de janeiro, a próxima segunda-feira, mas agora parece assente que Ursula von der Leyen viajará para Assunção, capital do Paraguai (que conduz o Mercosul), no dia 17 de janeiro para formalmente assinar o acordo. “Após 25 anos de negociação, foi aprovado o Acordo entre Mercosul-União Europeia, um dos maiores tratados de livre comércio do mundo”, referiu Lula da Silva através de uma publicação na rede social X.

“Em um cenário internacional de crescente protecionismo e unilateralismo, o acordo é uma sinalização em favor do comércio internacional como fator para o crescimento económico, com benefícios para os dois blocos”, acrescentou.

Também o presidente do governo espanhol celebrou um mundo multilateral. “Até que enfim”, reagiu Pedro Sánchez, nas redes sociais. “No mundo atual, nem tudo se resume a tarifas, ameaças e más notícias. Estamos a construir novas pontes e alianças para forjar uma prosperidade partilhada”, escreveu.

Também o presidente do Conselho Europeu, António Costa, assegurou que “hoje é um bom dia para a Europa e para os parceiros do Mercosul”, reforçando que o acordo “demonstra que as parcerias comerciais baseadas em regras são benéficas para todas as partes”.

O antigo primeiro-ministro português defende que o “acordo traz benefícios concretos para os consumidores e empresas europeias”, “reforça os direitos dos trabalhadores, a proteção ambiental e as salvaguardas para os agricultores europeus”.

Em declarações mais formais, o Presidente da República português também saudou esta sexta-feira a aprovação do acordo, considerando que é “um passo decisivo” para reforçar as relações económicas e políticas entre a Europa e a América Latina.

“O Presidente da República saúda a aprovação, pelo Conselho de Ministros da União Europeia, do Acordo Mercosul, um passo decisivo para o reforço das relações económicas e políticas entre a Europa e a América Latina”, lê-se na nota publicada no sítio oficial da Presidência da República.

O primeiro ministro português assinala que “é um passo essencial para reforçar a autonomia estratégica da UE, aumentar os mercados de exportação para as empresas e afirmar a Europa como um bloco comercial forte e atrativo”.

“Após 25 anos de negociações, o Conselho da UE aprovou hoje a assinatura do acordo com o Mercosul. Congratulo-me com esta decisão há muito defendida por Portugal e que contou com o nosso apoio ativo”, escreve Montenegro nas redes sociais.

Por sua vez, Ursula von der Leyen considerou a decisão desta sexta-feira “histórica”. “A Europa está a enviar um sinal forte. Levamos a sério o crescimento, a criação de empregos e a garantia dos interesses dos consumidores e empresas europeias. Com o Mercosul, estamos a criar um mercado comum de 700 milhões de pessoas. E tantas novas oportunidades”, escreveu na rede social X.

O presidente da Argentina, Javier Milei, nota que “as boas notícias continuam”, enquanto o ministro do comércio internacional argentino, salienta que “todos vão ganhar” com este acordo. “A Argentina e os países do Mercoul vão ter acesso preferencial à UE, a terceira maior economia global, um mercado de 450 milhões de pessoas, que representa cerca de 15% do PIB mundial”, escreve Pablo Quirno nas redes sociais.

 

O chanceler alemão, Friedrich Merz, considerou que a decisão agora alcançada constitui “um marco” que permite um importante sinal da soberania estratégica e da capacidade de ação da UE, de acordo com um comunicado.

“Com este tratado, fortalecemos a nossa economia e as relações comerciais com os nossos parceiros na América do Sul. Isto é bom para a Alemanha e para a Europa”, afirmou, lamentando, no entanto, que tenham sido precisos 25 anos de negociações.

Na manhã desta sexta-feira, numa primeira votação, pelos embaixadores dos Estados-membros junto da UE (Coreper), a proposta passou, apesar dos votos contra da França, Polónia, Áustria, Irlanda e Hungria e da abstenção da Bélgica.

França foi um dos países que votou contra o acordo, como antecipou esta quinta-feira o presidente francês, Emmanuel Macron. Mas a primeira reação veio da oposição de extrema-direita.

Marine Le Pen afirma que “França não se pode contentar com um simples voto “contra” o acordo de livre comércio com o Mercosul e apela “ao Presidente da República para defender os interesses da nação” e anunciar “se necessário, a suspensão da contribuição da França para o orçamento da União Europeia”.

A ministra francesa da Agricultura, Annie Genevard, anunciou esta sexta-feira um plano de medidas de curto prazo e estruturais, orçado em 300 milhões de euros, para responder aos protestos dos agricultores franceses que estão contra o acordo comercial.

No começo da conferência de imprensa, Genevard assegurou que o governo escutou o “grande sinal de alarme” lançado pelos agricultores, que na véspera manifestaram-se contra o acordo com o Mercosul, em vários locais de Paris.

O ministro da Agricultura polaco anunciou esta sexta-feira que Varsóvia contestará junto do Tribunal de Justiça europeu o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, contra o qual prometeu “esgotar todos os recursos legais”.

O ministro Stefan Krajewski declarou que o governo polaco “mantém a mesma posição dos manifestantes que se opõem ao acordo” e prometeu “uma batalha legal”.

O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, afirmou também partilhar “os sentimentos dos agricultores e a sua oposição ao acordo”. No entanto, recordou que embora a Polónia tenha votado contra o acordo, foram incluídas “cláusulas de salvaguarda para proteger os interesses polacos”, referindo-se ao mecanismo previsto no acordo caso os preços agrícolas caiam mais de 5%.

Em comunicado divulgado após a votação, o vice-primeiro-ministro irlandês, afirmou que a “Irlanda continuará a opor-se ao acordo com o Mercosul. Simon Harris referiu ainda que o Governo é a favor do livre comércio, mas “não a qualquer custo”, destacando ainda que a “Irlanda continuará a trabalhar para alterar o acordo de forma a proteger os agricultores”.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

“Dia histórico para o multilateralismo”. As reações políticas ao acordo UE-Mercosul

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião