Gigantes ibéricas? Dos CTT à Sonae, conheça as parcerias luso-espanholas que podem inspirar a Galp
Galp e Moeve iniciaram negociações para criar gigantes ibéricas na energia. Conheça os grupos lusos que estabeleceram parcerias com empresas espanholas para ganhar escala no península.
A petrolífera portuguesa Galp e a Moeve anunciaram um acordo para discutir a fusão de redes de estações de serviço e refinarias. Uma parceria que pode criar um gigante no setor. Através destes contratos estratégicos, várias empresas têm tentado reforçar a sua presença ibérica, uns casos com mais sucesso do que outros. Dos correios, à energia e ao retalho, conheça as uniões com nuestros hermanos para ganhar dimensão num mercado onde poucas empresas portuguesas dão cartas.
CTT unem-se à DHL para distribuir encomendas online
Na mesma semana em que fecharam a aquisição da espanhola Cacesa, em dezembro de 2024, os CTT comunicaram uma “parceria estratégica” com a DHL para criar uma joint venture para “unir esforços” no comércio eletrónico em Portugal e Espanha. A parceria pretende abordar as oportunidades de crescimento nos mercados de e-commerce e distribuição de encomendas, explicam os CTT numa nota ao mercado.

O acordo entre as duas empresas pretendia criar uma rede abrangente de recolhe e distribuição em Portugal e Espanha, mas para chegar a essa realidade foram acordadas um conjunto de operações: a CTT Expresso vai comprar integralmente a DHL Parcel Portugal, os CTT adquirir 25% DHL Parcel Iberia, ficando com uma participação indireta através da holding Danzas. Já a espanhola DHL vai comprar uma participação de 25% na CTT Expresso. Assim, a DHL em Portugal ficará integrada na CTT Expresso, que se tornará a distribuidora de e-commerce da DHL em Portugal.
Sonae ataca no retalho, beleza e bem-estar
O grupo Sonae conta com vários negócios no país vizinho. Com uma faturação acima de mil milhões em Espanha, a empresa da família Azevedo tem procurado crescer no país através de parcerias estratégicas em vários setores. A mais recente foi no retalho de beleza e bem-estar, através da compra de 50% da Druni, fundada em 1987 e detida a 100% pela família Casp detém uma rede de mais lojas localizadas em Espanha. O negócio, concluído em julho de 2024, permitiu a “combinação dos negócios” da Druni e da Arenal Perfumarias, retalhistas de perfumaria, cosmética e parafarmácia em Espanha, que resultará na criação de um operador líder no segmento de saúde, bem-estar e beleza em Espanha, com mais de 470 lojas e um volume de negócios superior a mil milhões de euros.
“No âmbito desta transação, a MC adquiriu uma participação de 50% na Druni por contrapartida da sua participação de 60% na Arenal, juntamente com um investimento de cerca de 148 milhões de euros e um montante condicional de até 36 milhões de euros a ser pago em 2025 e 2026”, lê-se no comunicado publicado esta CMVM. Estes 148 milhões de euros são superiores aos 112 inicialmente anunciados.

A outra faceta do negócio foi os acionistas fundadores da Arenal venderem a sua posição de 40% na Arenal à Druni por 81 milhões de euros. Assim, “a entidade combinada é agora uma parceria 50-50 entre a MC e os acionistas fundadores da Druni”, explica a mesma nota, sendo que a Druni será “integralmente consolidada pela MC e pela Sonae, em consequência dos direitos contemplados no acordo de acionistas”.
Através da Sierra, a Sonae opera no setor imobiliário, como promotora e gestora de centros comerciais e projetos residenciais, e gere com o Bankinter a ORES, empresa que investe em ativos imobiliários na Península Ibérica.
Bondalti no bom caminho para controlar Ercros

Fábrica da Bondalti em Torrelavega, na Cantabria, Espanha 26 de Outubro de 2021.
Ainda por concluir está a entrada da Bondalti na Ercros. A empresa portuguesa do grupo Mello anunciou em março de 2024 uma OPA sobre a totalidade do capital da Ercros, oferecendo uma contrapartida de 3,505 euros [ajustada ao pagamento de dividendos], um valor que avalia a empresa em 320 milhões de euros. Depois de um longo período de espera, a operação está agora a entrar na fase final e as probabilidades de sucesso são hoje maiores.
Para garantir que tem mais hipótese de controlar a gigante espanhola, a portuguesa Bondalti baixou o mínimo de aceitação para que a oferta tenha sucesso de 75% para 50%, criando as condições para que a operação seja concluída com sucesso. O regulador do mercado deverá divulgar brevemente prospeto da OPA, depois da luz verde da autoridade da concorrência espanhola, a Comissão Nacional de Mercados e Concorrência (CNMC), à oferta da empresa do Grupo José de Mello sobre a Ercros no final de outubro, enviando o processo para o Ministério da Economia espanhol, que deixou via aberta para a OPA no final de novembro.
Sem a oposição de Madrid, a OPA está agora do lado do regulador do mercado, a CNMV, para aprovação do prospeto e publicação do anúncio da oferta, iniciando-se, posteriormente, o período de aceitação.
A união das duas empresas iria permitir a criação de sinergias e reforçar a posição estratégica no setor. “Para a Bondalti, a aquisição tem uma forte lógica industrial: ambas as empresas operam no setor do cloro e seus derivados (hipoclorito de sódio e soda cáustica), e a combinação criaria um líder ibérico com maior escala, sinergias operacionais e complementaridade geográfica entre Portugal e Espanha“, disse Pablo Victoria Rivera, analista sénior da Lighthouse – Instituto Español de Analistas, em respostas recentes ao ECO.
A fábrica de Torrelavega, na Cantábria, inaugurada em 2019, permitiu posicionar a Bondalit como o principal produtor no segmento do cloro-álcalis na Península Ibérica. As instalações adquiridas pela Bondalti, no interior do complexo da Solvay Química, foram alvo de um profundo processo de modernização, num investimento que ascendeu a cerca de 60 milhões de euros, sublinha a empresa no site instituicional. A fábrica é operada através da Bondalti Cantábria.
Troca de participações entre REN e homóloga espanhola
A energia é um dos setores onde têm sido estabelecidas parcerias estratégicas. A Redes Energéticas Nacionais (REN) e a Red Eléctrica de Espanha (REE) alinharam esforços em 2007, com a formalização de uma aliança estratégica com o objetivo de aproveitar as sinergias entre as duas empresas nas atividades desenvolvidas em Portugal e Espanha. No acordo assinado nessa ocasião, as empresas adiantavam que iriam coordenar investimentos “em particular, no desenvolvimento das interconexões entre os sistemas elétricos português e espanhol”.
No âmbito deste acordo, a REE chegou a acordo com a Energias de Portugal (EDP) para comprar 5% da REN, no IPO de julho de 2007, uma posição que mantém. Já a REN adquiriu 1% do capital da espanhola.
Ataque da Abertis à Brisa levou a fim de relação
A concessionária de autoestradas Brisa também chegou a tentar uma parceria com a Abertis. Contudo, neste caso, o casamento acabou em divórcio. O acordo, anunciado em 2002, chegou ao fim cinco anos depois, na sequência de um movimento dos espanhóis, que reforçaram no capital da concessionária portuguesa sem lhe comunicarem. Esta decisão surgiu após a Abertis ter reforçado, à revelia, de 10% para 15% no capital da Brisa.
No âmbito do acordo, a Brisa chegou a ter 5,77% da Abertis, controlando na data do fim do entendimento apenas 1% da empresa. Anos mais tarde, em 2012, a empresa espanhola aceitou vender a sua participação de 15,01% na Brisa à Tagus Holdings, saindo do capital da empresa portuguesa.
Espanhóis no capital das maiores cotadas
Há ainda posições relevantes de espanhóis em cotadas lusas. São quatro as grandes companhias portuguesas no índice PSI que têm posições qualificadas superiores de 5% nas mãos de acionistas espanhóis.
A participação mais valiosa está nas mãos da família Masaveu que, através da Oppidum, controla uma participação de 6,82% no capital da EDP, avaliada acima de mil milhões de euros. A REN, além da REE, conta ainda com a Pontegadea Inversiones, detida por Amancio Ortega, que controla 12% do capital da REN. O dono da Inditex — que detém marcas como a Zara e é também uma das maiores empresas por volume de faturação em Portugal — a assumir-se como o segundo maior acionista da empresa portuguesa, desde que entrou no capital em 2021.
Nos correios, a Global Portfolio Investments, holding financeira da espanhola Indumenta Pueri, que por sua vez é a dona da fabricante de roupa infantil Mayoral, reforçou em junho do ano passado no capital dos CTT e chegou a superar a fasquia de 15% no capital da empresa, tornando-se o maior acionista. No entanto, entretanto, a posição baixou para 14,29%.
A fechar a lista de empresas onde são conhecidas participações qualificadas — posições acima de 5% — surge a Sonae. A espanhola Criteria Caixa, dona do CaixaBank, que detém o BPI, entrou na Sonae em 2019 com uma posição qualificada de 2%, uma participação que aumentou, em 2023, para 5%.
Estas posições apenas têm em conta as participações acima de 5%, uma vez que este é o limite considerado pelo novo código dos valores mobiliários, em vigor desde janeiro de 2022, a partir do qual as participações têm que ser reveladas ao mercado. Ou seja, tudo que esteja abaixo deste limiar (5%) não tem de ser divulgado publicamente, pelo que o domínio espanhol no capital das cotadas poderá ser superior.
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