Numa “rua do Monopólio”, Feels Like Home investe sete milhões de euros no Hotel 1904 Benfica
No mesmo lugar onde os benfiquistas viam os jogos da equipa e admiravam as suas taças, está agora o hotel 1904 Benfica, o 12.º do grupo Feels Like Home.
Antes de ler o texto que se segue, dois pontos prévios: nem o Benfica decidiu dedicar-se à hotelaria nem por este hotel se chamar 1904 Benfica vamos dormir a olhar para fotos do Eusébio (ainda que alguns pudessem ficar felizes com isso). As referências aos encarnados estão por todas as partes, exceto da porta dos quartos para dentro. Aí, vitórias e derrotas terão os mesmos tons – neutros.
O 1904 Benfica é o novo hotel do grupo Feels Like Home, o 12.º da marca em operação. É também o maior, com os seus 52 quartos. Abriu há uma semana, após 18 meses de obras e quase sete milhões de euros de investimento, conta ao ECO António Quintão, engenheiro civil e dono da empresa, que nos conduz pelos corredores e salas do 1904 Benfica Hotel, com vista para a Rua de Santo Antão e entrada pela Rua do Jardim do Regedor. A sede e secretaria do Benfica funcionaram aqui tal como o Bristol Club, ponto de encontro de artistas e intelectuais de 1918 a 1929.
Na hora de dar nome e conceito ao local, António Quintão diz que ainda ponderou não usar o Benfica. “Não sei qual é a aceitação”. “Mas, por outro lado, É o Benfica”, diz, e carrega no É, o pai do Sebastião, Luz e Beatriz – SLB. Após 18 meses de obras, obstáculos e uma derrapagem financeira (que explicará adiante), o hotel está de portas abertas. Quem entra pode esperar muito vermelho escuro nas paredes, vermelho vivo nas fardas da equipa e muitas camisolas da equipa – a primeira está logo à entrada e é a oficial deste ano. “A ideia é irmos mudando todos os anos”.
Nas escadas de acesso aos quartos, há um mural da autoria de Vhils a partir de uma fotografia de Cosme Damião, fundador do clube. Escada acima, espalhados pelos vários pisos, estão nichos com camisolas, fotografias, cartas e mensagens que evocam os nomes maiores do clube. Humberto Coelho, Shéu, Luisão, António Leitão, Alexandre Yocochi, e, claro, Eusébio, que também dá nome à sala dos hóspedes do hotel. António Quintão chama a atenção para as janelas e para o vanguardismo do edifício, datado início do século XX.
Na sua última vida, nesta mesma sala podiam admirar-se as taças do Benfica (hoje no Museu Cosme Damião), jogava-se bilhar e viam-se os jogos. O edifício pertence à Fundação Benfica e estava em avançado estado de degradação. Foi um lançado um concurso de concessão por 25 anos, a empresa de António Quintão concorreu e venceu.
“Eu não sabia que tinha espírito empreendedor, mas tenho”, conta António Quintão. Depois de vários pequenos negócios com um amigo, também engenheiro civil, em 2012 propôs-lhe fazer um aluguer de longa duração, reabilitar o edifício, fazer um alojamento local. “Ele é muito ponderado e durante 15 dias não me respondeu. Depois disse que sim”. Hoje gerem 650 apartamentos de alojamento local, um backoffice de gestão, uma empresa de construção. “Não tenho dívida, tenho custos muito controlados, só assim é possível”.
“Cada hotel é uma sociedade com um grupo de investidores. São os primeiros a receber”. Há contratempos. No excel, as obras de reabilitação do edifício do 1904 Benfica Hotel deveriam ter custado 5,5 milhões de euros, custaram sete milhões. “O objeto do início não é o final”. Este é o maior investimento da empresa até agora. Contam receber 30% ou mais de portugueses e estão a trabalhar parcerias com o Benfica para que noite e bilhete para o jogo possam ser comprados juntos. Para já, notam um pico de procuras para a noite do jogo Benfica-Real Madrid, a 28 de janeiro.

“Só temos hotéis pequenos”, conta. Em Lisboa, apenas na Baixa, e “em ruas do Monopólio”, diz. Também estão no Porto, Algarve, Coimbra, Ericeira. E vão abrir ainda quatro em Lisboa, mais um no Porto e outro no Funchal. E sabe o que não quer. “Não quero gerir restauração”, diz. Por isso, as refeições do 1904 Benfica Hotel são no Café de São Bento na Baixa, inaugurado esta semana. “Um amigo comum apresentou-se, disse que tínhamos de nos conhecer”. Foi assim que nasceu a parceria entre a Feels Like Home e o grupo de restauração de Miguel Garcia, responsável pelas refeições (incluindo pequeno-almoço) do hotel. E se no hotel se fala de Benfica, no Café de S. Bento evoca-se o Bristol Club, outro episódio importante da história do edifício. Sobreviveram – “e estavam em relativamente boas condições de conservação” – duas estátuas da autoria do escultor Leopoldo Almeida. De volta, a um lugar de destaque.
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