Abstenção baixa com luta renhida nas urnas. Idosos, urbanos e ‘doutores’ decidem presidenciais

Histórico das corridas ao Palácio de Belém mostra “forte dependência da participação em relação à competitividade percebida do ato eleitoral”. Conheça o perfil dos votantes nas presidenciais.

As eleições presidenciais deste domingo devem entrar para a galeria da política portuguesa como as mais renhidas de sempre, devendo até superar o duelo de 1986, que na era democrática foi o único que teve de ir a uma segunda volta. A confirmar-se a tendência verificada nas dez votações para o Palácio de Belém realizadas no último meio século, a taxa de abstenção irá baixar face à última ida às urnas.

No estudo “Abstenção Eleitoral em Portugal: Mecanismos, Impactos e Soluções”, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, os investigadores João Cancela e José Santana Pereira analisaram os padrões de participação dos cidadãos neste tipo de escrutínio e mostraram como “traço central” das presidenciais em Portugal a “forte dependência da participação em relação à competitividade percebida do ato eleitoral”.

Isto é, eleições sem incumbente tendem a gerar níveis de mobilização superiores, enquanto, a contextos de recandidatura – sobretudo quando essa nova vitória é mais esperada –, estão associadas taxas de abstenção mais elevadas. No caso das últimas, disputadas em 2021, e em que Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito, este efeito foi ainda agravado pelo contexto de pandemia que se vivia então, “particularmente adverso à participação eleitoral”.

A ‘euforia democrática’ não é a mesma do pós-revolução – nem mesmo as regras do recenseamento, já que só com a revisão constitucional de 1997 foi alargado o direito de voto em presidenciais aos emigrantes, que tendem a votar menos. Este domingo, depois de mais de 218 mil já se terem inscrito para votar antecipadamente, é impensável a taxa de abstenção aproximar-se sequer dos 21,8% daquele 26 de janeiro de 1986 em que Freitas do Amaral e Mário Soares garantiram a ida a uma segunda volta. No entanto, é esperado que fique abaixo da registada há quatro anos (60,8%), a maior de sempre.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Com base na análise feita por João Cancela e José Santana Pereira, que incluiu um inquérito a 2.405 eleitores feito entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022, e seis focus groups com abstencionistas e votantes intermitentes, a maior afluência às urnas este domingo deverá voltar a ser a verificar-se nos indivíduos com 66 anos ou mais, que revelam uma “propensão claramente superior” para votar sempre em presidenciais e menor incidência de abstenção persistente.

Se a eleição do chefe de Estado não atrai tanto os mais jovens, é igualmente menos atrativa para as classes sociais mais baixas e para os eleitores sem estudos universitários. Por outro lado, as diferenças de participação por género são classificadas pelos autores como “insignificantes”.

Outro aspeto curioso é que as presidenciais ocupam um lugar particular no imaginário político dos cidadãos menos mobilizados. Mesmo optando por não ir às urnas, a percentagem de inquiridos que identifica as eleições presidenciais como aquelas que têm “maior impacto direto” na sua vida é bem maior entre os votantes intermitentes e os abstencionistas (16%) do que entre os eleitores assíduos (6%).

Eleitores durante a votação antecipada para as presidenciais na Cidade Universitária, em Lisboa.MARCOS BORGA / LUSA 11 janeiro, 2026

Já do ponto de vista territorial e geográfico, as áreas urbanas e do litoral apresentam níveis de envolvimento relativamente mais elevados. Os valores mais baixos surgem no interior, nas regiões menos densamente povoadas e, em particular, nas regiões autónomas – com destaque para os Açores. Ao contrário do que sucede nas autárquicas, nas presidenciais não há uma mobilização mais intensa das áreas rurais, sugerindo que “a personalização da disputa não é suficiente para inverter padrões territoriais estruturais de participação”.

A probabilidade de votar em presidenciais é ainda influenciada pela distância do local de voto: 79% dos eleitores que residem a menos de 5 minutos das urnas dizem votar sempre, com a percentagem a baixar para 46% entre os que moram a mais de 30 minutos. Pelo menos, não deve chover. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê para este domingo temperaturas muito baixas, mas sol na generalidade do território.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Abstenção baixa com luta renhida nas urnas. Idosos, urbanos e ‘doutores’ decidem presidenciais

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião