A festa de Seguro, o homem que voltou para “unir todos os portugueses”
Rouco, com uma voz que, malgrado o microfone, por vezes era apagada pela efusiva aclamação na sala, assim chegou Seguro. Mais de uma dúzia de anos depois, volta a sentir ao que se sabe a vitória.

Da sua residência, nas imediações da sede de candidatura, Seguro terá ouvido pela televisão a festa vivida no Centro Cultural das Caldas da Rainha quando as televisões passaram, em uníssono, às 20 horas deste domingo, as sondagens a dar-lhe vitória.
Divididos em duas alas do Centro Cultural caldense, os apoiantes começaram a fluir para o foyer a partir das 19h50. Em escassos cinco minutos, o espaço encheu-se de gente, uns com, outros sem bandeiras, mas todos sorridentes. Havia cerca de uma hora que circulava por ali a indicação de sondagens muito favoráveis.
Quando finalmente chegaram as 20h00, a euforia ouvia-se fora do centro cultural. Seguro demorou cerca de dez minutos a chegar, entrando por uma porta lateral, não sem antes se deixar apanhar pelos jornalistas ainda na rua.
Lá dentro, ainda os mais persistentes gritavam, eufóricos, vivas ao candidato, a inevitável rima simples — “Portugal presente, Seguro a Presidente” –, seguidas de “Portugal, Portugal, Portugal”, e de “Seguro, Seguro, Seguro”. Dezenas reencaminharam-se para o mesmo auditório onde foi dado o tiro de partida para esta candidatura, ainda Seguro era acusado por destacados socialistas como impróprio para consumo presidencial – nem um ano foi necessário para que a ausência de candidatos “apoiáveis” pelo PS se tornasse na resignação de personalidades como Augusto Santos Silva, dando razão aos que, como João Soares, apontaram o ex-secretário-geral do partido como o candidato seguro na escolha para Presidente.
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António José Seguro na noite eleitoral das presidenciais 2026 Henrique Casinhas/ECO -
António José Seguro na noite eleitoral das presidenciais 2026 Henrique Casinhas/ECO -
António José Seguro na noite eleitoral das presidenciais 2026 Henrique Casinhas/ECO -
António José Seguro na noite eleitoral das presidenciais 2026 Henrique Casinhas/ECO -
António José Seguro na noite eleitoral das presidenciais 2026 Henrique Casinhas/ECO -
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António José Seguro na noite eleitoral das presidenciais 2026 Henrique Casinhas/ECO
Seguro não desiludiu estes últimos, e do filho do mais destacado socialista português, vieram palavras que não escondiam a satisfação com o primeiro lugar. A vitória é “um ato de justiça em relação a António José Seguro, um homem sério, digno, sereno, um humanista, um verdadeiro social-democrata. Ele representa uma perspetiva muito boa para Portugal e, sobretudo, para os portugueses”, afirmava João Soares ao ECO.
“No dia 8, é no Seguro, que eu votar, vou votar/tar/tar”, gritava-se no auditório, já passava das 22h50, seguindo a batida de “Bella Ciao”, a banda sonora da série Casa de Papel, na qual um bando de fora da lei consegue reunir a simpatia da população. Neste domingo, Seguro, malquisto pelas “leis” de parte do Partido Socialista, reuniu cerca de 1,7 milhões de portugueses à sua volta.
O candidato vencedor que o PS andou meses a não querer
Uns 40 minutos depois, a apoteótica chegada de Seguro, preparada com a necessária dose de avisos entre os presentes: “ele vem aí”. Caras destacadas do PS, só as de outros tempos, como a ex-ministra da Saúde Ana Jorge ou o ex-ministro da Justiça Alberto Martins. José Luís Carneiro, secretário-geral, discursara longe dali, no Largo do Rato. Pedro Nuno Santos (PNS), que numa tirada eventualmente irónica, aventou o nome de Seguro para Presidente, também não se viu. Dos próximos destes viu-se Álvaro Beleza, mandatário de PNS na derrota contra Montenegro em 2024.
Na comparação com as Legislativas de há menos de um ano, António José Seguro, ex-secretário-geral socialista provou nesta primeira volta das Presidenciais ser mais forte que o próprio partido. A 18 de maio, o PS reuniu 1,44 milhões de votos, correspondentes a 22,8% do total, num dia eleitoral com 41,80% de abstenção, em linha com o valor deste domingo.
À frente, em maio, ficou o PSD de Luís Montenegro, apoiante de Luís Marques Mendes, o agora candidato que acaba esmagado face aos 1,97 milhões de votos nos social-democratas nas últimas Legislativas. Seguro ficou, neste domingo, a menos de 300 mil votos da AD, a aliança que governa o país.
Nas únicas eleições em que o PS foi a eleições sob a liderança de Seguro, as Europeias de 2014, os socialistas reuniram um milhão de votos, correspondentes a 31,3% – a vitória que António Costa, à data presidente da Câmara de Lisboa e então putativo candidato a secretário-geral do PS, disse ter sido “por poucochinho”. Nessas Europeias em que se registou uma abstenção de 66%, o PSD ficou em segundo, com 910 mil votos (27,7%), pouco mais de metade do candidato Seguro.
Eu diria que, de forma sintética, a democracia continua a viver no coração das portuguesas e dos portugueses.
“Um candidato supra-partidário”, destacou José Luís Carneiro ao início da noite, reagindo na sede socialista, no Largo do Rato, a cerca de hora e meia das Caldas da Rainha. “António José Seguro é o grande vencedor desta noite eleitoral”, destacou, à distância, o líder socialista, enaltecendo que este “nunca reagiu às múltiplas provocações dos adversários”.
Eram 23h01 quando a voz-off veio dizer que só faltava ouvir André Ventura para que Seguro subisse ao auditório. “Candidato íntegro, candidato épico, és a nossa fé, força Seguro allez”, cantava-se em ritmo de claque de futebol para manter a “equipa” animada para o apogeu, a chegada de António José Seguro.

Se Cotrim entrou na sede de campanha ao som da música “Thunderstruck”, foi Seguro que provocou o “choque” que os AC/DC cantam: há um ano, noutro termo anglosaxónico, era o “underdog”, um candidato na cauda da tabela dos grandes. No mês em que apresentou candidatura, junho de 2025, no barómetro da Intercampus para o Jornal de Negócios, Correio da Manhã e CMTV, Seguro era notícia porque tinha superado Ventura e tornava-se… terceiro.
Gouveia e Melo liderava destacado, mas já com perda de fulgor face à grande vitória à primeira volta que lhe chegaram a dar estudos de opinião. Marques Mendes ia no encalço. O dia 18 de janeiro veio provar que os blocos estavam no sítio errado.
Enquanto Ventura falava, as televisões calaram-se
“Seguro, Seguro, Seguro”, gritou-se, em grande euforia, já passava das 23h30.
Já todos os candidatos tinham falado. Mendes e o líder social-democrata, que é também primeiro-ministro, já tinham dito para não contarem com manifestações suas na segunda volta. Também Cotrim se afastou. Gouveia e Melo falou e nada disse, deixando para outro dia o esclarecimento sobre uma eventual posição de apoio ao candidato com quem chegou a jantar, ou àquele que já liderou o partido do qual o almirante chegou a dizer, na campanha, que também era representante.
Ventura havia acabado de assegurar que iria “liderar o espaço não socialista em Portugal”. No momento dessas declarações, os dois ecrãs montados no auditório do Centro Cultural das Caldas da Rainha já não mostravam imagens dos canais de televisão. Só a imagem estática de campanha: “Seguro Presidente”.
“Regressei para unir todos os portugueses”, anunciou Seguro no seu discurso, após cinco minutos a atravessar o auditório, durante os quais saltou para uma cadeira para se mostrar à multidão.
De uma assentada, proferiu as palavras que tornam terra prometida para uma segunda volta o espaço entre si e o adversário e destacou as duas faces do político Ventura: “Entre mim e o deputado André Ventura há um oceano de diferenças”. À sua volta, centenas exultavam com esta vitória na primeira volta das Presidenciais, quase uma dúzia de anos após o vencedor desta noite ter sido superado por António Costa na luta pela liderança do PS, deixando Seguro na história do partido (o mesmo que ele agora dispensa nas Presidenciais) como o secretário-geral que intermediou dois líderes fortes socialistas, José Sócrates e António Costa, ao longo de três anos de “passismo”.
António José Seguro ouvira, ainda antes de chegar ao auditório, o desafio deixado por Ventura nas televisões: a partir de domingo está aberta a luta entre o espaço socialista e espaço não socialista.
Convido todos os democratas, todos os progressistas e todos os humanistas a juntarem-se a nós, para, unidos, derrotarmos o extremismo
“Esta não é uma candidatura partidária, nem nunca será”, assegura o homem que diz ter recebido “votos de todos os quadrantes políticos, o que reforça a natureza independente desta candidatura. Sou livre, vivo sem amarras, e assim agirei como Presidente da República”.
Com a falta de empenho de dois candidatos – Mendes e Cotrim – que reuniram mais de 27% dos votos e a indefinição do almirante, que segurou outros 12%, Seguro pede que não se tome a vitória como certa. Aos que não passaram à segunda volta, lança “uma palavra de apreço e respeito” e diz que “não há derrotados, porque todos somos democratas. O país continuará a contar com o contributo de cada um de vós”. A mensagem é clara: “convido todos os democratas, todos os progressistas e todos os humanistas a juntarem-se a nós, para, unidos, derrotarmos o extremismo”.
Apesar de não ter sido querido por parte do seu PS até muito perto da campanha eleitoral, e de nesta noite assegurar não rejeitar o apoio do PS – ressalvando: “sou eu que defino as minhas estratégias” Seguro é mesmo o representante desse espaço socialista e, tal como os candidatos à sua esquerda deram a entender, será o líder desse espaço no embate de 8 de fevereiro.
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