Do “somos todos democratas” de Seguro ao “socialismo corrompe” de Ventura. As frases da noite eleitoral

Os cinco candidatos mais votados no domingo dividiram-se entre responsabilidades da derrota, apoios da esquerda a Seguro, o anti-socialismo de Ventura e críticas à falha estratégica do PSD por Cotrim.

O próximo Presidente da República vai ser escolhido na segunda volta das eleições, na qual se defrontarão André Ventura ou António José Seguro, mas a noite eleitoral deste domingo contou com intervenções marcantes dos vários protagonistas. Na primeira etapa da corrida a Belém destacaram-se os candidatos apoiados pelo Chega e pelo PS, e os seus discursos vitoriosos, enquanto as declarações dos restantes adversários se dividiram entre derrotas assumidas, apoios declarados e exclusão de apoios.

Luís Montenegro, enquanto secretário-geral do PSD, falou logo no início da noite eleitoral para deixar uma mensagem clara: o partido não se revê em nenhuma das opções da segunda volta, portanto não apoiará ninguém. “Não emitiremos nenhuma indicação. Nem é suposto fazê-lo”, afirmou, após uma reunião da Comissão Permanente Nacional.

“Espaço político do PSD não estará na segunda volta”

“O nosso espaço político [da social-democracia] não estará representado na segunda volta e teve uma divisão de votos (…). O PSD não estará envolvido na campanha presidencial por escolha democrática e livre dos portugueses. Aceitamo-lo com tranquilidade e tolerância democrática. Evidentemente, não ficamos satisfeitos, mas aceitamos essa escolha com humildade democrática”, justificou o líder do PSD.

Em relação ao candidato apoiado pelo PSD, que segundo os resultados provisórios ficou em quinto lugar das votações com 11,30% dos votos, Luís Montenegro disse que se apresentou nestas eleições de “forma particularmente empenhada e honrosa” e aceitou “democraticamente o veredicto e a escolha dos portugueses”. Em jeito de conclusão, garantiu que o partido “foi escolhido para governar o país e é isso que fará nas próximas três semanas, como de resto nos próximos anos”.

“Não há derrotados, porque todos somos democratas”

“Recebi votos de todos os quadrantes políticos, o que reforça a natureza independente desta candidatura. Sou livre, vivo sem amarras, e assim agirei como Presidente da República“. Foi desta forma que o vencedor da primeira volta das eleições, António José Seguro, agradeceu os resultados a partir das Caldas da Rainha, cidade na qual reside.

“Não há derrotados, porque todos somos democratas”, disse ainda o candidato apoiado pelo PS, dirigindo-se aos que não venceram esta noite, num piscar de olhos para a segunda volta contra André Ventura. Façamos das próximas três semanas de campanha a festa da liberdade e da democracia (…). Este é o momento de derrotarmos o medo e erguermos a esperança”, instou.

António José Seguro foi o vencedor da primeira volta das presidenciais © Henrique Casinhas / ECOHenrique Casinhas/ECO

“Vamos liderar o espaço não socialista em Portugal

André Ventura, um dos dois vencedores da noite eleitoral, disse que os resultados mostraram que o Chega ocupou o espaço não socialista em Portugal. “Esta não será só uma luta do Chega contra o PS”, garantiu, no discurso vitorioso, de cerca de 20 minutos, em Lisboa. “O socialismo destrói. O socialismo mata. O socialismo corrompe”, afirmou, apelando ao voto da direita e de todos os que não se reveem no PS no próximo dia 8 de fevereiro.

António José Seguro “defende tudo ao contrário do que nós defendemos”, diz Ventura, é o “representante de tudo o que o país não deve aceitar”, significa o regresso de José Sócrates, António Costa ou Eduardo Ferro Rodrigues e “vai permitir que as portas continuem abertas” para os imigrantes e “quem vem para cá não cumpra regras”.

André Ventura, líder do Chega no discurso na noite das eleições presidenciais, nas quais ficou em segundo lugar © Hugo Amaral / ECO

Presidente do PS será “erro estratégico da liderança do PSD”

João Cotrim de Figueiredo, o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal e quem ficou em terceiro lugar no pódio, lamentou que “apesar da maioria social de centro-direita no país, é provável” que Portugal venha “a ter um Presidente da República do PS” e argumentou que a eventual vitória de António José Seguro na segunda volta “fica a dever-se unicamente a um erro estratégico da liderança do PSD”.

“Apesar das evidências”, que estaria mais bem colocado do que Marques Mendes, e do apelo que fez, “Luís Montenegro não pôs o interesse do país à frente do interesse do seu próprio partido. Não esteve à altura do legado de Francisco Sá Carneiro”, criticou o também eurodeputado liberal, mostrando-se consciente na derrota, ainda que tenha conquistado o terceiro maior número de votos nestas eleições. Tal como havia dito na reta final da campanha, “não tenciona endossar ou recomendar o voto na segunda volta”.

O candidato à Presidência da República, João Cotrim de Figueiredo (C), durante uma ação de campanha no Mercado de Guimarães, 16 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o novo Presidente da República em 18 de janeiro. Hugo Delgado / Lusa

“Resultados não corresponderam aos objetivos que tracei”

O almirante Henrique Gouveia e Melo, que alcançou cerca de 12,3% dos votos, assumiu a derrota com “serenidade”, reconheceu que não era esta a meta que havia estabelecido e felicitou António José Seguro e André Ventura pela passagem à segunda volta. “Os resultados não corresponderam aos objetivos que tracei”, admitiu.

O militar na reserva começou por dizer que continua a acreditar que “é preciso despartidarizar a Presidência da República” e que foi “em consciência” que se candidatou a Belém, “sobretudo num contexto internacional de grande instabilidade”, e com a “convicção de que o cargo deve ser um espaço de união”. “O país beneficia quando o Presidente é visto como um elemento de equilíbrio. Foi por isso que me propus a este desafio sem amarras partidárias”, lembrou. “Demonstrámos que é possível unir a diferença quando há uma causa maior como é o nosso país. Portugal pode e deve ser um espaço convergente”, acrescentou Henrique Gouveia e Melo.

O candidato às eleições presidenciais, Henrique Gouveia e Melo, durante um jantar com apoiantes, em Penafiel, 10 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o novo Presidente da República em 18 de janeiro. JOSÉ SENA GOULÃO/ LUSAJOSÉ SENA GOULÃO/ LUSA

“Não sou dono dos votos que em mim foram depositados”

Luís Marques Mendes também optou por não recomendar a votação em nenhum dos candidatos que passaram à segunda volta. “Não vou fazer o endosso dos votos que me foram hoje confiados. Tenho a minha opinião pessoal, mas enquanto candidato, que é a única posição que tenho aqui hoje, não sou dono dos votos que em mim foram depositados”, esclareceu o candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS-PP, salientando que cada um dos que votaram em si decidirão, “na altura própria, de acordo com a sua liberdade e com a sua consciência”.

Acompanhado pela família, inclusive o seu principal pilar nesta campanha, a mulher, Sofia, Luís Marques Mendes assumiu a responsabilidade total pelo resultado: “Esta candidatura foi minha e assumo por inteiro a responsabilidade por este resultado. A responsabilidade é minha, toda minha e apenas minha”.

O candidato apoiado pelo PSD e CDS-PP, Luís Marques Mendes, a reagir aos resultados eleitorais. © Lusa

“Apelo ao voto em Seguro”

Ao contrário dos candidatos da direita, os da esquerda mostraram-se unidos no apoio ao socialista António José Seguro no próximo dia 8 de fevereiro.

O candidato apoiado pelo PCP e PEV, António Filipe, apelou ao voto no candidato do PS na segunda volta para derrotar os “propósitos reacionários” de André Ventura, apoiado pelo Chega. “O apelo ao voto no candidato António José Seguro não significa um apoio ao candidato António José Seguro e àquilo que ele defendeu enquanto candidato e o que tem defendido ao longo da sua atividade política, mas significa a vontade imperiosa de derrotar o candidato André Ventura e é isso que estará, fundamentalmente, em causa nestas eleições”, explicou António Filipe.

Catarina Martins, apoiada pelo Bloco de Esquerda, reconheceu que o resultado ficou “muito abaixo do que esperava a e daquele para que” lutou e anunciou a mesma intenção de voto na segunda volta: António José Seguro. “Os resultados que temos indicam que a segunda volta será disputada entre António José Seguro e André Ventura. Já felicitei António José Seguro pelo seu resultado e disse-lhe que contará com o meu voto na segunda volta contra André Ventura”, referiu a única candidata do sexo feminino nesta ida às urnas.

Na mesma linha, o candidato apoiado pelo Livre, que ao longo das últimas semanas fez correr tinta por uma possível desistência a favor de Seguro, anunciou formalmente que iria apoiar e votar em António José Seguro na segunda volta e apelou ao Livre que o faça também. “Irei votar em António José Seguro na segunda volta, votar e apelar a que o meu partido faça a mesma coisa, porque ao que tudo indica teremos duas escolhas pela frente: alguém que se revê na Constituição e alguém que se opõe e a quer alterar drasticamente,” afirmou Jorge Pinto, a partir do quartel-general da sua candidatura, no Amarante Cineteatro.

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