Estilhaços da hecatombe de Mendes atingem PSD. E agora, quais as condições de governabilidade?
Marques Mendes não só regista o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pelo PSD, como vê Seguro e Ventura a passarem à segunda volta. PS e Chega ganham força. E agora, Montenegro?

Luís Marques Mendes era a cara da derrota quando, às 20h19, se dirigiu ao púlpito instalado no quartel-general da sua candidatura, para garantir que a responsabilidade pelos resultados era sua e só sua. O objetivo era claro: minimizar danos para o Governo. Por isso mesmo, ainda o candidato não tinha cruzado a sala em direção à saída e, no altifalante, já se ouviam as declarações de Luís Montenegro, a partir da São Caetano à Lapa, a recusar interpretações partidárias e a apelar para que não se entre em “jogos políticos”.
No entanto, com Marques Mendes a registar, em democracia, o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pelo PSD (11,32% com 99% dos votos contados) e os apoiados pelo PS e pelo Chega a passarem à segunda volta com uma larga margem de distância do social-democrata, há dirigentes a admitirem sinais claros sobre uma alteração do regime político, e as condições de governabilidade para Montenegro ficam, no mínimo, mais desafiantes.
Pouco passava das 11 horas de domingo quando Luís Marques Mendes se dirigiu ao agrupamento de escolas de São Bruno, em Caxias, no concelho de Oeiras, para exercer o seu direito de voto, onde se mostrou sorridente e “muito confiante”. Menos de oito horas depois, cerca das 19 horas, entrou sem discurso preparado no hotel Sana Malhoa, em Lisboa, local da sua noite eleitoral, mas a confiança esvaiu-se e desânimo já estava espelhado no rosto. Os resultados ainda não tinham saído, mas a essa hora tinham chegado aos candidatos as primeiras tendências através dos membros partidários das mesas de voto.
E o pior cenário para Mendes, e para o Governo, confirmou-se às 20h, quando as televisões transmitiram as projeções. O momento foi de silêncio total no quartel-general do social-democrata. Não demorou muito para que o antigo comentador reagisse, entrando na sala acompanhado pela mulher e pelo ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, ao som de aplausos de pé pelos apoiantes.
“Tomei a decisão de me candidatar depois de uma reflexão pessoal, cívica e política, e depois de mais de 40 anos de vida pública. Esta candidatura foi minha e assumo por inteiro a responsabilidade por este resultado. A responsabilidade é minha, toda minha e apenas minha“, disse o candidato, o primeiro a falar entre os cinco mais bem posicionados, durante a declaração sem direito a perguntas.
Tomei a decisão de me candidatar depois de uma reflexão pessoal, cívica e política, e depois de mais de 40 anos de vida pública. Esta candidatura foi minha e assumo por inteiro a responsabilidade por este resultado. A responsabilidade é minha, toda minha e apenas minha.
Tendo nas primeiras filas da plateia a família, o mandatário nacional da sua candidatura, Rui Moreira, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, o mandatário distrital de Lisboa, Eduardo Barroso, o ex-dirigente José Eduardo Martins e o líder parlamentar do CDS-PP, Paulo Núncio, Marques Mendes procurou estancar qualquer contaminação da derrota ao Governo. “Esta candidatura, como disse, só a mim responsabiliza”, salientou perante uma sala onde escasseavam dirigentes do PSD, mas se fazia notar a presença de Carla Montenegro, mulher do primeiro-ministro.
Primeiro-ministro esse que falava minutos depois na qualidade de líder do PSD, a partir da sede do partido, depois de reunida a comissão política, procurando afastar qualquer colagem dos resultados a leituras partidárias.
“Aceitamos essa escolha com humildade democrática”, afirmou Luís Montenegro, acrescentando que o candidato apoiado pelo partido “não teve a adesão” esperada, mas atribuindo também os resultados à “divisão de votos” à direita. Porém, garantiu que o seu partido “foi escolhido para governar o país e é isso que fará nas próximas três semanas, como de resto nos próximos anos“, mesmo que tenha falhado o pleno: Governo, maioria das autarquias e Presidente laranja.

Os resultados colocam Marques Mendes não apenas atrás de António José Seguro e André Ventura — que passaram à segunda volta com 31,14% e 23,47% dos votos, respetivamente, (faltando apenas contar 11 consulados) –, mas também de João Cotrim Figueiredo, apoiado pela IL, e de Henrique Gouveia e Melo. Uma fotografia que levanta desafios acrescidos para o Governo minoritário de Montenegro, que precisa do apoio ou do PS ou do Chega para conseguir fazer passar a generalidade das propostas no Parlamento.
Antes desta eleição todos nomes apoiadas pelo PSD em corridas a Belém ou venceram as eleições, casos de Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, sempre à primeira volta com mais de 50% dos votos, ou ficaram em segundo lugar. Resta saber se com os resultados alcançados pelos seus candidatos, o PS e o Chega se sentirão com mais força para fazer oposição ao Governo, dificultando a vida ao primeiro-ministro.
Os primeiros sinais não demoraram, com André Ventura a aumentar a pressão: “a direita fragmentou-se como nunca, mas os portugueses deram-nos a nós a liderança dessa direita”, afirmou o líder do Chega na noite eleitoral. “Conseguimos derrotar o candidato do Governo e do Montenegrismo”, acrescentou.
Para já, Montenegro aproveitou para clarificar que não dará indicação de voto para a segunda volta entre António José Seguro e André Ventura, tal como Luís Marques Mendes. “Não emitiremos nenhuma indicação, nem é suposto fazê-lo“, disse o líder do PSD, acrescentando que, deste modo, o partido não estará representado na campanha eleitoral. “Não vale a pena andarem com jogos políticos”, atirou.
Mas isso não significa que o PSD, e sobretudo o Governo, possam passar à margem dos estilhaços desta corrida presidencial. Nas televisões, membros do Chega foram ainda mais assertivos do que o seu presidente, criticando duramente Montenegro por não apoiar Ventura na segunda volta. A questão que fica por responder nas próximas semanas e meses é o que Ventura vai fazer com esse auto-atribuído cargo de “líder da direita”.
À semelhança do primeiro-ministro, Marques Mendes também não vai fazer recomendação de voto. “Não vou fazer o endosso dos votos que me foram hoje [domingo] confiados. Tenho a minha opinião pessoal, mas enquanto candidato, que é a única posição que tenho aqui hoje, não sou dono dos votos que em mim foram depositados”, esclareceu Marques Mendes.
Neste sentido, salientou que cada um dos que votaram em si “decidirá, na altura própria, de acordo com a sua liberdade e com a sua consciência”. E recusou qualquer “mágoa” ou “rancor”, antes de abandonar a sala que rapidamente se esvaziou e subir no elevador para o andar onde pouco depois esteve reunido durante quase uma hora com Montenegro. É que o líder social-democrata acabou por se deslocar ao Sana Malhoa, acompanhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, e pelo líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, para dar um abraço ao seu candidato.
Não emitiremos nenhuma indicação, nem é suposto fazê-lo (…) Não vale a pena andarem com jogos políticos.
Certo é que enquanto o PSD digeria os resultados, o social-democrata Miguel Poiares Maduro admitia na RTP que as eleições presidenciais são uma prova da “alteração profunda do regime político” nacional. O antigo ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional de Pedro Passos Coelho, que integrou a comissão política da campanha presidencial de Luís Marques Mendes, considera que esta alteração já se tinha notado nas legislativas e, ao contrário da posição do partido, revela que vai votar António José Seguro a 8 de fevereiro.
“Do ponto de vista do PSD, também é mais importante e será melhor um presidente como António José Seguro do que como André Ventura. O principal objetivo de André Ventura é substituir o PSD na governação, não vejo que o PSD tenha interesse em alimentar essa aspiração”, justificou. Poiares Maduro sublinhou ainda que “dos pontos de vista dos princípios, da função presidencial, do entendimento fundamental do regime político” está “mais próximo de António José Seguro do que de André Ventura”.
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