Quatro décadas depois, a mesma promessa de um socialista menosprezado: “serei o Presidente de todos os portugueses”
"Sou livre, vivo sem amarras, e assim agirei como Presidente da República". Numa noite improvável no radar de junho, quando apresentou a candidatura, Seguro segue vitorioso para a segunda volta.

“Recebi votos de todos os quadrantes políticos, o que reforça a natureza independente desta candidatura. Sou livre, vivo sem amarras, e assim agirei como Presidente da República“. Se alguém estranhasse por que razão não estava o atual secretário-geral do Partido Socialista presente no Centro Cultural das Caldas da Rainha a mostrar o seu apoio a António José Seguro, o ex-secretário-geral e vencedor da primeira volta das Presidenciais ajudava a percebê-lo, ao separar as águas para com o partido que, até há poucas semanas, parecia envergonhado com um apoio claro.“Esta não é uma candidatura partidária, nem nunca será“, afiança o vencedor da primeira volta, o mesmo que a 15 de junho, neste mesmo auditório na cidade onde reside, apresentava uma candidatura vista por inúmeros comentadores e camaradas do seu partido como um derrotado à partida.
Após uma dúzia de anos afastado da política ativa, o ex-líder da Juventude Socialista, ex-deputado europeu, ex-governante em Executivos de António Guterres e José Sócrates e ainda ex-secretário-geral do PS, deixa a certeza: “Regressei para unir todos os portugueses”.
Recebi votos de todos os quadrantes políticos, o que reforça a natureza independente desta candidatura. Sou livre, vivo sem amarras, e assim agirei como Presidente da República”
Antes de chegar ao palco onde discursou no fecho da noite eleitoral, António José Seguro atravessou, ao longo de cinco minutos, um auditório apinhado com gente e bandeiras de Portugal ao alto, uma expressão clara da euforia na sala. Como se já estivesse ali o novo Presidente da República Portuguesa.
No palco, rouco, o vencedor desta que ainda é só a primeira volta, destacou que “somos um só povo, uma só nação, um só Portugal, plural, inclusivo, respeitador das liberdades de cada um e solidário”.
“Somos todos Portugal”, tentou gritar, apesar da voz que lhe falhava. Tal como Mário Soares na vitória sobre Freitas do Amaral em 1986, o potencial sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa prometeu: “serei o Presidente de todos os portugueses”.
“Portugal só prospera se souber conservar o nosso chão comum”. O socialista, já de olhos na nova chamada dos portugueses às urnas, a 8 de fevereiro, deixou uma mensagem de alento aos candidatos que não se chamam André Ventura. Uma eventual forma de os chamar a si, agora que ele, Seguro – atirado há uma dúzia de anos para fora da liderança pelo mesmo António Costa que governou Portugal ao longo do nascimento e ascensão do Chega – volta a sentir o sabor da vitória.
Sobre Costa, atual presidente do Conselho Europeu, recusou dizer se já recebeu um telefonema de felicitações. Seguro assegurou aos jornalistas que nem tinha o telefone na sua posse, pelo que não verificara ainda as mensagens recebidas.
O vencedor da noite deixou uma “palavra de apreço e respeito a todos os candidatos que não passaram à segunda volta. Não há derrotados, porque todos somos democratas. O país continuará a contar com o contributo de cada um de vós”.
Apesar de só ter ouvido palavras claras de apoio provenientes do espaço político à sua esquerda, posicionando-se Marques Mendes, Luís Montenegro e Cotrim Figueiredo em espaço neutro para a segunda volta, e Gouveia e Melo a meio da ponte (para já), Seguro sabe que desde Jorge Sampaio, em 2001, que nenhum candidato de esquerda chegou à cadeira de Presidente.

E, assim, ficou feito o desafio: “convido todos os democratas, todos os progressistas e todos os humanistas a juntarem-se a nós, para, unidos, derrotarmos o extremismo”.
“A política, ou serve para melhorar a vida das pessoas, ou então não serve para rigorosamente nada”, afirmou Seguro.
“Este é o momento de derrotarmos o medo e erguermos a esperança”, acentuou o vencedor desta primeira volta, tendo o seu discurso, em voz enrouquecida, sido suplantado pelos gritos de apoio.
Aos cerca de 1,7 milhões que lhe deram vitória neste domingo, afiançou: “Saberei honrar o vosso voto e a vossa confiança”. E acrescentou: “Hoje, com a nossa vitória, venceu a democracia, e voltará a ganhar no dia 8 de fevereiro”.
“Façamos das próximas três semanas de campanha a festa da liberdade e da democracia”, instou Seguro à sala cheia que o ouviu no Centro Cultural das Caldas da Rainha, na cidade onde reside com a família e que escolheu para seu quartel-general. Um distanciamento, se não aos partidos, pelo menos à cidade onde detêm as suas sedes.
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Quatro décadas depois, a mesma promessa de um socialista menosprezado: “serei o Presidente de todos os portugueses”
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