Saks deverá ter de alargar base de consumidores para sobreviver
A sobrevivência do grande armazé poderá significar conquistar um cliente ligeiramente menos abastado.
A Saks Global, o icónico retalhista de luxo que entrou recentemente em insolvência, poderá ter de alargar a sua base de consumidores se quiser sobreviver num mundo do retalho de luxo cada vez mais volátil.
Depois de ter apresentado um pedido de proteção ao abrigo do Capítulo 11 esta terça-feira, a Saks vai iniciar um processo de vários meses para reestruturar os seus 3,4 mil milhões de dólares de dívida garantida e sair da falência. Sobreviver será um desafio ainda maior, uma vez que os elevados custos fixos e as margens reduzidas limitam a capacidade dos retalhistas para introduzirem mudanças estruturais profundas. Cadeias como a Forever 21 sobreviveram a um primeiro processo de insolvência mas acabaram em liquidação poucos anos depois, nota a Reuters.
Evitar esse destino poderá significar conquistar um cliente ligeiramente menos abastado — por pouco apelativo que isso seja para uma loja de serviço “luva branca”, adorada por ricos e famosos.
Eric Schiffer, presidente da empresa de investimento privado Patriarch Organization defende, em declarações à Reuters, que na Saks “precisam de transformar a empresa numa máquina de curadoria com margens elevadas e não num monumento nostálgico e espalhado”.
Entre os céticos está a Amazon, um dos principais investidores da empresa. Caroline Reckler, advogada do gigante do comércio eletrónico, afirmou numa audiência de insolvência na quarta-feira que tem “pouca ou nenhuma confiança” de que a Saks consiga sair do processo de falência com sucesso.
A Saks Global não comentou esta notícia.
Criar uma base de clientes mais ampla
Os grandes armazéns têm vindo a perder terreno no retalho há vários anos, uma tendência recentemente agravada por tarifas e inflação. “As margens dos grandes armazéns têm sido terríveis”, afirmou David Swartz, analista da Morningstar.
Mas a Saks Global — que integra a Saks, a Neiman Marcus e a Bergdorf Goodman — foi particularmente afetada. As receitas caíram 13,6% no exercício fiscal terminado em fevereiro de 2025, segundo documentos entregues ao tribunal, que indicam ainda que o EBITDA previsto para o ano civil de 2025 será negativo.
A Saks tem tradicionalmente dependido de um segmento muito restrito de consumidores de elevado poder de compra para gerar resultados. Os 3% de clientes que mais gastam — com despesas superiores a 10.000 dólares por ano — são responsáveis por cerca de 40% das vendas anuais totais, de acordo com o pedido de insolvência da empresa.
A solução começa pela “necessidade de competir melhor pelo cliente abastado, e não apenas pelo ultra-rico”, afirmou o consultor de retalho Steve Dennis.
No entanto, alargar a base de consumidores traz os seus próprios desafios, colocando a Saks em concorrência direta com cadeias como a Bloomingdale’s e com um número crescente de marcas de luxo que operam as suas próprias lojas, disse Swartz, da Morningstar.
Essa estratégia pode também alienar os clientes ultra-fiéis para quem a exclusividade é precisamente o principal atrativo.
Se o alargamento da base de clientes fizer parte da estratégia da Saks, o pedido de insolvência apresentado na terça-feira não o sugere. A empresa planeia liquidar o negócio de comércio eletrónico da Saks Off Fifth, a única marca outlet do grupo, “a menos que surja uma alternativa superior”, segundo os documentos judiciais.
REPENSAR AS LOJAS
As 125 lojas da Saks nos Estados Unidos — a maioria de grandes dimensões — encaixam de forma pouco confortável num modelo de negócio assente em compras de elevado valor e baixo tráfego. Especialistas veem aqui uma oportunidade para a empresa reduzir a sua presença física sem diminuir significativamente a dimensão do negócio, nomeadamente através da integração das lojas Saks e Neiman Marcus num mesmo espaço.
“É uma questão latente saber se ainda faz sentido operarem como lojas separadas”, afirmou Patrick Collins, advogado especializado em insolvências no escritório Farrell Fritz, que não está envolvido no processo.
Ainda assim, a Saks terá de investir nas lojas que mantiver, defendeu Dennis, nomeadamente através de avanços tecnológicos “como inteligência artificial, automação logística e sistemas de clienteling”.
A empresa refere no pedido de insolvência que utiliza, desde agosto, uma plataforma de merchandising unificada, “que permite às equipas comprar e vender inventário entre a Saks Fifth Avenue e a Neiman Marcus, otimizando as compras de stock”.
A Saks falhou o pagamento de juros em dezembro e tem tido dificuldades em pagar a fornecedores — alguns dos quais também enfrentam problemas. A Capri Holdings, por exemplo, que reclama um crédito de 33,3 milhões de dólares sobre a Saks, tem registado uma queda consistente das receitas, num contexto de procura fraca pela marca Michael Kors.
Além disso, os cortes de custos poderão ser difíceis de implementar. Eliminar o brilho e o glamour das lojas ou reduzir pessoal pode não agradar aos clientes. A decisão da Saks, em 2024, de cancelar o tradicional espetáculo de luzes de Natal gerou desilusão.
“Não se pode transformar numa TJ Maxx”, concluiu Swartz, “porque aí deixa de ser luxo”.
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