“Surpresa” Seguro, “extraordinário” Chega e “duro golpe” a Montenegro. As eleições vistas lá fora

Joana Abrantes Gomes,

De Espanha ao Brasil, a imprensa estrangeira esteve atenta às eleições deste domingo em Portugal, destacando o crescimento acelerado da extrema-direita e o impacto dos resultados para o Governo.

No rescaldo da noite eleitoral deste domingo, a imprensa internacional destaca a “vitória surpresa” e “contra todos os prognósticos” de António José Seguro, que vai disputar a segunda volta, daqui a três semanas, com André Ventura. Porém, os jornais estrangeiros realçam igualmente como os resultados do primeiro turno revelam a “ascensão” da extrema-direita em Portugal. Veja os principais títulos.

El País: “O socialista Seguro e o radical Ventura disputarão a segunda ronda das Presidenciais em Portugal”

O espanhol El País sublinha a forma como António José Seguro, “retirado da política nos últimos dez anos” e “sem grande apoio inicial no seu próprio partido”, ficou em primeiro lugar “contra todos os prognósticos e quase contra todos”, marcando um confronto na segunda volta, em 8 de fevereiro, com “o candidato da direita radical, André Ventura”.
A derrota de Luís Marques Mendes, que ficou em quinto, é classificada pelo periódico como “um grande revés” para o candidato apoiado pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro.

El Mundo: “PS e extrema-direita do Chega passam para a segunda volta nas eleições presidenciais de Portugal”

Também no país vizinho, o El Mundo antecipa igualmente que o candidato apoiado pelo PS será o próximo presidente de Portugal, ao concentrar o voto contra a extrema-direita, sem deixar de destacar as palavras de André Ventura de que “a luta agora será entre o socialismo e o não socialismo”. “Estes resultados confirmam a viragem radical de Portugal, uma vez que um candidato da direita populista irá disputar pela primeira vez a presidência do país numa segunda volta“, escreve o diário espanhol.

La Vanguardia: “O socialista António José Seguro, virtual novo presidente de Portugal”

Já o principal jornal da região espanhola da Catalunha fala mesmo num “duro golpe” para Luís Montenegro com o quinto lugar alcançado por Luís Marques Mendes, explicável, entre outros aspetos, pela “debilidade do candidato”, em virtude do “seu papel obscuro de lobista de altos voos”. Para o La Vanguardia, António José Seguro é, “a não ser que surja uma catástrofe”, “o virtual novo presidente de Portugal”, ao fim de “20 anos de mandatos conservadores” e num país virado “mais à direita de sempre”.

Le Monde: “Socialista António José Seguro lidera primeira volta, candidato de extrema-direita qualificado”

Em França, o Le Monde realça também o confronto da segunda volta entre António José Seguro e André Ventura. O diário gaulês aponta como, embora a eleição de um Presidente português não exigisse um segundo turno desde 1986, “este cenário reflete as mudanças provocadas pela ascensão da extrema-direita” no país. “Contrariamente ao que previam as sondagens publicadas antes da votação, Ventura, um deputado de 43 anos, não venceu esta primeira volta, mas alcançou um novo patamar na sua progressão eleitoral dos últimos anos, enquanto o seu partido, Chega, já é a primeira força de oposição ao Governo de direita”, acrescenta.

Le Soir: “Socialistas à frente da extrema-direita”

A extrema-direita portuguesa não será, afinal, a grande vencedora da noite eleitoral“, começa por assinalar o belga Le Soir. Este jornal destaca que o candidato socialista António José Seguro ficou “largamente na liderança” após a ida às urnas deste domingo, enquanto André Ventura, da extrema-direita do Chega, “teve de lutar pelo segundo lugar, mas conseguiu-o”. “Embora estivesse à frente em algumas sondagens durante a campanha eleitoral, foi preciso esperar até às 23 horas deste domingo para ter a certeza de que ele [André Ventura] estaria no segundo turno”, escreve ainda o diário francófono.

Politico: “Centro-esquerda vence primeira volta das eleições presidenciais em Portugal, preparando confronto com a extrema-direita”

O Politico, por sua vez, fala numa “vitória surpresa” de António José Seguro na primeira volta das eleições presidenciais, ao mesmo tempo que destaca que a capacidade de André Ventura “de conquistar quase um quarto” dos votos é reveladora de “quão extraordinário” tem sido o crescimento do Chega em Portugal.

Por outro lado, o jornal focado em assuntos da União Europeia sublinha como, apesar de esta ser a sexta eleição desde 2024 em Portugal, o eventual cansaço dos eleitores “não parece ser um fator significativo”, já que, enquanto cerca de 60% dos eleitores não votou nas presidenciais de 2021, a taxa de abstenção caiu para o nível mais baixo em 20 anos neste domingo.

Reuters: “Seguro, do Partido Socialista, enfrenta líder da extrema-direita na segunda volta”

O primeiro lugar conquistado pelo “socialista moderado” António José Seguro na primeira volta das eleições é o destaque da Reuters, que realça também a ida à segunda volta do “líder de extrema-direita” André Ventura. A agência de notícias britânica sublinha ainda que esta será a segunda vez que Portugal terá uma segunda volta em eleições presidenciais desde o 25 de Abril de 1974, considerando que revela “o quão fragmentado o cenário político se tornou com a ascensão da extrema-direita e o desencanto dos eleitores com os partidos tradicionais”.

Der Spiegel: “Populista de direita André Ventura em segundo lugar em Portugal”

Na Alemanha, o Der Spiegel destaca “mais um sucesso” eleitoral de André Ventura, que descreve como “o líder dos populistas de direita em ascensão”. A news magazine ressalva, no entanto, que o presidente do Chega “tem poucas hipóteses” de suceder a Marcelo Rebelo de Sousa, lembrando sondagens que apontavam para que mais de 60% dos inquiridos não votem de forma alguma em Ventura na segunda volta.

La Nación: “A extrema-direita entra na segunda volta das eleições em Portugal e disputará a presidência com o socialismo”

Do outro lado do Atlântico, o argentino La Nación escreve sobre a “consolidação” do primeiro lugar de António José Seguro, que reuniu 31,14% dos votos na eleição deste domingo, depois de ter mostrado “uma imagem de moderação e defesa dos serviços públicos”. “Apesar da sua campanha independente e do descontentamento de alguns setores do seu partido, estes resultados representam uma vitória pessoal significativa“, aponta o jornal diário com sede em Buenos Aires.

Já os 23,48% alcançados por André Ventura “confirmam a ascensão do seu partido Chega”, descreve também o La Nación, assinalando que, embora as sondagens o apontassem como o favorito para a primeira volta, “a sua passagem para a segunda volta posiciona-o como a principal força de oposição” ao Governo de Luís Montenegro, a quem o duelo Seguro vs. Ventura “obrigará a uma definição pública que coloca em risco a sua precária estabilidade no Parlamento”.

Ainda segundo o jornal argentino, os “grandes derrotados” da noite eleitoral deste domingo foram o almirante Henrique Gouveia e Melo, que “não conseguiu capitalizar o seu perfil alheio à política tradicional”, e Luís Marques Mendes, apoiado pela coligação governamental PSD/CDS, que “sofreu um duro revés” ao ficar em quinto lugar.

Folha de S. Paulo: “Socialista e ultra direitista avançam ao 2.º turno na eleição presidencial em Portugal”

O Folha de S. Paulo assinala como a provável vitória de António José Seguro nas eleições presidenciais portuguesas “pode coroar uma virada épica”. O jornal brasileiro lembra que, nas primeiras sondagens, em agosto do ano passado, o candidato socialista “patinava nos dez pontos percentuais”, enquanto Luís Marques Mendes (centro-direita), André Ventura (extrema-direita) e o almirante Henrique Gouveia e Melo (independente) disputavam o primeiro lugar com o dobro das intenções de voto.

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