Preços do gás aquecem, mas longe de “níveis de crise” e temporariamente, dizem analistas

Os analistas esperam que, caso não existam reviravoltas geopolíticas inesperadas, os preços do gás interrompam a recente trajetória ascendente, depois de valorizarem cerca de 30% numa semana.

Os preços do gás natural na Europa, que tiveram em 2025 uma trajetória descendente, entraram em 2026 com uma inversão abrupta desta tendência. Contudo, os analistas consultados pelo ECO/Capital Verde não veem grandes motivos de preocupação: os preços não estão “em níveis de crise” e a subida deverá ser temporária.

A investigadora e analista do Bruegel, Ugnė Keliauskaitė, observa que, em 2025, existiu uma quebra nos preços dos contratos de gás natural que são referência na Europa, o holandês Title Transfer Facility (TTF), levando-os, em dezembro, a descer a níveis anteriores à guerra entre Rússia e Ucrânia. Contudo, “desde o início de 2026, os preços aumentaram a pique”, afirma.

A subida acelerou a meio de janeiro, quando uma vaga de frio muito intenso atingiu a Europa”, o que levou a um salto abrupto de cerca de 30% numa semana. Mas a meteorologia não foi o único motivo para a aceleração. Riscos geopolíticos, como as tensões no Médio Oriente, em particular no Irão, acrescentaram um prémio de risco. Além disso, “o armazenamento de gás está muito mais baixo daquilo que é o normal nesta altura do ano”, retoma Ugnė Keliauskaitė. Esta segunda-feira, as reservas europeias estavam preenchidas em pouco mais de 50%.

São muito inferiores aos de 2022 e também inferiores a alguns picos registados em 2023. Ou seja, os preços não estão em níveis de crise, mas estão acima dos mínimos recentes.

Ugne Keliauskaite

Analista e investigadora no Bruegel

Isto resultou em preços que recuaram a níveis de meados de 2025. São muito inferiores aos de 2022 e também inferiores a alguns picos registados em 2023. Ou seja, os preços não estão em níveis de crise, mas estão acima dos mínimos recentes“, indica a analista do Bruegel. “Estamos, essencialmente, perante um retorno para níveis históricos de suporte“, considera o analista da XTB, Vítor Madeira.

Olhando à evolução previsível para este ano, o Bruegel balança que “os preços para entrega em fevereiro mostram claramente pressão no sistema, enquanto a partir de abril a situação parece muito mais aliviada”.

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“A previsão é de que os preços do gás natural apresentem uma estabilização ao longo de 2026, com uma ligeira tendência descendente, aproximando-se dos valores registados entre 2023-2024”, prevê a XTB, ressalvando que esta projeção assume que não surgirão novas variáveis geopolíticas ou fundamentais que alterem “drasticamente” o paradigma atual do mercado.

A previsão é de que os preços do gás natural apresentem uma estabilização ao longo de 2026, com uma ligeira tendência descendente.

Vítor Madeira

Analista na XTB

O Banco Carregosa acredita que, na Europa, a tendência de descida ao longo de 2025 deverá ser limitada, daqui para a frente, por fatores estruturais, nomeadamente a dependência do mercado global de gás natural liquefeito, a necessidade de reabastecimento das reservas antes do próximo inverno de 2027 e a sensibilidade do mercado a eventuais choques climáticos ou geopolíticos, “fatores que mantêm o mercado europeu particularmente exposto à volatilidade”.

Famílias e negócios podem respirar fundo

A recente subida dos preços do gás natural não é, neste momento, preocupante para os preços da energia em Portugal, tanto para empresas como para famílias”, considera Paulo Rosa.

O analista da XTB também é perentório: “Não consideramos preocupante”. Isto, tendo em conta que o país já enfrentou cenários com preços “significativamente mais elevados” nos mercados internacionais. A analista do Bruegel concorda: “até agora, o aumento recente parece temporário, o que limita o impacto para a maioria das famílias“.

Há diferenças na pressão sobre os preços nos EUA e na Europa

Ao longo do último ano, os preços do gás natural apresentaram comportamentos distintos nos EUA e na Europa, embora ambos tenham sido marcados por elevada volatilidade”, observa Paulo Rosa, do Banco Carregosa.

No norte-americano Henry Hub, os preços oscilaram na maior parte do ano de 2025 entre os 3 e os 4 dólares por milhões de unidades térmicas britânicas (MMBtu), descreve o Banco Carregosa. Apesar de este gás ter descido a mínimos no final do verão, seguiu-se uma subida acentuada entre outubro e novembro, com os preços a ultrapassarem temporariamente os 5 dólares por MMBtu, “impulsionados por expectativas de maior procura no inverno e por fatores meteorológicos”, relata Rosa. “Todavia, essa subida acabou por revelar-se temporária, tendo os preços corrigido no final de 2025”, conclui.

Ambos os mercados mostram sinais de recuperação desde o final de 2025, recuperação mais marcada nos preços do TTF holandês, referência para a Europa, onde o mercado continua fortemente dependente do GNL e sensível a fatores climáticos, enquanto nos EUA o movimento é mais contido, sustentado por elevada produção doméstica.

Paulo Rosa

Economista Sénior do Banco Carregosa

Já na Europa, o ano de 2025 iniciou-se com um pico em torno dos 50 euros por megawatt-hora (MWh), ao qual se seguiram meses de quebra, suportada por “níveis confortáveis de armazenamento, menor pressão da procura e maior estabilidade no fornecimento de GNL [gás natural liquefeito]”, tendo descido aos 27 euros por MWh no final do ano passado. Em 2026, a inversão foi rápida, até níveis próximos de 34 €/MWh.

“Ambos os mercados mostram sinais de recuperação desde o final de 2025, recuperação mais marcada nos preços do TTF holandês, referência para a Europa, onde o mercado continua fortemente dependente do GNL e sensível a fatores climáticos, enquanto nos EUA o movimento é mais contido, sustentado por elevada produção doméstica”, explica Paulo Rosa.

 

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