Risco “muito sério”. Empresas portuguesas na linha de fogo das novas tarifas a países europeus
Representantes empresariais mostram-se muito preocupados com ameaça de tarifas dos EUA ligada à intenção de controlar a Gronelândia e alertam para "risco real" para empresas e para a economia.
- Donald Trump ameaçou implementar tarifas adicionais de 10% sobre países europeus para forçar negociações sobre a Gronelândia, criando um clima de incerteza no comércio internacional.
- Embora Portugal não esteja na lista de países diretamente afetados, as empresas portuguesas podem sofrer impactos indiretos significativos devido à sua integração nas cadeias de valor europeias.
- A escalada das tensões comerciais poderá resultar numa guerra comercial, afetando a economia portuguesa e levando a uma erosão da confiança dos investidores e empresários.
Donald Trump voltou a recorrer ao tema das tarifas como arma para forçar os países europeus a aceitar as suas pretensões de controlar a Gronelândia, acenando com tarifas adicionais de 10% para um conjunto de países europeus. Embora Portugal não conste dessa lista, as empresas portuguesas enfrentam “impactos indiretos relevantes”, uma vez que tarifas impactam importantes parceiros comerciais. Os representantes empresariais avisam que Portugal pode ser “duramente afetado” e este clima de incerteza pode ter “consequências imprevisíveis” para a economia portuguesa.
Depois de um ano marcado pelas negociações comerciais para reduzir as tarifas aduaneiras aplicadas às exportações europeias para os EUA, Washington voltou a trazer um clima de instabilidade para o comércio internacional, com Trump a ameaçar a Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia com novas tarifas alfandegárias até que “um acordo seja alcançado para a venda completa e integral da Groenlândia”. Esta sobretaxa, de 10%, entrará em vigor a partir de 1 de fevereiro e poderá subir para 25% em 1 de junho, disse Trump.
Este ataque a seis países da União Europeia deverá gerar um plano de contramedidas, que estão a ser já discutidas pelos líderes europeus e poderão incluir o descongelamento do plano de tarifas sobre 93 mil milhões de euros de importações norte-americanas. “Embora não conste, neste momento, da lista dos países ameaçados, Portugal não deixará de ser duramente afetado caso as ameaças tenham efetiva concretização“, admite Rafael Alves Rocha.
Embora não conste, neste momento, da lista dos países ameaçados, Portugal não deixará de ser duramente afetado caso as ameaças tenham efetiva concretização (…) A incerteza é já bem real e este é um risco muito sério para a economia portuguesa, com consequências imprevisíveis.
O diretor-geral da CIP – Confederação Empresarial de Portugal realça que a entidade “está a acompanhar com forte preocupação” as ameaças dos EUA e reconhece que Portugal poderá ser afetado, desde logo, “pelos efeitos destas medidas na economia europeia, amplificados pela disrupção que provocarão nas cadeias de valor globais”. “Muitas empresas portuguesas fornecem componentes para estes oito países, com particular relevância para as indústrias da Alemanha e da França. Caso as exportações desses países para os Estados Unidos da América (EUA) caírem, a procura por produtos intermédios portugueses também diminui consequentemente“, alerta.
Espanha, Alemanha e França são os principais clientes externos de Portugal. No seu conjunto, em 2024 (ainda não se conhecem os dados finais de 2025), concentraram 50,5% das exportações nacionais, mais um ponto percentual do que em 2023. A vizinha Espanha continua a ser de longe o principal recetor de bens portugueses, com um peso de 26% em 2024, mais 0,3 pontos do que em 2023.
“Incerteza é já bem real”
Além do impacto indireto, e uma vez que estão a ser equacionadas medidas retaliatórias por parte da União Europeia (UE), “tal retaliação desencadearia uma guerra comercial, afetando todos os Estados-membros, incluindo Portugal“.
“A incerteza é já bem real e este é um risco muito sério para a economia portuguesa, com consequências imprevisíveis”, avisa. “Esperamos que uma solução aceitável possa ser alcançada através do diálogo, mas não podemos deixar de reconhecer que, no atual cenário, será mais difícil chegar a um acordo, como foi possível no verão do ano passado”, acrescenta Rafael Alves Rocha.

“Embora Portugal não conste da lista de países diretamente visados por estas tarifas adicionais, contudo, enquanto membro da União Europeia qualquer medida de retaliação terá inevitavelmente reflexos no nosso país”, reforça Luís Miguel Ribeiro.
O presidente da AEP destaca que “acresce que os países abrangidos têm um peso significativo enquanto parceiros comerciais de Portugal, pelo que este agravamento tarifário poderá ter impactos indiretos relevantes, nomeadamente ao nível das cadeias de valor, das exportações e da confiança dos empresários, reforçando uma atitude mais cautelosa por parte dos agentes económicos, nomeadamente com possível adiamento decisões de investimento, o que afetará a competitividade da economia”.
Luís Miguel Ribeiro alerta ainda que “o recente anúncio das tarifas adicionais pelos Estados Unidos da América (EUA) confirma precisamente a entrada num novo período de agravamento da incerteza para os fluxos do comércio internacional”. Uma “crescente instabilidade” que se estende “a diversos aspetos da atividade económica, como o investimento, e a própria segurança da União Europeia”, lamenta.
José Eduardo Carvalho, presidente da AIP (Associação Industrial Portuguesa), concorda que “o impacto indireto é a principal preocupação para as empresas portuguesas, dada a sua forte integração nas cadeias de valor europeias“.
“A economia portuguesa, apesar de ter uma exposição direta relativamente baixa aos EUA (as exportações para os EUA representam cerca de 1,3% do PIB e 1,3% do emprego), é vulnerável a choques nos seus principais parceiros comerciais europeus“, justifica. “Este impacto está estimado pelo Ministério das Finanças português em cerca de -0,15 pontos percentuais em 2026, sobretudo pela via indireta”, explica.
A economia portuguesa, apesar de ter uma exposição direta relativamente baixa aos EUA (as exportações para os EUA representam cerca de 1,3% do PIB e 1,3% do emprego), é vulnerável a choques nos seus principais parceiros comerciais europeus.
Para o presidente da AIP, “a escalada das tensões comerciais, motivada por uma questão geopolítica, sugere que 2026 poderá, de facto, trazer um novo período de incerteza para o comércio internacional“.
“Após um ano (2025) já dominado por negociações e ameaças tarifárias, a introdução de taxas com base em motivações não estritamente comerciais (como a questão da Gronelândia) aumenta a imprevisibilidade e o risco para as empresas globais”, admite, acrescentando que a “ameaça de uma guerra comercial total, com a retaliação europeia a visar um montante significativo de exportações dos EUA, cria um ambiente de instabilidade que afeta o planeamento e o investimento a longo prazo“.
Para Aurélio Caldeira, diretor-geral da ANIMEE, a associação que representa empresas do setor elétrico e eletrónico e que inclui empresas como a Bosch, “mais do que o valor nominal das tarifas anunciadas, o elemento mais nefasto e preocupante desta decisão é a normalização de um clima de incerteza e de falta de previsibilidade económica como novo padrão nas relações internacionais”.
Mais do que o valor nominal das tarifas anunciadas, o elemento mais nefasto e preocupante desta decisão é a normalização de um clima de incerteza e de falta de previsibilidade económica como novo padrão nas relações internacionais.
“Quando decisões unilaterais e inesperadas passam a fazer parte do quotidiano da governação económica, enfraquecem-se os pilares de confiança que sustentam os mercados, aumenta-se a aversão ao risco, gera-se um efeito de espera (“wait and see”) levando empresas e investidores a adiar decisões de investimento e promove-se uma erosão progressiva da legitimidade institucional, com impactos estruturais na economia global. O maior custo das tarifas não está na taxa aplicada, mas na confiança que se perde”, atira.
O representante do setor elétrico e eletrónico explica que, “para as empresas portuguesas, o impacto direto dependerá sobretudo da exposição às exportações para os Estados Unidos e da integração nas cadeias de valor europeias”. “Num cenário de escalada tarifária entre grandes blocos económicos, a experiência mostra que não há vencedores: tarifas mais altas resultam em produtos mais caros, menos comércio, menor investimento e desaceleração económica”, critica.
“No nosso setor, a principal preocupação não é a exposição direta ao mercado norte-americano, até porque os EUA não são dos principais mercados das exportações do nosso setor, mas sim os efeitos indiretos ao longo das cadeias europeias, já que muitos dos nossos produtos são integrados em produtos finais posteriormente exportados para os EUA, por isso, mais do que um risco de mercado final, o nosso setor enfrenta um risco de cadeia de valor”, explica o mesmo responsável.

Perante a crescente escalada das tensões comerciais com os EUA, Aurélio Caldeira realça que “num contexto em que as regras mudam sem aviso, quem diversifica ganha margem de manobra”. “Perante uma guerra tarifária constante, a diversificação de mercados deixa de ser opção e passa a ser imperativo estratégico“, reconhece, enaltecendo o recente acordo UE-Mercosul, que “pode ajudar a mitigar os efeitos destas crises tarifárias sucessivas, ao abrir novas oportunidades de acesso a mercados alternativos“.
Parcerias determinantes
Em paralelo, diz, “o desenvolvimento de parcerias estratégicas com economias emergentes é determinante para reduzir a exposição a geografias mais vulneráveis às tarifas norte-americanas e reforçar a sustentabilidade do crescimento das empresas portuguesas”.
“Qualquer cenário de aplicação de tarifas cria constrangimentos no comércio internacional e representa sempre um fator de abrandamento das exportações, mas “a imprevisibilidade torna-se mais difícil de gerir do que as próprias tarifas“, admite Ramiro Brito. O presidente da AEMinho mostra-se atento e expectante em relação ao anúncio de novas tarifas, notando que “os EUA são dirigidos de uma forma arrítmica e imprevisível”.
O líder da AEMinho defende a reciprocidade das relações comerciais, argumentando “que a Europa, a confirmar-se esse cenário, terá de reagir com medidas igualmente protecionistas e que essa redefinição poderá resultar num período inicial de incerteza, mas poderá criar relações comerciais mais igualitárias no futuro, o que será bom para a economia europeia”.
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