Fatia esmagadora do investimento destrói a natureza, avisam as Nações Unidas
Por cada euro investido na natureza, 30 são investidos na sua destruição, calcula a UNEP.
Por cada dólar que é investido na proteção da natureza, há 30 dólares que são gastos a destruí-la, calcula o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP). O setor privado é o que mais investe nas atividades prejudiciais para a natureza, enquanto o setor público suporta quase a totalidade do investimento em atividades benéficas. Contudo, há oportunidades de negócio “amigas da natureza” a explorar em todos os setores, realça a mesma entidade.
“O setor privado continua, de forma esmagadora, a financiar a destruição da natureza em vez de trabalhar em harmonia com ela, enquanto os governos enfrentam constrangimentos orçamentais para financiar a proteção da natureza”, realça o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP), entre as mensagens chave do relatório o Estado do Financiamento da Natureza 2026, publicado esta quinta-feira, e cujos dados referem a 2023.
Enquanto 220 mil milhões de dólares estão a ser investidos globalmente para proteger a natureza, investimentos de 7,4 biliões estão a destruí-la. E “a maior parte dos 7,4 biliões de dólares gastos anualmente em atividades negativas para a natureza provêm do setor privado”, denuncia a UNEP.
O setor privado continua, de forma esmagadora, a financiar a destruição da natureza em vez de trabalhar em harmonia com ela, enquanto os governos enfrentam constrangimentos orçamentais para financiar a proteção da natureza.
Dentro desta quantia, 5 biliões de dólares foram investidos por privados em setores considerados de elevado impacto ambiental: serviços públicos, indústria, energia e materiais básicos. Em paralelo, 2,4 biliões de dólares foram gastos em subsídios prejudiciais, que apoiam combustíveis fósseis, agricultura e utilização da água.
Em oposição, 90% dos investimentos para proteger a natureza são financiados com fundos públicos. O financiamento público internacional para Soluções Baseadas na Natureza (SbN) foi 22% superior ao de 2022, e 55% acima do de 2015. As Soluções Baseadas na Natureza são ações destinadas a proteger, gerir de forma sustentável e restaurar ecossistemas, beneficiando simultaneamente as pessoas e a natureza.
Olhando aos 220 mil milhões de dólares que foram aplicados em harmonia com a natureza, a despesa em proteção da biodiversidade e da paisagem aumentou 11%, mas notou-se um menor apoio à agricultura, silvicultura e pescas sustentáveis. Cerca de 23 mil milhões de dólares vieram do setor privado, “mas existe potencial para um aumento significativo”, caso os governos criem os incentivos económicos “adequados”, refere a UNEP.
O investimento em soluções baseadas na natureza tem de aumentar 2,5 vezes, para cerca de 572 mil milhões de dólares.
Tendo em conta o panorama atual, “o investimento em soluções baseadas na natureza tem de aumentar 2,5 vezes, para cerca de 572 mil milhões de dólares”, calcula a UNEP. Só assim, afirma esta entidade, é que será possível cumprir acordos globais como a Convenção Quadro das Nações Unidas para o Clima, que serve de base ao acordo de Paris. “Isto implica reformar e redirecionar os fluxos de capital públicos e privados” para a sustentabilidade.
Oportunidades da agricultura regenerativa aos painéis solares
Na opinião dos autores do relatório, “ao eliminar gradualmente os investimentos em atividades empresariais negativas para a natureza e ao aumentar os investimentos positivos para a natureza, podemos impulsionar uma economia de transição ecológica”.
No que diz respeito ao setor privado, a UNEP vê o redirecionamento do investimento como uma forma de desbloquear valor no longo prazo e promover resiliência. Um dos conselhos que deixa é que as empresas façam o reporte de sustentabilidade.
As oportunidades relacionadas com a natureza vão além da proteção e restauração. “Existem em todos os setores da economia”, frisa a UNEP. Isto inclui setores habitualmente tidos como desafiantes em termos ambientais, como é o caso da alimentação, construção, serviços públicos, indústrias extrativas, vestuário, entre outros.
A título de exemplo, a UNEP identifica oportunidades de investimento em mercados emergentes nas áreas de agricultura regenerativa, silvicultura sustentável, restauração de ecossistemas, créditos de biodiversidade e compensações de carbono. Fala ainda de criar zonas urbanas mais verdes, de misturar infraestrutura energética com natureza – projetos agrovoltaicos, que misturam natureza com painéis solares – e criar cadeias de fornecimento sustentáveis, na medida em que não estejam assentes em desflorestação.
Da parte do setor público, a UNEP defende que sejam alinhados os orçamentos com as metas de biodiversidade, clima e uso do território, que sejam alavancados investimentos privados pró-natureza, que os subsídios nefastos sejam redirecionados para investimentos mais benéficos e que o enquadramento fiscal tenha a natureza em conta.
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