Fidelidade vai criar mapa de incêndios “rua a rua” para quantificar riscos em Portugal
Fidelidade pretende revolucionar a forma como Portugal avalia o risco de incêndios florestais, criando o primeiro mapa nacional que integra cenários climáticos na avaliação de risco.
Um estudo com a duração de dois anos e meio vai mapear Portugal, combinando perigosidade, exposição e vulnerabilidade de edifícios para quantificar perdas em euros e reduzir lacunas de proteção.

A Fidelidade apresentou na quarta-feira esse estudo que pretende alterar a forma como Portugal avalia o risco de incêndios florestais, criando o primeiro mapa nacional que integra cenários climáticos prospetivos e quantifica perdas económicas.
O projeto, revelado no encontro anual do Impact Center for Climate Change (ICCC) no Técnico Innovation Center em Lisboa, vai produzir mapas de alta resolução (100 x 100 metros) ao longo de dois anos e meio, com os resultados finais esperados para cerca de 2028-2029, embora dados intercalares comecem a ser divulgados progressivamente.
“Vamos conseguir identificar risco quase de rua a rua”, ressaltou Rogério Campos Henriques, CEO da seguradora, na abertura do encontro.
Já Tomé Pedroso, colíder do ICCC e assessor da Comissão Executiva da Fidelidade, em entrevista ao ECOseguros, explicou a importância de quantificar esse risco num valor monetário. “Nós trabalhamos com euros. As pessoas pagam prémios em euros e recebem indemnizações em euros. Portanto, temos de saber quantificar as coisas em euros“, sublinha. Assim, “é mais fácil perceber a dimensão do problema e as prioridades“, pois “aquilo que não é quantificável não é segurável“.
Metodologia inovadora com quatro componentes
O estudo parte do diagnóstico de que o mapeamento estrutural atualmente existente em Portugal não oferece uma medição abrangente do risco, focando-se sobretudo na perigosidade e não integrando, de forma probabilística, cenários de clima, uso do solo e padrões de ignição, nem uma caracterização completa dos sistemas socioeconómicos expostos.
A investigação, conduzida por José Miguel Cardoso Pereira, professor catedrático do Instituto Superior de Agronomia, e Domingos Xavier Viegas, professor catedrático da Universidade de Coimbra, irá então adotar uma abordagem integrada em que o risco resulta de quatro componentes: perigosidade, exposição, vulnerabilidade e curvas de perda.
Duas equipas trabalharão em paralelo, envolvendo cinco centros de investigação e mais de 20 cientistas. A primeira equipa vai estudar a probabilidade de ocorrência de incêndios, as suas características e fazer o levantamento de todos os ativos existentes em cada local — habitações, indústrias, empresas, pessoas residentes e temporárias, de acordo com Pedroso. A segunda equipa vai determinar os danos que um incêndio com determinadas características provocará às habitações identificadas, concentrando-se especificamente neste tipo de ativos.
Como será construído o mapa?
O projeto utiliza dados de diversas instituições, incluindo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), o Instituto Nacional de Estatística (INE) e dados do setor segurador para calibrar os danos e perdas ocorridas. “Vai ser uma conjugação de informação de muitas fontes diferentes, porque isto é um esforço muito grande de informação e de dados”, explica Pedroso.
Os outputs terão diferentes níveis de acesso. “Vai haver entregáveis que são públicos e outros que são privados”, esclareceu Tomé Pedroso. Alguns resultados mais agregados estarão disponíveis para todos os cidadãos, enquanto que “informação mais granular será de utilização restrita para determinadas entidades e organismos públicos”.
Urgência climática e lacuna de proteção
A iniciativa surge num contexto de aceleração dos impactos das alterações climáticas. “As perdas que as alterações climáticas provocam e a aceleração dessas perdas estão a aumentar”, afirmou Pedroso, sublinhando que “é um problema que os seguros sentem, em particular, porque seguram esse tipo de problemas”.
Um projeto-piloto da Fidelidade demonstrou a eficácia da informação sobre riscos na proteção dos clientes. Quando agentes de seguros receberam folhas de risco detalhadas sobre as habitações dos clientes, identificando zonas de alto risco de inundação, tempestades ou outros perigos, as vendas de coberturas adequadas aumentaram quase 60% comparativamente a agentes sem acesso a essa informação.
“Quando o agente tem uma conversa informada, baseada em factos, consegue ter eficácia na proteção que leva à compra”, explicou Pedroso. “Isso é uma coisa positiva, porque estamos a contribuir para a redução do gap de proteção.”
Benefícios deste mapeamento
No setor segurador, o projeto deverá permitir melhorias em subscrição de riscos, tarifação e gestão, contribuindo para a redução da lacuna de proteção, mas também o apoio à gestão integrada do risco, ao ordenamento do território e à tomada de decisão informada por parte de decisores políticos.
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