Ouro do Banco de Portugal já vale mais de 50 mil milhões com escalada das tensões em torno da Gronelândia

Escalada das tensões entre EUA e UE por causa da Gronelândia está a puxar pelos preços do ouro para valores recorde. Reservas do Banco de Portugal já valem mais de 50 mil milhões de euros.

As reservas de ouro detidas pelo Banco de Portugal estão a valorizar de dia para dia e já valem mais de 50 mil milhões de euros, com o escalar das tensões entre União Europeia e os EUA por causa do controlo da Gronelândia a puxar pelos preços da onça para valores recorde. Mas não só.

O metal precioso atingiu esta quarta-feira um máximo histórico nos 4.887,82 dólares por onça, aproximando-se cada vez mais da barreira dos 5.000 dólares, algo que o mercado antecipa que vai acontecer ainda este ano.

Os analistas associam esta corrida ao ouro por se tratar de um porto de abrigo para os investidores em tempos de incerteza, mas há outra força de fundo por detrás deste movimento: o enfraquecimento do estatuto do dólar no sistema mundial enquanto moeda de reserva, situação que está a impulsionar a procura por parte dos bancos centrais em todo o mundo.

No caso do Banco de Portugal, o banco central liderado por Álvaro Santos Pereira não tem feito compras, mas detém das maiores reservas do mundo (15.º da lista do World Gold Council) com aproximadamente 382,7 toneladas de metal precioso que já valem cerca de 50,6 mil milhões de euros. Em apenas três semanas já valorizaram cerca de 15%.

Se olharmos para a última década, o ouro apresenta uma valorização média anual a rondar 15%. Esta evolução bate mesmo o desempenho do PSI (aproximadamente 9% em média ao ano) e das ações mundiais (11% em média ao ano) neste período.

Um lingote de ouro no complexo do Banco de Portugal, durante a iniciativa que marcou o encerramento das comemorações dos 20 anos do Euro, no Carregado, 17 de maio de 2022.MIGUEL A. LOPES/LUSA

Trump dá força ao ouro

Esta quarta-feira, o Presidente dos EUA tentou aliviar as tensões com a Europa ao afastar o “uso da força” para ficar com a Gronelândia, mas repetiu a exigência de ficar com a ilha do Ártico por razões de segurança nacional e internacional. “Queremos um pedaço de gelo para proteger o mundo e não nos querem dar. Nunca pedimos nada. Têm uma escolha, ou nos dizem sim e ficamos agradecidos ou dizem não e nós não nos esqueceremos”, disse no Fórum Económico Mundial, em Davos, Suíça.

Donald Trump voltou atrás com as tarifas aos países europeus, palavras que ajudaram a acalmar os mercados, mas não apagam a política errática que tem conduzido desde que voltou à Casa Branca há um ano, com ameaças constantes contra os parceiros comerciais, incluindo aliados, e ataques às instituições como Reserva Federal norte-americana (Fed), cuja credibilidade e independência tem sido amplamente colocada em causa com as investidas contra o seu presidente, Jerome Powell.

Se durante décadas o dólar foi a principal moeda de reserva e o meio de troca da maioria do comércio internacional, esse estatuto parece estar a enfraquecer.

“Os investidores — privados e soberanos — acreditam que as suas reservas estratégicas já não estão seguras em termos de dólares, porque podem ser confiscadas de um dia para o outro. O dólar está a perder credibilidade como âncora do sistema monetário global, porque a Fed está a perder credibilidade e o Congresso dos EUA também”, explicou Raphaël Gallardo, economista-chefe da gestora de ativos Carmignac, citado pelo The Guardian.

“Não há ninguém para substituir o dólar. Por isso, o ouro brilha por defeito”, remata Gallardo.

Corrida dos bancos centrais

É neste cenário que os bancos centrais têm estado numa autêntica corrida ao ouro (alimentando os preços da onça) como forma de diversificarem as suas reservas e de se protegerem desta instabilidade relacionada com o dólar. “Não estão apenas preocupados com a inflação – estão também preocupados com um mundo onde os ativos em dólares podem ser alvo de sanções, confiscados ou desvalorizados”, comentava Ugo Yatsliach, fundador da Gold Policy Advisor e professor de Economia na Bridgewater State University e de Finanças no Bunker Hill Community College, citado pelo Financial Times.

Esse é o caso do Banco Nacional da Polónia, que esta semana aprovou um plano para comprar 150 toneladas de ouro, que aumentaria as reservas do país para 700 toneladas. “Isto colocaria a Polónia entre a elite de 10 países com as maiores reservas do mundo”, referiu a instituição em comunicado.

O Banco Nacional da Polónia tem liderado as compras de ouro, mas outros bancos centrais também têm estado ativos no mercado, como os de Cazaquistão, Brasil, Azerbaijão, Turquia e China, por exemplo, que estão a aproveitar a baixa do dólar para comprar o ouro a um preço mais baixo.

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