Restauração enfrenta margens “extremamente deprimidas” e “encerramentos silenciosos”. Mais de mil fechos em 2025
Associação diz ao ECO que solução do Governo para o setor é a "mais ágil, rápida e eficaz" para dar a mão às empresas em dificuldades. Só em 2025, mais de mil fecharam portas e quase 200 faliram.
- A crise no setor da restauração, impulsionada pelo aumento dos preços e pela fatura da covid, está a provocar encerramentos silenciosos de empresas, alerta a AHRESP
- Em 2025, o setor registou mais de mil encerramentos e 193 insolvências, refletindo uma queda de 8% nas novas aberturas em comparação com o ano anterior.
- As medidas de apoio do Governo são urgentes para garantir a sustentabilidade das micro e pequenas empresas, que enfrentam dificuldades financeiras significativas.
A crise no setor da restauração, provocado pelo aumento dos preços e pela fatura da Covid e que levou o Governo a avançar com novos apoios para o setor, está a conduzir a “encerramentos silenciosos”, que são “pouco visíveis” mas que têm impacto estrutural, avisa a associação que representa o setor. Um ambiente que está a refletir-se num menor número de aberturas no setor, mais insolvências e mais de mil encerramentos em 2025.
Num momento em que se aguardam os detalhes sobre as medidas do Governo, nomeadamente no que diz respeito aos critérios de elegibilidade para aceder às ajudas, a AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) reforça que os apoios têm de chegar às empresas que precisam, mas saúda os apoios, que foram de encontro ao que tinha sido pedido pela associação para “estancar” a crise no setor. Detalhes que, ao que o ECO apurou, ainda vão levar alguns dias a regulamentar.
“A restauração tem vindo a atravessar um período de forte pressão, que tem comprometido a sustentabilidade de muitas empresas”, explica Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, ao ECO. “As margens do setor estão extremamente comprimidas, o que é hoje o principal problema”, esclarece.
Continuam a ocorrer encerramentos silenciosos, sobretudo entre micro e pequenas empresas familiares, ou seja, restaurantes que mudam de atividade ou simplesmente não reabrem após um período de férias. Apesar de pouco visíveis, estes fechos têm um impacto estrutural relevante: reduzem o tecido empresarial local, fragilizam o emprego, empobrecem a oferta nos territórios e sinalizam dificuldades profundas na sustentabilidade económica do setor.
“É por isso que continuam a ocorrer encerramentos silenciosos, sobretudo entre micro e pequenas empresas familiares, ou seja, restaurantes que mudam de atividade ou simplesmente não reabrem após um período de férias”, explica a responsável, dando conta que, “apesar de pouco visíveis, estes fechos têm um impacto estrutural relevante: reduzem o tecido empresarial local, fragilizam o emprego, empobrecem a oferta nos territórios e sinalizam dificuldades profundas na sustentabilidade económica do setor“.
Apenas no último ano, o setor registou 1.048 encerramentos e 193 insolvências, segundo dados da Informa D&B. Ainda que o número de fechos seja inferior ao registado em 2024 (1.392), as insolvências estão a crescer, tendo aumentado perto de 3%.
Setor da restauração registou mais de mil encerramentos no último ano e perto de 200 insolvências. Novas aberturas caíram 8% face ao ano anterior.
Nota-se ainda um menor interesse em iniciar novos negócios no setor da restauração. Segundo a Informa D&B, nos últimos 12 meses foram criadas 3.324 novas empresas nesta área, menos 8% ou 292 que as 3.616 aberturas no ano anterior, num momento em que o setor enfrenta vários desafios.
“As maiores dificuldades sentem-se no aumento dos custos das matérias-primas alimentares, energia, rendas, salários e encargos financeiros, que, em grande medida, têm sido absorvidos pelas próprias empresas, porque nem sempre é possível repercuti-los nos preços sem afastar consumidores”, detalha a secretária-geral da AHRESP.
Turismo de Portugal alivia tesouraria
Com muitas empresas ainda a pagarem a “conta” da dívida contraída após a Covid, Ana Jacinto refere que a solução que permite a reestruturação da dívida, através da intervenção do Turismo de Portugal é a “mais ágil, rápida e eficaz”, uma vez que alivia a pressão na tesouraria. “O nosso empresário não conseguia fazer a reestruturação da dívida”, assume a secretária-geral da AHRESP, em declarações ao ECO, lembrando que o setor é composto por micro e pequenas empresas.
As unidades que têm dívidas ao Turismo de Portugal de linhas disponibilizadas na pandemia, vão ter mais tempo para pagar esses financiamentos. Para quem tem dívidas à banca, o Turismo de Portugal vai assumir a responsabilidade pelo empréstimo, passando os restaurantes a pagar a esta entidade, mas com um prazo mais dilatado. E há ainda um mecanismo de financiamento, que ao que o ECO apurou vai ser operacionalizado pelo próprio Turismo de Portugal e já não pelo Banco de Fomento como aconteceu com as linhas Covid, para as empresas com um limite de 60 mil euros, por empresa e a possibilidade de 30% do crédito concedido ser convertido num apoio a fundo perdido, caso sejam cumpridos determinados requisitos. O Governo opta assim por replicar o modelo criado para as linhas que surgiram durante a pandemia, embora nesses casos a fatia a converter era de 20%, se as empresas mantivessem “a totalidade dos postos de trabalho face aos verificados na última folha de remuneração entregue à Segurança Social com detalhe de todos os trabalhadores antes da data da contratação da operação com a banca, durante pelo menos 12 meses a contar da data de contratação”.
[Aos aumentos de preços] somam-se os efeitos ainda persistentes da pandemia, com muitos negócios a pagar créditos Covid, dificuldades no acesso ao financiamento e pouco espaço de tesouraria para investir
Recorde-se que em junho do ano passado a associação alertou que 30% das empresas do setor estavam a falhar o pagamento das linhas de crédito da pandemia devido ao aumento dos custos do negócio com a quebra da procura e o aumento da inflação, pedindo ao Banco Português de Fomento a definição de mecanismos para aliviar esta pressão. Uma resposta que chegou através das medidas anunciadas por Manuel Castro Almeida.
Como o setor está ainda a sofrer com os efeitos da pandemia de 2020 e 2021, “com muitos negócios a pagar créditos covid, dificuldades no acesso ao financiamento e pouco espaço de tesouraria para investir“, Ana Jacinto pede agora que sejam rapidamente estabelecidas as condições de acesso às ajudas e que estas cheguem “genericamente a quem precisa”.
Apesar de destacar que as “dificuldades são transversais ao setor”, Ana Jacinto lembra que a restauração é composta sobretudo por um micro tecido empresarial.
O ministério da Economia não divulgou para já detalhes destes apoios aos restaurantes, mas, segundo o ministro, ajudas deverão chegar já em fevereiro.
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