Retalho, banca e energia lideram apostas na bolsa nacional num ano que promete volatilidade
Analistas assumem preferência por setores mais defensivos e mais expostos ao consumo interno. Comportamento "errático" de Donald Trump é uma ameaça ao desempenho das ações globais.
- A bolsa de Lisboa apresenta um desempenho positivo em 2026, continuando a tendência de crescimento iniciada em 2025, apesar da instabilidade geopolítica.
- O índice PSI valorizou mais de 29% em 2025, destacando-se entre as melhores praças europeias, com setores como retalho e banca a liderarem os investimentos.
- Os analistas preveem que a bolsa portuguesa poderá enfrentar volatilidade, mas mantém-se otimista quanto à resiliência do mercado, dependendo de fatores externos e da economia interna.
Depois de ter fechado o último ano com o melhor desempenho desde 2009, a bolsa lisboeta ainda negoceia com ganhos em 2026, apesar da turbulência dos últimos dias associada à instabilidade geopolítica global. Olhando para os próximos meses, os analistas acreditam que o índice de referência PSI tem condições para registar mais um ano positivo. Empresas mais expostas ao consumo privado, como o retalho, a banca e a energia lideram a preferência para investir na praça portuguesa.
O índice PSI fechou 2025 com uma valorização superior a 29% e Lisboa a registar um dos melhores desempenhos a nível europeu, num ano de novos recordes para as ações na Europa e nos EUA. À partida 2026 se afigurava mais tranquilo, após um período marcado pelas negociações comerciais em torno das tarifas, a intervenção militar dos EUA na Venezuela, seguida pelas pretensões de Washington para anexar a Gronelândia vieram abalar a confiança dos investidores. Ainda assim, para já o PSI mantém-se em terreno positivo. E a expectativa é que possa manter esta tendência.
“2026 poderá novamente um bom ano para a bolsa em Portugal. A situação económica é positiva com um crescimento acima da média europeia, uma taxa de desemprego a níveis historicamente baixos, com a inflação controlada e a situação política estabilizada”, explica Pedro Barata, gestor do GNB Portugal Ações. “Os investidores dão especial importância a estes temas pelo que acredito que a bolsa portuguesa pode sair beneficiada”, acrescenta o mesmo responsável, em respostas ao ECO.
No que diz respeito às empresas, o gestor do fundo que fechou 2025 com uma rendibilidade de 31,65% e cujas maiores posições eram o BCP e a Galp, com 9,8% e 8,15% do investimento, antecipa que “aquelas que estão mais expostas ao consumo privado e ao forte investimento público, em função das verbas do PRR, que mais se poderão destacar”.
2026 poderá novamente um bom ano para a bolsa em Portugal. A situação económica é positiva com um crescimento acima da média europeia, uma taxa de desemprego a níveis historicamente baixos, com a inflação controlada e a situação política estabilizada.
Diogo Avelar e Diogo Telhado, analistas da Sixty Degrees, uma das quatro gestoras em Portugal que comercializa um fundo de ações nacionais, consideram que “é muito possível que 2026 possa ainda ser positivo para a bolsa portuguesa, suportada não só pelo aparente bom momento macroeconómico doméstico, mas também pelo desconto, em termos de múltiplos, face às comparáveis europeias“. Apesar de admitirem que “o fraquejar das economias/bolsas mundiais poderá penalizar também a bolsa nacional”, continuam “a acreditar que ainda existem razões para continuarem o outperformance”.
David Afonso, gestor do IMGA Ações Portugal, fundo que no ano passado ganhou 32,7%, nota que “o mercado acionista nacional é indissociável do apetite que os investidores irão ter por ativos de risco no contexto global”. Por outro lado destaca a elevada concentração do índice em setores mais tradicionais, nomeadamente a banca e os setores de retalho alimentar, petrolífero e de utilities, pelo que “o principal índice nacional irá depender, não apenas da performance específica destes setores, mas também das idiossincrasias do número reduzido de títulos cotados”.
“O IMGA Ações Portugal conseguiu apresentar a melhor performance entre os seus pares que investem em ações portuguesas, em 2025, colocando nas suas principais apostas ações do setor de utilities e da banca, nomeadamente EDP e BCP, respetivamente, que apresentaram ganhos contundentes”, argumenta David Afonso. “No arranque do novo ano, as apostas permanecem inalteradas, na expectativa que as dinâmicas vencedoras recentes prevaleçam e tragam ainda mais retornos”, acrescenta.
BCP vai voltar a brilhar?
O BCP, o principal motor dos ganhos na bolsa de Lisboa, em 2025, com um disparo de 92,86%, é uma das apostas dos analistas. São cada vez mais os bancos de investimento que avaliam o banco acima de um euro ou mais, otimistas em relação à rentabilidade apresentada pela entidade, num momento em que permanecem boas perspetivas para o setor. “A banca europeia aparenta estar num bom momento, beneficiando de uma economia que se manteve resiliente e de taxas de juro que têm permanecido estáveis desde a segunda metade de 2025″, justifica o gestor da IMGA.
Para David Afonso, “a prevalência de uma dinâmica positiva de resultados por parte do BCP, aliado a um aumento da remuneração ao acionista, seja através de dividendos ou através de programas de compras de ações próprias, poderá ditar um novo ano de ganhos“, antecipa.
Quanto às utilities, o gestor refere que o setor “poderá beneficiar dos fatores de risco e incerteza que vão surgindo no mercado, atuando como um setor defensivo, e podendo registar uma reavaliação ao nível dos múltiplos, condicionados desde o final de 2024, altura em que a eleição de Donald Trump foi prejudicial para as empresas que tinham exposição às energias renováveis, como é o caso do grupo EDP, ainda que essa recuperação já tenha sido registada parcialmente durante o ano passado”.
Retalho alimentar recolhe preferência
O gestor da IMGA destaca que, “no campo dos setores mais defensivos, as ações de retalho alimentar cotadas em Portugal, Sonae e Jerónimo Martins, poderão ser beneficiadas, já que, a esse perfil, adicionam ainda uma dinâmica operacional interessante nos principais mercados em que atuam”.
Também a Sixty Degrees identifica valor no retalho, escolhendo a Sonae, uma das estrelas da bolsa no ano passado. “A Sonae está muito exposta ao consumo interno. Com o aumento do salário real, que representa maior poder de compra, o consumidor português tende a gastar uma parte significativa desse rendimento adicional em mais e melhor alimentação. Isto traduz-se em maiores volumes e melhores margens para o Continente”, referem os analistas Diogo Avelar e Diogo Telhado, ao ECO.
Para justificar a preferência da Sonae, os especialistas argumentam que “a marca branca, onde o Continente é menos competitivo face ao Pingo Doce e à Mercadona, não deverá ganhar quota de mercado, já que ‘melhor comida’, neste contexto, significa também trocar produtos de marca branca por produtos de marca”.
A NOS é outra das cotadas apontadas pelos analistas, nomeadamente para ganhar com o consumo interno. Os analistas da Sixty Degrees lembram que a operadora iniciou, em 2025, a implementação de um plano de corte de custos “que já demonstrou resultados muito positivos até ao final do terceiro trimestre de 2025, permitindo à empresa manter a margem EBITDA mesmo com a forte pressão sobre as receitas, derivada da entrada da DIGI no mercado português no final de 2024”. Em 2026, dizem, “as receitas deverão regressar ao seu ritmo de crescimento habitual, uma vez que a DIGI já terá esgotado a sua capacidade de penetração no mercado B2C nacional”.
A NOS e a Jerónimo Martins beneficiam de tendências de consumo que se mantêm interessantes, excelente gestão do lado dos custos.
“Caso a empresa consiga demonstrar que estas medidas vieram para ficar, ou até aprofundá-las, a NOS poderá surpreender positivamente os seus acionistas“, preveem Diogo Avelar e Diogo Telhado. Também António Seladas, fundador da AS Independent Research, destaca que a “NOS e a Jerónimo Martins beneficiam de tendências de consumo que se mantêm interessantes, excelente gestão do lado dos custos”, ainda que admita que há “alguns entraves em Portugal e Polónia, nomeadamente concorrência a pressionar”.
Galp ganha brilho após acordo com Moeve
Os analistas da Sixty Degrees elegem ainda a petrolífera Galp como uma das apostas para 2026, destacando que, após o negócio com a TotalEnergies, o mercado teve uma reação “muito negativa” que consideram “excessiva”. “Isto deveu-se ao facto de o mercado esperar que o acordo viesse acompanhado de um pagamento imediato em cash”, justificam.
Para Diogo Avelar e Diogo Telhado, “a questão é que o valor de mercado eliminado na semana do anúncio, num negócio em que a Galp cedeu determinados ativos e recebeu outros em troca, foi superior ao valor daquilo que a Galp efetivamente cedeu, o que implicaria que os ativos recebidos teriam um valor negativo, o que não faz sentido”. “Apesar da recuperação já registada pela ação, continua a ter um potencial de subida considerável“.
Além disso, os analistas realçam o negócio com a Moeve, que “poderá desbloquear valor significativo para a Galp, ao permitir-lhe separar as operações de downstream em duas entidades: uma focada na distribuição (RetailCo), onde manterá 50% de participação, e outra nas atividades industriais e de refinação (IndustrialCo), onde deterá 20%”. Os especialistas acrescentam que “a Moeve, anteriormente conhecida como Cepsa, irá contribuir com uma capacidade de refinação superior e presença no setor químico e em projetos de baixo carbono, como o Andalusian Hydrogen Valley”.
Estimam-se sinergias em torno de 10% do EBITDA das operações combinadas, o que, em valor presente líquido, representa cerca de 521 milhões de euros para a Galp, reforçando a atratividade desta transação. Além disso, esta reestruturação permitirá à Galp focar-se no seu core de upstream, mais gerador de caixa, potencialmente reforçando a política de distribuição aos acionistas.
“Estimam-se sinergias em torno de 10% do EBITDA das operações combinadas, o que, em valor presente líquido, representa cerca de 521 milhões de euros para a Galp, reforçando a atratividade desta transação. Além disso, esta reestruturação permitirá à Galp focar-se no seu core de upstream, mais gerador de caixa, potencialmente reforçando a política de distribuição aos acionistas”, explicam os analistas da Sixty Degrees.
O IMGA Ações Portugal também mantém um investimento “relevante” na Galp, “na expectativa que, após o grande desapontamento trazido pela equipa de gestão da empresa no final do ano passado com o anúncio da troca de participações em poços petrolíferos na Namíbia com a TotalEnergies, quando o mercado antecipava uma venda direta que permitiria a entrada de um fluxo de caixa significativo, 2026 possa ser um ano de recuperação e o mercado volte a estar confortável com as métricas de valorização e mais otimista quanto a novas tomadas de decisão“, justifica o gestor do fundo David Afonso.
“Errático” Trump é maior ameaça
Apesar do otimismo generalizado para a bolsa de Lisboa, os especialistas admitem que o ano poderá ser dominado por “muita volatilidade, como em 2025”, conforme nota António Seladas. “Confesso que há uns meses esperava que devido às eleições para o Congresso nos EUA, em novembro, a administração americana reduzisse o protagonismo, mas, aparentemente, não vai ser o caso“, lamenta o analista.
“A errática atuação de Donald Trump, desde as questões geopolíticas aos problemas económicos e comerciais, afetará, com certeza, a evolução das ações”, reforça David Afonso. O gestor da IMGA destaca que, “por um lado, a forma imprevisível como os EUA irão atuar perante adversários, e até mesmo perante aliados, poderá mudar o xadrez geopolítico com consequências imprevisíveis nos mercados“. “Também o recurso às tarifas aduaneiras se deverá manter na ordem do dia, com as ordens executivas do presidente norte-americano a eventualmente serem consideradas inconstitucionais pelo Supremo Tribunal dos EUA”.
A errática atuação de Donald Trump, desde as questões geopolíticas aos problemas económicos e comerciais, afetará, com certeza, a evolução das ações. Por um lado, a forma imprevisível como os EUA irão atuar perante adversários, e até mesmo perante aliados, poderá mudar o xadrez geopolítico com consequências imprevisíveis nos mercados.
Ainda nos EUA, o especialista refere que “o abrandamento do mercado laboral e o perigo de contagiar o consumo privado é também um risco, ainda que, do lado da política monetária, a entrada de um novo presidente na Reserva Federal e o previsível caminho descendente que as taxas de juro diretoras irão manter sejam potenciadoras do mercado acionista”.
Para os analistas da Sixty Degrees, “a negociação em 2026 será ditada por fatores que transitam de 2025, nomeadamente a evolução da economia portuguesa e a execução do PRR, que entra agora no seu último ano”, elementos que terão influencia no consumo interno e no investimento. A nível externo, “o mercado permanecerá sensível à política monetária do BCE e à volatilidade gerada por conflitos comerciais e tensões geopolíticas”. “Estes fatores, aliados à trajetória macroeconómica global, definirão o sentimento dos investidores e o desempenho das principais cotadas ao longo do ano”, antecipam.
No que diz respeito à exposição das cotadas ao risco Trump, Diogo Avelar e Diogo Telhado avisam que a EDP Renováveis “está especialmente presente” no mercado, pelo que “se, de um dia para o outro, ele decidir que quer mudar as tendências com as energias renováveis, o impacto pode ser imediato”. “Na nossa opinião, a ação está priced to perfection“.
“Há também risco de correlação com ativos internacionais. Se houver uma grande correção a nível global, originada tanto nos Estados Unidos como nalgum dos países do core europeu, Portugal pode acabar por cair por arrasto”, admitem os dois analistas da Sixty Degrees.
Depois de ter sido uma das quatro cotadas que caiu em 2025, a Navigator “enfrenta igualmente uma fase complicada”, devido aos “preços da pasta de papel, nomeadamente a BHKP, utilizada na produção de papel de escritório, que estão muito baixos”, afirmam Avelar e Telhado.
“O principal risco advém da abertura da nossa economia ao exterior. Numa altura em que os riscos políticos se vão agravando um pouco por todo o mundo, a economia portuguesa não deverá ficar imune ao que acontece no exterior“, concorda Pedro Barata. “Em todo o caso, tal como já aconteceu no passado, o mercado português pode ser bastante resiliente mesmo nos períodos mais difíceis como foi, por exemplo, o caso de 2022”, elogia o gestor.
“Concluindo, acreditamos que 2026 poderá ser novamente um bom ano para a bolsa portuguesa, talvez com um pouco mais de volatilidade, mas com capacidade para se mostrar resiliente face a algumas ameaças exteriores“, remata.
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