Alunos de cursos profissionais que prosseguem estudos têm “preferência clara” por politécnicos
Novo estudo revela que os alunos que terminam secundário pela via científico-humanística tendem a "preferir" universidades de maior dimensão. Politécnicos são opção de quem faz cursos profissionais.
Os alunos que se inscrevem no ensino superior após terminarem cursos profissionais tendem a dar preferência a instituições politécnicas. Já aqueles que completaram o ensino secundário pela via científico-humanística optam mais por universidades. O retrato é traçado num novo estudo do think tank EDULOG sobre a mobilidade dos estudantes em Portugal, que é divulgado esta quarta-feira.
“Do ponto de vista institucional, os percursos divergem: diplomados de cursos científico-humanísticos tendem a preferir universidades de maior dimensão, enquanto os de cursos profissionais mostram afinidade com institutos politécnicos, com formações mais aplicadas“, avançam os autores, que analisaram os dados administrativos de cerca de 724 mil diplomados do ensino secundário residentes em todos os municípios de Portugal continental.
No que diz respeito aos alunos que chegam ao ensino superior após terminarem cursos profissionais, o novo estudo assinala que a “preferência clara“ por politécnicos “é consistente com o papel dos cursos técnicos superiores profissionais“, que são, regra geral, lecionados por essas instituições.
Criados em 2014, os cursos técnicos superiores profissionais procuram promover a ligação entre instituições de ensino e as necessidades regionais e são direcionados preferencialmente a estudantes que concluem o ensino secundário profissional.
Por outro lado, este novo estudo mostra que, apesar da “massificação do ensino superior”, a mobilidade estudantil permanece “fortemente condicionada por fatores socioeconómicos e territoriais“, que moldam “o acesso, o sucesso e a distribuição regional do capital humano”.
A presença de instituições de ensino superior no município também se assinala relevante, ao criar condições locais mais favoráveis à progressão, não só pela proximidade física mas também porque aumenta a exposição dos estudantes à informação e às oportunidades do ensino superior, potenciando os fluxos de entrada.
Em concreto, os autores concluem que “a distância é um dos fatores mais penalizadores da mobilidade dos estudantes, reduzindo significativamente os fluxos“. Outro fator, apontam, é a presença ou ausência de instituições de ensino superior no município de origem dos alunos.
O estudo detalha que a presença de instituições de ensino superior no município é relevante por “criar condições locais mais favoráveis à progressão, não só pela proximidade física mas também porque aumenta a exposição dos estudantes à informação e às oportunidades do ensino superior, potenciando os fluxos de entrada”.
O investigador Pedro Luís Silva, que coordenou este estudo, acrescenta que, quando existe uma instituição de ensino superior no município de origem, os alunos tendem a ser “mais sensíveis” à distância e, portanto, menos dispostos a mudar de região geográfica.
Sobre este ponto, o estudo do EDULOG observa que, por exemplo, nas áreas metropolitanas, onde a oferta é mais ampla e diversificada, os estudantes revelam essa tal “maior sensibilidade à distância“.
“Já nos territórios do interior, a mobilidade é frequentemente uma necessidade, devido à escassez de alternativas locais, levando muitos estudantes a percorrer distâncias mais longas”, lê-se.
Já no que diz respeito à atratividade das instituições de ensino superior, os autores indicam que as universidades de grande dimensão e as instituições com especializações em determinadas áreas conseguem atrair estudantes além da sua região.
“Em contraste, os institutos politécnicos continuam a afirmar-se essencialmente como uma opção de proximidade“, é frisado no novo estudo.
O caso de medicina

Do total de alunos que prosseguem estudos, apenas 2% optam por medicina, o que os autores do referido estudo consideram um “sinal de elevada seletividade e da forte concentração institucional“.
No caso deste curso, um aumento de 10% na distância entre o município de origem e a instituição de ensino superior traduz-se numa queda de apenas 1,5% nos fluxos de entrada, “cerca de metade do observado no conjunto dos cursos científico-humanísticos“.
Ou seja, há menor sensibilidade à distância, o que evidencia a “forte atratividade de medicina“, cujos “elevados retornos e prestígio levam os estudantes a aceitar maiores custos de deslocação, atenuando o efeito dissuasor da distância”.
Pelo contrário, os fatores socioeconómicos revelam um peso significativo. “Um aumento de dez pontos percentuais na proporção de alunos que frequentam o ensino secundário privado está associado a um acréscimo de 3% nos fluxos para medicina”, apontam os autores.
Distância é entrave. Especialistas recomendam apoio

Depois de analisarem os dados dos tais 724 mil diplomados, os investigadores do EDULOG deixam algumas recomendações, a começar pelos necessários necessários apoios à mobilidade.
“A distância continua a ser um dos principais entraves à frequência do ensino superior, sobretudo para os estudantes do interior, para quem a mobilidade é praticamente inevitável. É crucial reduzir os custos adicionais associados a transporte e alojamento, mitigando desigualdades territoriais no acesso”, é defendido no novo estudo.
Em concreto, os autores aconselham a criação ou reforço de bolsas específicas de deslocação e residência para estudantes do interior, bem como o reforço dos apoios de transporte e alojamento, “sobretudo para os estudantes provenientes de regiões periféricas”.
“Ou se subsidia e financia a mobilidade ou, então, a oferta pode ser melhorada a nível local“, atira o investigador Pedro Luís Silva. Daí que outra das recomendações seja incentivar a especialização das instituições de ensino superior em regiões periféricas em domínios como saúde, tecnologia e energias renováveis, bem como promover parcerias com empresas e instituições locais de modo a reforçar a atratividade dessas escolas.
Avaliar os mecanismos de colocação para garantir maior compatibilidade entre preferências dos estudantes e vagas disponíveis, reduzindo desistências e mobilidade forçada.
No novo estudo, os autores apelam também a que se incentive as universidades e institutos politécnicos a criarem polos, extensões ou cooperações em municípios de menor oferta, e a que se avalie os mecanismos de colocação para “garantir maior compatibilidade entre as preferências dos estudantes e as vagas disponíveis“, reduzindo desistências e mobilidade forçada.
Sobre este último ponto, o coordenador do estudo afirma: “O sistema de acesso ao ensino superior em Portugal é mais equitativo do que noutros países, como os Estados Unidos e o Reino Unido. Os exames nacionais são um garante de equidade. Mas existem algumas desigualdades“. Defende, assim, um sistema que seja sensível e procure mitigar essas desigualdades socioeconómicas e territoriais.
O think tank EDULOG enquadra-se na Fundação Belmiro de Azevedo. O seu objetivo é “contribuir para a construção de um sistema de educação de referência” e a informação das políticas públicas “para a inovação e mudança na educação”.
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