Enquanto a Reserva Federal faz uma curta pausa, os holofotes vão estar virados para Powell e a independência

O banco central dos EUA vai manter inalterado o custo do dólar, mas a pausa não deve ser longa. Investidores vão estão atentos às palavras de Powell em defesa da independência.

Depois de três cortes seguidos, de 25 pontos base cada, a Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos vai manter inalteradas as taxas de juro na reunião de dois dias do Federal Open Market Committee (FOMC, na sigla em inglês) que termina esta quarta-feira, apontam investidores e analistas, numa curta pausa que deverá ser ofuscada pela guerra de palavras entre o presidente da instituição, Jerome Powell, e o chefe de Estado, Donald Trump.

“Espera-se que a Fed mantenha as taxas de juro inalteradas e se tal se confirmar, será a primeira pausa em seis meses, após cortes nas três reuniões anteriores que reduziram as taxas em um total de 75 pontos base”, referiram os analistas do britânico Lloyds. “Vários decisores de política monetária da Fed têm sugerido que este pode ser um momento apropriado para fazer uma pausa e avaliar o impacto dessas medidas, em conjunto com outros desenvolvimentos recentes”.

Em consequência, explicaram que os mercados atribuem menos de 5% de probabilidade a um quarto corte consecutivo, pelo que uma nova alteração imediata da política monetária seria uma surpresa. “Ainda assim, é provável que haja alguma dissidência, com o recente nomeado do presidente Donald Trump, Kevin Miran, quase de certeza a votar contra a decisão, podendo ser acompanhado por outros nomeados pelo presidente, Michelle Bowman e Christopher Waller”.

Segundo o site CME FedWatch Tool, que monitoriza a negociação dos futuros das taxas de juro, esta terça-feira a probabilidade de a Fed manter as Federal Funds Rates no intervalo 3,50%-3,75% estava nos 97,2%.

 

Entre os economistas o consenso é pleno. Num inquérito da Reuters divulgado a 21 de janeiro, 100% dos consultados – literalmente 100 economistas em 100 – apontaram para uma manutenção do custo do dólar no nível atual, com 58% a não preverem mais alterações este trimstre.

Os economistas do Deutsche Bank esperam que a Fed mantenha a política monetária inalterada, “adotando ao mesmo tempo um tom ligeiramente mais firme quanto ao enquadramento económico subjacente“.

“Embora, em circunstâncias normais, o foco recaísse sobre as perspetivas de política monetária, o contexto atual faz com que a conferência de imprensa do presidente Jerome Powell deva centrar-se fortemente em matérias não económicas“, sublinharam.

“Inevitavelmente, surgirão questões em torno da recente intimação do Departamento de Justiça dos EUA, da situação envolvendo a governadora Lisa Cook e da questão mais ampla da futura liderança da Fed”.

O Ministério Público Federal do Distrito de Columbia abriu uma investigação criminal sobre o presidente da Fed em relação à renovação da sede do banco central em Washington e se Powell mentiu ao Congresso sobre o âmbito do projeto. A investigação, que inclui uma análise das declarações públicas de Powell e uma análise dos registos de despesas, foi aprovada em novembro pela procuradora Jeanine Pirro.

Os analistas do Deutsche acreditam que Powell deverá apoiar-se nos temas da sua declaração gravada de 11 de janeiro, sublinhando a importância da independência institucional e da resistência a pressões políticas — uma mensagem que dificilmente irá atenuar, tendo em conta o ambiente atual”.

Nessa altura, Powell defendeu que a intimação faz parte da pressão contínua, exercida por Trump sobre a instituição, para cortar as taxas de juro de forma mais drástica, mesmo com a inflação a manter-se acima da meta de 2%.

“Esta ameaça não tem a ver com o meu testemunho”, afirmou, num vídeo publicado no portal da Fed: “Isto é um pretexto. A ameaça de processo é uma consequência do compromisso da Fed em definir as taxas de juro no melhor interesse do público, em vez de ir ao encontro das preferências do presidente.”

Em paralelo aos constantes ataques públicos a Powell, Trump tem estado a preparar a escolha de quem irá nomear para substituir o presidente da Fed quando este terminar o mandato, em maio deste ano. Segundo a Reuters, o republicano entrevistou três candidatos em dezembro: Kevin Hassett (conselheiro económico da Casa Branca), Kevin Warsh (antigo membro da Fed e com ligações fortes a Wall Street) e Christopher Waller (membro do atual board da Fed). A estas três possibilidades juntou-se Rick Rieder, senior managing director na BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, informou Scott Bessent, secretário do Tesouro. Rieder já é o favorito a ser nomeado para o cargo, segundo as casas de apostas como a Polymarket.

 

Impacto das tarifas mais contido

Olhando para os próximos passos, a visão base dos analistas do banco neerlandês ING é de que a Fed irá cortar as taxas de juro nas reuniões do FOMC de março e junho, “mas o risco evidente é que esses cortes sejam adiados por cerca de três meses“.

“Para que um corte em março se concretize, o duplo mandato da Fed terá de ficar rapidamente sob maior pressão”, acrescentaram. “O impacto das tarifas na inflação tem sido mais contido do que o esperado e os dados divulgados após o shutdown do governo apresentaram surpresas claras em baixa, mas, provavelmente, seriam necessárias duas quedas consecutivas do emprego nos relatórios de janeiro e fevereiro para obter o apoio da maioria dos membros”.

Ainda assim, o ING mantém uma convicção firme de que haverá mais dois cortes das taxas, com os riscos inclinados para uma atuação adicional, e não para menos cortes. “A política monetária continua ligeiramente restritiva e, embora a dinâmica de crescimento seja sólida, esperamos que a Fed esteja em condições de conduzir a política para um nível neutro, tendo em conta os riscos de os dados do mercado de trabalho continuarem a perder fôlego”, concluíram os analistas.

 

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