Saks: A “loja de sonho” enfrenta o pior momento dos seus 100 anos

Lina Santos,

Nasceu para ser uma "dream store", criou uma aura de luxo e começou 2026 com um pedido de insolvência. Mais de 60 lojas estão a fechar.

Numa cena da série “Friends”, Rachel, o arquétipo da rapariga nova-iorquina frequentadora de grandes armazéns, diz: “Tenho uma entrevista no Saks Fifth Avenue“. Phoebe, o arquétipo da rapariga espiritual, responde-lhe: “É como se a nave-mãe te estivesse a chamar para casa”. Nos anos 2000, a Saks, marco da 5.ª Avenida e, claro, dos roteiros turísticos da cidade, conservava o apelo e podia ser personagem secundária da maior série da época, “Sexo e a Cidade” fazia referência aos armazéns, foi lá que foi adquirido parte do guarda-roupa da icónica Cher de “Clueless” nos anos 90. Porém, desde 2024 que a história é tudo menos glamorosa. Cumpriam-se 100 anos desde a abertura da “dream store” pensada por Horace Saks e Bernard Gimbel.

Os piores cenários confirmaram-se a 14 de janeiro deste ano: a Saks Global, que detém os armazéns Saks Fifth Avenue, Neiman Marcus e Bergdorf Goodman, entrou com um pedido de bancarrota e o pedido de proteção de credores. É o maior colapso no retalho de luxo nos EUA pós-pandemia Covid-19. Os analistas previam este desfecho desde 2025, para os mais entendidos terá sido claro ainda mais cedo. Quando a Saks deixou de ser o local onde ir para encontrar o mais exclusivo de moda – como pensaram os seus fundadores.

As montras refletiam os problemas: Falta de liquidez e problemas de inventário. Na prática, atrasos nos pagamentos aos fornecedores que reduziram o acesso aos melhores produtos.

Montra da Saks Fifth Avenue, em Nova IorqueSarah Yenesel /EPA

Quando as lojas começaram a deixar a Saks

Há um processo em curso para salvar a empresa. Os primeiros detalhes da reestruturação foram conhecidos esta semana: 57 lojas Saks OFF 5TH e cinco Last Call dos armazéns Neiman Marcus, com prejuízos estimados em cerca de 140 milhões de dólares em 2025 vão fechar. Apenas 12 unidades vão permanecer abertas para escoar o inventário residual, de acordo com um comunicado da Saks Global, que estabelece o que pode ser a nova estratégia da companhia. Foco no preço total, isto é, foco no luxo sem concessões. A operação digital mantém-se, contrariando informações iniciais que a davam como condenada.

Antes do pedido de falência, a empresa acumulava cerca de 3,4 mil milhões de dólares em dívida, incluindo empréstimos a prazo e obrigações. Destes, 275 milhões dizem respeito à aquisição da Neiman Marcus, com vencimento em fevereiro, segundo documentação judicial. Para ganhar fôlego, a Saks garantiu 1,75 mil milhões de dólares em financiamento.

O negócio de aquisição dos armazéns Neiman Marcus, em 2024, foi já uma tentativa de contrariar os problemas financeiros da empresa, ganhando escala. A ideia era criar um grupo com capacidade de negociar com as grandes marcas. Ao mesmo tempo, o mercado do luxo dava sinais de seguir outra estratégia. Na mesma 5.ª Avenida foram nascendo lojas próprias de marcas que outrora só se podiam comprar na Saks, apagando cada vez mais o papel do intermediário.

Em 2025, a situação agravou-se. A Chanel deixou de estar em sete lojas da Saks, a Oscar de La Renta deixou de estar representada, assim como outros representantes de marcas. Uma compradora reputada e a diretora de merchandising do Neiman Marcus deixaram o grupo.

O negócio de aquisição do Neiman Marcus foi liderado por Richard Baker, chairman da empresa, o mesmo gestor que, após o anúncio da bancarrota, substituiu o CEO Marc Metrick e, duas semanas depois, foi ele próprio substituído por Geoffroy van Raemdonck, antigo CEO da Neiman Marcus. Mais uma vez, a mensagem que querem passar é que estão a fazer um regresso aos anos de ouro dos armazéns, quando Grace Kelly ia comprar à Saks as joias Cartier que usaria no Mónaco. Isto é, os clientes de luxo.

A grande expansão da Saks e a remodelação da loja nova-iorquina num estilo arte moderna, que lhe deu o tom de grande armazém ao estilo europeu, aconteceu com Adam Gimbel, sobrinho de Bernard Gimbel e braço-direito de Horace Saks, que toma conta da empresa após a morte prematura deste último, em 1925, aos 43 anos. Depois da sua saída de cena, em 1969, a Saks continuou a crescer e mudou várias vezes de mãos: foi adquirida pela BATUS, comprou vários armazéns na costa oeste e reforça a sua posição nesta zona, torna-se uma empresa cotada em 1996, entra no negócio online em 2000 e em 2013 é comprada pela Hudson’s Bay Company (HBC).

Amazon e Chanel lideram lista de credores

Atualmente, a Saks opera em 70 locais dos EUA, nas mais valiosas localizações imobiliárias, e tem quase 17 mil trabalhadores. Vendeu em dezembro um edifício em Beverly Hills e agora encerra 63 lojas. No dia 23 de fevereiro terá um importante momento do seu calendário: serão ouvidos os credores.

A lista tem entre 10 mil e 25 mil entidades. Entre eles, e à cabeça, empresas como Chanel (136 milhões de dólares), Kering (60 milhões) e LVMH (26 milhões). Os 30 maiores credores somam cerca de 712 milhões, escreveu a Reuters esta semana. Alguns fornecedores são considerados críticos para operação e para estes foi pedida uma autorização, para já, de 337,4 milhões de dólares.

A Amazon, que investiu 475 milhões numa parceria de e-commerce com a Saks, também está na lista de grandes credores. A empresa de Jeff Bezos já manifestou descontentamento com o modelo que está a ser seguido e este fim de semana anunciou que o projeto Saks on Amazon chega ao fim. Esta semana soube-se também que, a par da Chanel, lidera o comité de credores. Podem ter assim uma voz mais sonora na hora de negociar com a Saks.

Será o fim ou o início de um novo ciclo para uma cadeia que marcou os últimos 100 anos?

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