Investimento na defesa poderá criar até 1,2 milhões de empregos na Europa

As vendas da indústria europeia para a região são cerca de 100 mil milhões de euros anuais. Longe dos 335 mil milhões estimados para compra de equipamento até 2030, aponta a McKinsey.

Os 800 mil milhões de euros de investimento europeu na defesa previstos até 2030 têm o potencial de gerar 1,2 milhões de novos empregos na Europa, mas há que agilizar os processos de compra de equipamento, expandir rapidamente a capacidade industrial e enfrentar a escassez de talento agravada pelo envelhecimento demográfico, alerta a McKinsey no relatório “Cutting Europe’s €800 billion Gordian knot: Five catalysts to transform defense“.

A invasão russa da Ucrânia colocou na lista de prioridades dos países membros da União Europeia o investimento no setor de defesa. “Os membros europeus da NATO mudaram fundamentalmente a sua estratégia e estão a assumir um compromisso — sem precedentes desde o fim da Guerra Fria — de fortalecer as suas capacidades de defesa e prontidão para aumentar a dissuasão. Até 2035, comprometeram-se a aumentar os gastos básicos com defesa para 3,5% do PIB — o equivalente a mais de 1 bilião de euros“, aponta o relatório da consultora.

A dimensão do aumento nos gastos com defesa é particularmente impressionante, especialmente quando comparada a outras grandes iniciativas de investimento público. “O aumento nos gastos com defesa nesta década, em comparação com os níveis de 2021, totalizará quase 2,5 biliões de euros — aproximadamente o equivalente ao PIB atual da Itália”, contextualiza a McKinsey.

Mas a Europa parte de uma situação de desvantagem. Estes investimentos surgem após três décadas de orçamentos para defesa curtos, com a McKinsey a falar de um “dividendo da paz” na ordem dos 7 biliões de euros. “Como resultado, as forças militares foram reduzidas, os stocks de equipamentos e munições diminuíram e grande parte do equipamento militar em serviço sofreu desgaste”, aponta.

Estima-se que os gastos em defesa na Europa aumentem dos atuais 2,4% do PIB para 2,9% em 2030, situando o investimento anual em cerca de 800 mil milhões de euros, com um investimento adicional de 165 mil milhões, com potencial para criar até 1,2 milhões de empregos na Europa para dar resposta às necessidades de equipamento militar necessário.

Fonte: “Cutting Europe’s €800 billion Gordian knot: Five catalysts to transform defense”, da McKinsey.

 

Dos 800 mil milhões que se projeta investir até 2030, estima-se que 335 mil milhões de euros sejam destinados para compra de equipamentos e pesquisa e desenvolvimento, com 465 mil milhões para cobrir custos com pessoal, infraestrutura militar, manutenção e operações.

“O crescimento dos gastos com equipamentos é particularmente significativo: prevê-se que seja quase nove vezes maior — quase 300 mil milhões de euros a mais — do que os 37 mil milhões de euros gastos em 2014. Será também 165 mil milhões de euros superior ao de 2025, quase duplicando em apenas cinco anos”, destaca a McKinsey no relatório. Além disso, significa que, “até 2028, a Europa deverá ultrapassar o nível de gastos com equipamentos dos Estados Unidos em 2025”.

Fonte: “Cutting Europe’s €800 billion Gordian knot: Five catalysts to transform defense”, da McKinsey.

 

Mas responder a este aumento da procura dos países europeus, significa que a Europa terá de aumentar significativamente a sua capacidade de resposta do ponto de vista de produção. Atualmente, as vendas da indústria europeia para a região são cerca de 100 mil milhões de euros anuais. Longe dos 335 mil milhões estimados para compra de equipamento até 2030.

“Isso significa que existe uma oportunidade para a indústria europeia expandir a produção em até 235 mil milhões por ano. A alternativa é a Europa compensar essa diferença comprando fora da região. Se a Europa continuar a importar à taxa atual de 40%, isso significa gastar cerca de 130 mil milhões do orçamento de equipamentos no exterior, com 200 mil milhões alocados à produção nacional”, refere a McKinsey.

Militares da Força Nacional Destacada que parte para a Estónia, ao serviço da NATO, cantam o Hino Nacional, durante uma cerimónia de Projeção com o ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo (ausente na imagem). A Força Nacional Destacada envolve a participação de até 46 militares da Força Aérea e 1 avião P-3C, que vão operar a partir da Base Aérea de Ämari, entre 6 de abril e 5 de maio de 2025. Visita a Esquadra 506 e o Simulador do KC- 390, na Base Aérea N.º 11. Beja, 26 de março de 2025. NUNO VEIGA/LUSANUNO VEIGA/LUSA

Os 165 mil milhões de euros adicionais em gastos anuais com equipamentos poderiam criar até 1,2 milhões de novos empregos em toda a Europa: “mais de 0,5 milhão em operações diretas (para além dos 0,6 milhões já empregados no setor da defesa) e mais de outros 0,6 milhões nas cadeias de abastecimento associadas”, elenca o relatório.

Obstáculos ao crescimento

Barreiras estruturais como a fragmentação regulatória, as diferentes prioridades nacionais e os processos de contratação prolongados podem comprometer a capacidade da região em cumprir os seus objetivos.

Há que expandir a capacidade industrial, assegurando resiliência e escalabilidade nas cadeias de abastecimento, agilizar processos de compra de equipamento, reforçar o ecossistema de inovação do setor de defesa, mobilizar capital público e privado e enfrentar a escassez de talento, agravada pelo envelhecimento demográfico, são áreas que a Europa tem de focar para desbloquear os constrangimentos que afetam a indústria.

Só na Polónia, país que lidera as despesas em defesa dos países da NATO face ao PIB, as forças militares devem crescer em centenas de milhares — o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, já referiu a ambição de criar o “exército mais forte da Europa” — com outros países, como a Alemanha, também a planear reforçar os seus quadros de pessoal.

No total, o crescimento militar em toda a Europa poderá ultrapassar um milhão de pessoas (incluindo reservistas). Ao mesmo tempo, atender à procura industrial da expansão da produção de defesa poderia exigir mais 1,2 milhão de trabalhadores em operações diretas e cadeias de fornecimento associadas“, refere o relatório.

No entanto, tal como em outros setores, a defesa “enfrenta desafios relacionados com a queda das taxas de natalidade e dificuldades em preencher funções manuais semiqualificadas (comuns tanto no setor industrial de defesa como no setor industrial não relacionado com a defesa)”, alerta a Mckinsey. “Resolver esta lacuna de mão de obra representa um grande desafio para as ambições de defesa da Europa.”

Acelerar a localização da cadeia de fornecimento de materiais raros é algo onde o continente também se deve focar, recomenda a McKinsey.

“A capacidade da Europa de expandir a produção depende não apenas da força da sua base industrial, mas também da sua capacidade em aceder matérias-primas essenciais e produtos intermediários. Garantir a primeira etapa da produção — incluindo matérias-primas, produtos químicos, energia e terras raras — é um fator indispensável para a capacidade de expansão”, aponta o relatório.

Nesse sentido, o relatório da consultora recomenda que os governos reconstruam a produção nacional de materiais necessários para a produção, como TNT ou outro tipo de explosivos, com salvaguardas ambientais; ou estabelecer grupos de trabalho para fazer o “mapeamento de fornecedores e stocks regionais conjuntos para mitigar vulnerabilidades na primeira etapa da distribuição”.

E as indústrias, “relocalizar a produção para reduzir a vulnerabilidade na cadeia de fornecimento” ou colaborar de forma transversal com outras indústrias para partilhar custos e riscos.

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