Kristin deixa setores dos moldes e componentes sem capacidade para abastecer multinacionais e exportações

Destruição causada pela depressão Kristin deixou empresas na região centro, que têm como clientes grandes multinacionais, com prejuízos avultados e sem capacidade para produzir.

A tempestade Kristin deixou muitas empresas destruídas, ou parcialmente afetadas pelo temporal. Com a produção parada, seja por falta de condições devido ao impacto do mau tempo, ou devido à falta de energia, setores como os moldes e componentes automóveis estão sem capacidade para fornecer grandes multinacionais, para as quais trabalham, ou clientes no exterior.

Manuel Oliveira, secretário-geral da CEFAMOL — Associação Nacional da Indústria de Moldes, reconhece impactos “muito grandes” e “uns milhões largos” de prejuízos para o setor. O representante das empresas de moldes explica que há “muitas limitações”, quer ao nível da energia, quer das telecomunicações, assim como das próprias infraestruturas.

Manuel Oliveira, secretário-geral da associação dos moldes, fala em “dificuldades nas exportações”

“Há uma parte das unidades com problemas ao nível das coberturas, estruturas danificadas no interior e no exterior” e equipamentos altamente tecnológicos em risco, lamenta Manuel Oliveira, acrescentando que, face à elevada procura, há dificuldade para arranjar materiais e equipas de construção.

Segundo explica o secretário-geral da Cefamol, estão a funcionar as empresas que têm geradores e, mesmo essas, com dificuldades. Uma situação que vai atrasar encomendas de um setor que vende 80% da sua produção para o exterior, o que vai causar “dificuldades nas exportações”, assume.

Segundo o mesmo responsável, o setor fornece grandes multinacionais, nomeadamente construtoras automóveis ou empresas da cadeia de valor, que também serão afetadas pelos problemas na região.

Há empresas com problemas para abastecer linhas de produção de clientes na Europa. Alemanha e Espanha são os países que mais vão sofrer.

José Couto

Presidente da AFIA

Outro setor fortemente afetado pela tempestade é o dos componentes automóveis. “Há empresas com problemas para abastecer linhas de produção de clientes na Europa“, reconhece José Couto. Segundo o presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, “Alemanha e Espanha são os países que mais vão sofrer” com os efeitos da depressão Kristin nas empresas de componentes.

“Há casos em que as empresas foram destruídas”, uma situação “grave” que afeta a capacidade da indústria de componentes abastecer quer Tier 1, quer OEM [construtores automóveis]. “Há uma linha de abastecimento que é interrompida“, destaca José Couto, realçando que há cerca de uma dúzia de empresas “com paragens mais significativas” e prejuízos elevados.

Numa segunda linha, José Couto fala em empresas destruídas parcialmente, com paredes destruídas, e que enfrentam problemas adicionais, como falta de energia. O presidente da AFIA nota que, no primeiro caso, vai demorar a reconstruir as unidades, enquanto o segundo grupo, que integra cerca de 20 empresas, enfrenta “prejuízos significativos e paragem de produção“.

José Couto explica que esta é a primeira avaliação da situação e que ainda não foi possível falar com todos os associados, devido aos problemas nas comunicações. Apesar de reconhecer os esforços do Governo, que criou uma estrutura de missão para a Recuperação das Zonas Afetadas e das linhas de apoio às empresas, para ajudar a resolver mais rapidamente o problema, o presidente da AFIA fala numa situação “muita complexa”, em que os próprios trabalhadores das empresas têm de resolver os problemas nas próprias casas.

O setor do vidro, com forte implantação na região, também quantificou em milhões de euros os prejuízos para o setor, que aos custos da reconstrução das fábricas danificadas soma as exportações perdidas devido à depressão Kristin.

“Os prejuízos vão ser de milhões”, disse o presidente da Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem (AIVE), Tiago Moreira da Silva, citado pela Lusa. De acordo com este responsável, em causa estão os custos da reconstrução “das infraestruturas, principalmente a infraestrutura de cobertura, a infraestrutura de filtros, a infraestrutura de armazéns”, mas, também, “as exportações perdidas”.

Com fornecedores na região, a gigante Autoeuropa garante que, para já, esta situação não teve impacto na produção. “A Volkswagen Autoeuropa conta com fornecedores na região centro que foram afetados pela tempestade Kristin“, adiantou fonte oficial da Autoeuropa, em respostas ao ECO, sobre o impacto da tempestade.

A gigante do grupo Volkswagen afiança que “estas ocorrências não tiveram impacto na produção“, contudo adianta que está a “colaborar de forma estreita com todos os fornecedores afetados para garantir a continuidade das operações“.

Associações querem celeridade e apoios a fundo perdido

As associações empresariais das regiões de Santarém, Leiria e Coimbra consideram que as medidas avançadas pelo Governo para ajudar na recuperação das empresas atingidas pela depressão Kristin são positivas, mas alertam para a falta de apoios a fundo perdido.

AIP – Associação Industrial Portuguesa, NERLEI – Associação Empresarial da Região de Leiria, NERSANT – Associação Empresarial da Região de Santarém e NERC – Associação Empresarial da Região de Coimbra, estiveram reunidas para avaliar a situação das empresas da região.

Desta reunião saiu um conjunto de propostas de “medidas prioritárias, que foram já apresentadas ao Ministério da Economia, destacando-se o alargamento das subvenções até 10.000€, atualmente previstas para a agricultura e floresta, a outros setores, para microempresas, bem como a ativação do Sistema de Reposição de Capacidades Produtivas ao abrigo do Decreto-Lei n.º 4/2023, com apoios não reembolsáveis para as empresas mais afetadas. Foi ainda defendida a aceleração do acesso a linhas de crédito, utilizando instrumentos já existentes, a reprogramação dos contratos de incentivos em vigor e a agilização de pagamentos, reembolsos e adiantamentos no âmbito do PRR e do Portugal 2030″, destaca a AIP, em comunicado.

“A situação de calamidade afeta uma região com um tecido empresarial forte e com elevada vocação exportadora, o que reforça a necessidade de uma resposta eficaz e bem calibrada”, reconhece a AEP em comunicado.

“O país deve responder a situações excecionais com medidas de caráter igualmente excecional. Essa tem sido sempre a posição da AEP, quer durante a pandemia por Covid-19, quer em anteriores situações de calamidade, como os grandes incêndios florestais”, afirma Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP, citado em comunicado.

O que é verdadeiramente crítico é garantir uma ação célere. As empresas precisam de respostas rápidas para reparar danos, retomar a atividade e evitar prejuízos adicionais que possam comprometer a sua viabilidade.

Luís Miguel Ribeiro

Presidente do conselho de administração da AEP

No mesmo comunicado, a AEP defende que é “muito relevante, à semelhança do que aconteceu no período da pandemia por Covid-19, assegurar que estes instrumentos de financiamento considerem a componente de reforço da capitalização das empresas, devendo, por isso, o Banco Português de Fomento ser parte ativa deste processo”.

A associação diz que a prioridade deve ser a rapidez de execução. “O que é verdadeiramente crítico é garantir uma ação célere. As empresas precisam de respostas rápidas para reparar danos, retomar a atividade e evitar prejuízos adicionais que possam comprometer a sua viabilidade”, destaca o presidente da AEP.

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