Custos da depressão Kristin vão superar os quatro mil milhões de euros
Castro Almeida reconheceu que "as palavras não foram felizes" quando disse que vítimas da catástrofe tinham de sobreviver com salário de janeiro enquanto aguardavam pelos apoios.
O ministro da Economia e da Coesão Territorial revelou que uma estimativa “muito preliminar” aponta para que os custos dos estragos provocados pela depressão Kristin ultrapassem os quatro mil milhões de euros.
“Numa estimativa muito preliminar tudo aponta que os custos vão superar os quatro mil milhões de euros“, disse Castro Almeida em entrevista à RTP, o dobro do montante que tinha avançado, há dois dias em entrevista na SIC Notícias.
Esta estimativa, acrescenta Castro Almeida, nem sequer tem em conta os custos indiretos.
“Uma empresa em Leiria que fabrica peças que entram na cadeia de produção de outra empresa que está em Bragança ou em Évora, que nada tem a ver com a zona da tempestade, mas vai afetar a capacidade de produção da outra fábrica”, exemplificou.
“Do ponto de vista da economia vai ser um abalo muito relevante”, assegurou, reconhecendo que o impacto ao nível das exportações “é inevitável”, embora destaque a vontade dos empresário de ultrapassarem mais esta adversidade e não falharem a entrega de encomendas para não correrem o risco de serem substituídos por outros fornecedores.
Ainda assim, “algumas fábricas vão demorar meses a reconstruir, há empresário que vão fazer fábricas completamente novas, os atuais estão completamente inutilizados, por isso muita gente vai ficar sem trabalho, não vão ficar sem rendimento porque vamos ter o regime de layoff simplificado, que vai garantir aos trabalhadores que vão suspender o seu contrato de trabalho porque as empresas ficam sem condições de trabalhar, mas vão receber uma remuneração mensal líquida igual à que recebiam quando trabalhavam”, garantiu o ministro da Economia.
“A ideia é que não percam o salário líquido, o que entra na conta dos trabalhadores vai ser o mesmo, até ao limite de três salários mínimos, ou seja, 2.760 euros“, assegurou, tentando tranquilizar os trabalhadores afetados pela calamidade que assolou cerca de 70 concelhos, sobretudo na zona centro do país. O salário será pago 80% pela Segurança Social e 20% pelas empresas, explicou, acrescentando que este é um regime semelhante ao que vigorou durante a pandemia.
O responsável reconheceu que as suas palavras, há dois dias, quando aconselhou as vítimas da depressão Kristin a usar o ordenado de janeiro para as primeiras necessidades até que cheguem os apoios do Estado, foram “infelizes” e pediu “a compreensão das pessoas” porque “é preciso tempo para operacionalizar este novo tipo de apoio, que deverá chegar antes do fim de fevereiro”.
As empresas, por sua vez, vão poder financiar-se para superar esta dificuldade, recordou Castro Almeida, numa referência às linhas lançadas esta quarta-feira: 500 milhões de euros para tesouraria — “que se tiver de ser será aumentada” — e mil milhões de euros para investimento e repor a sua atividade, sendo que neste caso é possível converter 10% em apoios a fundo perdido desde que as empresas, ao fim dos três anos de período de carência mantenham o nível de atividade da empresa assim como o número de postos de trabalho.
“Já temos 245 empresas que requerem apoios num valor de 70 milhões de euros, no primeiro dia. Tenho a certeza que nos próximos dias virá muito mais”, disse Castro Almeida. A resposta a estes pedidos “é suposto ser muito rápida, mas a análise é feita pelos bancos”, acrescenta.
O ministro da Economia recordou que o grosso dos custos será suportado pelas seguradoras, “porque o seguro é obrigatório”. “As empresas que colocam a tempestade fora do objeto seguro fazem muito mal”, diz, reiterando, mais uma vez, que o facto de Governo ter declarado situação de calamidade naqueles concelhos que “não pode ser invocado pelas companhias de seguros como cláusula de exclusão: está na lei e está na Resolução do Conselho de Ministros”.
No que diz respeito aos apoios à reconstrução das casas, a partir de quinta-feira as pessoas podem ir à plataforma do Governo (gov.pt) ou da CCDR Centro ou CCDR de Lisboa fazer a candidatura a este apoio de dez mil euros a fundo perdido. Castro Almeida reconhece que o valor pode ser baixo, mas parte do princípio que as pessoas têm seguros. Além deste montante, será também possível recorrer a empréstimos do IFRRU.
O ministro disse estar mais preocupado com a falta de mão-de-obra do que com a falta de materiais, sendo que “já houve especulação de preços na região de Leiria”, revelou, assegurando que “isso vai resolver-se muito rapidamente”. “À escala europeia não faltam telha nem telas, a curto prazo vão chegar e a oferta e procura vão funcionar e os preços vão ficar relativamente estabilizados”, disse.
Castro Almeida diz que falou com as empresas que podem libertar muitos recursos nesta área e assegurou que “estão totalmente sensibilizados”. Além disso, a Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas está disponível para fazer recrutamento de mão-de-obra no exterior, disse o ministro, com aquelas condições mais rápidas desde que as pessoas tenham garantia de emprego e alojamento.
Reprogramação PRR vai reforçar IFIC e garantir comunicações geradores às freguesias
Quanto ao impacto do comboio de depressões nas obras financiadas pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), Castro Almeida foi claro: “É óbvio que vai haver atrasos”. “Já estávamos a trabalhar em cima dos prazos, agora há obras que pararam e há obras que ficaram destruídas”, acrescentou. Sem querer “entrar em tecnicidades de como vão fazer”, Castro Almeida disse que “todas as obras que estavam financiadas no PRR vão ser concluídas, mesmo que depois do prazo normal estabelecido pelo PRR”. “E não vamos perder nem um euro das subvenções do PRR”, acrescentou numa frase que já se tornou um mantra. “Esta é a garantia que posso dar ao país”, concluiu.
“Estamos a conversar com a Comissão Europeia e vamos ter de ser criativos porque situações extraordinárias obrigam a respostas extraordinárias”, garantiu. Casto Almeida revelou que vão ter de fazer “algumas reorientações de prioridades no PRR — não vamos inventar linhas novas, mas podemos afetar alguns recursos nomeadamente para resolver os problemas enfrentados nesta crise”, disse dando como exemplo as grandes dificuldades de comunicação que se sentiram na região. “Vamos reorientar o PRR, os fundos europeus, no sentido de dotar as freguesias de equipamentos de comunicação, por via do Siresp”, revelou. “Por via rádio com recurso ao Siresp ou por via de transmissão por satélite a ideia é que em cada freguesia haja capacidade de contacto”, precisou.
E para não ficarem às escuras, por via de baterias ou de geradores cada freguesia vai ter capacidade para ter, ao menos num sítio, onde possam ter eletricidade para ter televisão ou carregar o telemóvel. “Detetámos os problemas e esta é uma oportunidade de os resolver”, frisou.
Já para as empresas afeadas pela calamidade, serão abertos novos concursos, no âmbito do Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade (IFIC), operacionalizado pelo Banco de Fomento, “onde será dada prioridade às empresas afetadas pela depressão”. “O IFIC vai ter mais dinheiro” — além dos 933 milhões de euros atuais — “e um novo concurso”.
(Notícia atualizada com mais informações)
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