Banca elogia incentivos do Governo mas pede mais casas no mercado para resolver crise na habitação

Líderes do setor bancário veem mérito nos incentivos para os jovens que procuram casa, mas apontam entraves na oferta e pedem uma estratégia clara sobre onde e o que construir para aliviar o mercado.

A crise na habitação continua a assolar milhares de famílias que procuram ter casa. A subida de 40% do preço da habitação nos últimos três anos enquanto os salários ficaram-se por um aumento de 15% não ajuda a tornar o ambiente mais ameno.

Foi nesse sentido que o Governo desenhou um conjunto de medidas no âmbito do programa “Construir Portugal”, onde entre muitas se destaca a garantia pública aos jovens até aos 35 anos e a isenção de IMT e Imposto de Selo para a compra de imóveis para primeira habitação até um determinado valor.

Porém, são muitas as vozes que se têm levantado alertando para que estas medidas até podem ajudar uma franja da população, mas estão muito longe de serem a solução para a crise habitacional que em 2025 voltou a agravar-se.

Se alguém pensou que estas medidas do Governo [de apoio aos jovens] iam resolver o problema da habitação em Portugal, estava completamente equivocado.

Miguel Maya

CEO do Millennium BCP

É o caso de Miguel Maya, CEO do Millennium BCP, que esta quinta-feira defendeu que as medidas do Governo, em particular o apoio ao crédito jovem (garantia pública) e a isenção de IMT e imposto de selo, não vão dar resposta à crise na habitação que se vive atualmente em Portugal.

Apesar de admitir ter uma opinião favorável sobre estas iniciativas, o banqueiro afirmou que “se alguém pensou que estas medidas do Governo [de apoio aos jovens] iam resolver o problema da habitação em Portugal, estava completamente equivocado”.

No decorrer de um painel de debate da conferência do Observatório do Imobiliário, promovida pela Century 21, Miguel Maya destacou que o objetivo destas medidas passa por garantir que um “conjunto de pessoas que não tinha acesso à habitação” passe a tê-lo, sublinhando que os jovens ficaram automaticamente excluídos da necessidade de “poupar e permanecer em casa dos pais por um período mais alargado” para conseguirem reunir os 10% do valor de entrada exigido na compra de casa.

Além disso, o líder do BCP chamou a atenção para um “desajustamento entre a oferta e a procura” de habitação, acrescentando que uma das soluções, além da subida dos salários, poderá passar pela melhoria da mobilidade das pessoas.

Apesar de essa solução implicar viver mais longe dos centros urbanos e dos locais de trabalho, o banqueiro considerou que tal poderia ser compensado com melhores transportes e acessos, permitindo que os tempos de deslocação se mantivessem relativamente curtos. O gestor clarificou ainda que o problema da crise habitacional “já não se resolve com planos e palavras, mas com ação”.

Banca aponta para mudanças estruturais para combater a crise na habitação

Miguel Belo de Carvalho, administrador do banco Santander, participou também no debate, notando o impacto das medidas de incentivo fiscal no acesso dos jovens ao crédito à habitação. Segundo o responsável, antes da entrada em vigor dessas medidas, cerca de 35% dos clientes com crédito à habitação tinham menos de 35 anos, percentagem que subiu para cerca de 50% após a sua implementação.

“Desde que estas medidas foram lançadas, tivemos cerca de 30 mil jovens no Banco Santander com acesso a este tipo de financiamento”, revelou. Apesar disso, o gestor alertou para as dificuldades estruturais que persistem no mercado habitacional.

Ao comparar os preços das casas em Portugal com os rendimentos dos jovens, face à média europeia, Miguel Belo de Carvalho afirmou que o país encontra-se mal posicionado no ranking. “A acessibilidade para os jovens continua a ser dramática. A solução passa claramente por rever as medidas do lado da oferta”, sublinhou.

O interesse dos jovens em recorrer à garantia pública é maior do que o esperado.

Luís Pereira Coutinho

Administrador da Caixa Geral de Depósitos

O administrador do BPI, Diogo Louro, apontou também várias falhas que, no seu entender, precisam de ser resolvidas com urgência para dar resposta à escassez de habitação. Para o responsável, é necessário rever os processos de licenciamento e a burocracia associada à construção de imóveis, bem como avançar com a digitalização dos licenciamentos.

Diogo Louro alertou ainda para o facto de o Estado “ter uma enorme quantidade de imóveis e terrenos” e defendeu que é fundamental pensar que forma esse património pode ser colocado ao dispor da oferta habitacional.

Luís Pereira Coutinho, administrador da Caixa Geral de Depósitos, garantiu que a medida da garantia pública “está a correr bem”, sublinhando que “o interesse dos jovens em recorrer à garantia pública é maior do que o esperado”. Ainda assim, o responsável defendeu que existem vários pilares que precisam de ser analisados com atenção.

O ex-CEO do Banco CTT afirmou que continua sem perceber qual é a estratégia definida para resolver o problema da oferta habitacional. “É preciso saber onde construir, em que cidades, casas de que dimensão e quais as medidas concretas necessário implementar. É preciso saber o que se quer”, frisou.

O executivo apontou ainda um outro pilar relacionado com as condições do mercado de arrendamento. Enquanto persistirem questões jurídicas, dificuldades e limitações na gestão dos contratos, nomeadamente sobre pagamentos, despejos ou o regime das rendas, incluindo a possibilidade de tabelamento, Luís Pereira Coutinho alertou que muitos proprietários optam por não colocar os imóveis no mercado. “Quem tem casas acaba por se retrair, por receio do que possa acontecer”, explicou, defendendo a necessidade de mais oferta de arrendamento e de um mercado mais fluido.

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