Grandes empresas europeias preparam retoma do investimento na Zona Euro

A economia europeia dá sinais de retoma, mas o emprego preocupa. A aposta na inteligência artificial e a concorrência da China levam as empresas a cortar custos e a travar salários este ano e em 2027.

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  • A economia da Zona Euro apresenta sinais de recuperação, embora ainda distante de um crescimento robusto, com menos pessimismo nas empresas.
  • Os contactos com 79 empresas revelam que o setor de serviços continua a impulsionar a atividade, enquanto a indústria enfrenta desafios.
  • As perspetivas de emprego permanecem pouco animadoras, com cortes significativos no setor industrial, que podem resultar numa recuperação menos intensiva em emprego, especialmente em Portugal.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

O arranque de 2026 está a ser feito de sinais pequenos na economia europeia, mas consistentes. Nas conversas mais recentes do BCE com grandes empresas não financeiras do espaço do euro, o pulso da economia parece ganhar algum ritmo, ainda que ainda longe de um “boom”, mas com menos pessimismo do que há poucos meses.

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Estas conclusões resultam de contactos do BCE junto de representantes de 79 empresas líderes da Zona Euro, realizados entre 5 e 14 de janeiro de 2026, de acordo com um comunicado publicado esta sexta-feira.

A mensagem de fundo é de “momentum” a subir, com os serviços a continuarem a puxar pela atividade e a indústria a dar sinais mistos. Para um país como Portugal, onde o turismo e vários serviços transacionáveis têm sido âncora do crescimento, este padrão é relevante: se a procura externa não falhar, o setor terciário tende a amortecer melhor as oscilações do ciclo industrial.

O ciclo de investimento, tipicamente o mais sensível a incerteza e custo de capital, pode estar a sair da fase de “adiamento” para uma fase de seleção de projetos com retorno mais claro.

O ponto mais encorajador, segundo os contactos feitos pelo BCE junto do tecido empresarial, é que a perspetiva para o investimento está a melhorar gradualmente. A autoridade monetária liderada por Christine Lagarde refere sinais de “melhoria em carteiras de encomendas de fabricantes de máquinas e equipamentos (ligados, por exemplo, à eletrificação, centros de dados, energia e defesa)” e ainda uma “procura forte por investimento em cloud, cibersegurança e projetos relacionados com a inteligência artificial.”

Estes dados sugerem que o ciclo de investimento, tipicamente o mais sensível a incerteza e custo de capital, pode estar a sair da fase de “adiamento” para uma fase de seleção de projetos com retorno mais claro. Ainda assim, o BCE nota que há investimento associado a infraestrutura pública na Alemanha que só deverá ganhar tração a sério mais tarde, já no fim de 2026 ou em 2027, o que aponta para um impulso mais lento do que muitos gostariam, condicionando assim a economia da Zona Euro.

No comércio externo, o quadro é mais ambivalente. Os dados apresentados pelo BCE apontam para uma resiliência do comércio global às tarifas dos EUA até agora, mas a balança líquida da área do euro está a ser prejudicada por desvio de comércio, que “nublou” um pouco as perspetivas.

“De acordo com contactos na indústria naval, o crescimento do comércio global parecia não ter sido afetado pelo aumento das tarifas dos EUA, mas houve mudanças rápidas e significativas nos fluxos comerciais”, lê-se no comunicado. O documento descreve mudanças rápidas nos fluxos, com forte crescimento de importações para a área do euro (especialmente da China) e exportações europeias a ficarem planas ou a contrair nos últimos meses, com várias empresas a reportarem perda de quota para concorrentes chineses.

No mercado laboral, as “perspetivas continuam pouco animadoras”, refere o BCE, argumentando com um contexto de corte de custos e mais otimização de processos com recurso a inteligência artificial.

O BCE aponta para cortes significativos em empresas ligadas ao setor industrial (particularmente no segmento dos químicos e automóvel) “devido à fraca procura, aos custos elevados e à intensificação da concorrência das importações”, mas também como consequência da integração da inteligência artificial permitir às empresas crescer sem contratar, com impacto particular em algumas funções de ‘colarinho branco’ e até na área da investigação e desenvolvimento (I&D).

A pressão de preços continua mais associada aos serviços, enquanto no retalho não alimentar e na indústria muitos empresários descrevem preços “sob pressão”, com salários e regulação a puxarem os custos para cima.

Para Portugal, isto pode traduzir-se numa recuperação menos “intensiva em emprego” do que no passado, sobretudo nas empresas mais expostas à concorrência internacional ou a processos de automatização. Ao mesmo tempo, o relatório lembra que em serviços de consumo, como hotelaria e viagens aéreas, há casos de emprego a subir com a procura, o que é uma diferença importante dentro do próprio setor dos serviços.

Nos preços, a conclusão é de continuidade, “com as tendências recentes amplamente previstas para persistirem no curto prazo”. Segundo os dados recolhidos pelo BCE, os empresários antecipam que a pressão dos preços continua mais associada a serviços, enquanto no retalho não alimentar e na indústria muitos contactos descrevem preços “sob pressão”, com salários e regulação a puxarem os custos para cima, mas a concorrência das importações a empurrar os preços e as margens para baixo.

Os próximos meses mostraraõ se esta combinação de investimento a melhorar, comércio externo mais turvo e emprego contido acabará por produzir um crescimento “morno”, mas mais estável, ou se a competição externa volta a apertar margens e a travar decisões de expansão.

Um dado complementar do mesmo exercício do BCE é que os contactos junto das empresas continuam a antecipar uma moderação do crescimento salarial (3,2% em 2025 para 2,7% em 2026 e 2,5% em 2027), o que, a confirmar-se, tenderá a aliviar parte da pressão de custos, mas também pode limitar o combustível do consumo, num momento em que a confiança ainda não está totalmente recomposta.

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