Nem um, nem dois. Apagões multiplicaram-se em 2025 e tempestades estão entre os culpados

A Agência Internacional de Energia deu "uma volta ao mundo" no relatório Eletricidade 2026, para apontar vários apagões que aconteceram no ano passado. Conheça-os e às suas causas.

À medida que a Era da Eletricidade evolui, com taxas de eletrificação em crescimento contínuo e um aumento da procura de eletricidade, os apagões podem afetar uma parte significativa das economias e da vida social”, lê-se no capítulo dedicado à Fiabilidade, escrito pela Agência Internacional de Energia, no âmbito do relatório Eletricidade 2026, lançado esta sexta-feira.

A agência aponta que falhas operacionais, erros técnicos ou eventos climáticos “ilustram a importância da redundância, da resiliência e de uma supervisão rigorosa”, numa semana em que, em Portugal, a tempestade Kristin recordou as fragilidades da rede elétrica, e deixou mais de um milhão de pessoas sem luz, quase 100 mil durante pelo menos sete dias. A previsão é que 2% dos afetados só voltem a ter eletricidade mais de um mês depois da tempestade.

A AIE, que faz um levantamento de algumas das grandes quebras de eletricidade que decorreram em 2025, sublinha como “a garantia da segurança, fiabilidade e resiliência dos sistemas elétricos está a evoluir de um desafio técnico para uma necessidade estratégica”. Neste sentido, entende que estas questões exigem “atenção constante” por parte dos operadores de sistema, reguladores e decisores políticos.

Conheça aqui as interrupções de eletricidade que ocorreram em 2025 e que a agência destaca no relatório.

Tensão na Ibéria e Macedónia ‘explode’ e dá azo a apagões

O apagão ibérico inaugura a lista dos eventos alarmantes para o sistema elétrico em 2025. Foi “o maior ocorrido na Europa desde o apagão da Península Italiana em 2003”, indica a AIE. É relatado que, na meia hora que antecedeu o incidente, os operadores de sistema português e espanhol aplicaram uma série de medidas de mitigação, face a algumas oscilações detetadas. Embora tenham sido eficazes a amortecer as oscilações, aumentaram a tensão no sistema elétrico ibérico.

A sobretensão desencadeou uma reação em cadeia de perdas de geração e um declínio da frequência do sistema elétrico, pelo que não demorou muito até a Península Ibérica ficar “completamente dessincronizada do sistema elétrico europeu”. “O colapso do sistema ocorreu em poucos segundos, mergulhando a Península Ibérica num apagão provocado por sobretensão”, pontua a agência.

Em Portugal, o acesso à eletricidade caiu em todo o território nacional pelas 11h33 da manhã e só às 3 horas da madrugada é que foi concluída a reposição do funcionamento em todo o país, ou seja, 15 horas e meia depois. Do ponto de vista da Agência Internacional de Energia, este incidente sublinha “a importância dos objetivos da UE em matéria de interconexões elétricas”.

Nem um mês tinha passado do apagão ibérico quando, a 18 de maio, uma falha na rede provocou um apagão parcial na Macedónia do Norte. Vários transformadores desligaram-se devido a sobretensão, enfraquecendo o sistema e levando à separação das redes de transporte do país. Embora o sistema elétrico europeu continental não tenha sido afetado, a área de controlo da Bulgária ativou um estado de alerta durante oito horas. O baixo consumo de eletricidade e o trânsito transfronteiriço foram identificados como a causa provável dos níveis elevados de tensão na rede.

Grandes interrupções por falhas de equipamentos

No final de fevereiro de 2025, “o Chile foi atingido pelo seu pior apagão dos últimos 15 anos”, escreve a AIE. Uma falha no sistema de proteção levou ao encerramento inesperado da principal linha de transporte norte-sul, o que provocou desconexões subsequentes e a separação das zonas norte e sul do sistema. Este incidente mergulhou 14 das 16 regiões do Chile na escuridão, representando cerca de 98% da população, e causou perdas económicas estimadas em 450 milhões de dólares. Cerca de metade do país recuperou o acesso à eletricidade nessa mesma noite, e o sistema regressou à normalidade por volta das 9h da manhã seguinte.

Praticamente um mês depois, em março, o Aeroporto de Heathrow, em Londres, ficou às escuras e teve de encerrar operações durante um dia inteiro. Mais de 300 mil passageiros e 1.350 voos foram afetados, depois de um transformador numa subestação elétrica adjacente se ter incendiado, muito provavelmente devido à entrada de humidade. Em outubro, também um incêndio numa subestação elétrica afetou mais de um milhão de clientes, no sul do Brasil.

Cuba também tem sido bastante castigada com as interrupções de eletricidade. Sofreu dois grandes apagões em 2025, somando-se à série de três apagões nacionais ocorridos no segundo semestre de 2024. A 14 de março, uma avaria numa subestação perto da capital propagou-se e resultou num apagão em toda a ilha, afetando cerca de dez milhões de habitantes. O segundo apagão em massa ocorreu seis meses depois, a 10 de setembro, e esteve relacionado com uma avaria numa central termoelétrica, segundo o Ministério da Energia e Minas.

Em maio, na Indonésia, uma interrupção nos cabos submarinos que ligam a rede de Bali ao sistema elétrico da ilha de Java ditou que mais de 940 mil residentes ficassem sem eletricidade. Na Chéquia, em julho, a queda de um condutor de fase fez com que várias linhas de transporte se desligassem automaticamente. A 26 de setembro, foi no México que mais de dois milhões de clientes ficaram sem luz, na sequência de trabalhos de manutenção nas linhas, que desligaram várias unidades de produção.

Eventos meteorológicos extremos também arrasam a luz

Nos Estados Unidos, grandes apagões relacionados com condições meteorológicas começaram logo no início do ano. Sete estados foram afetados por falhas generalizadas no fornecimento de eletricidade a 6 de janeiro de 2025, com a tempestade de inverno Blair a deixar mais de 300 mil pessoas sem aquecimento ou eletricidade. Em Los Angeles, a partir de 7 de janeiro, uma forte tempestade de vento mas também incêndios de grande dimensão deixaram mais de 200 mil habitações e empresas sem eletricidade. De novo em março, registaram-se falhas generalizadas de eletricidade em mais de 20 estados, afetando 500 mil casas e empresas. Em abril, foi na Pensilvânia que ventos severos afetaram mais de 450 mil consumidores, depois de derrubarem árvores e postes elétricos.

Deste lado do Oceano, o destaque em termos de cortes provocados por temporais vai para a Irlanda. A tempestade Éowyn, em janeiro, causou danos “sem precedentes” na infraestrutura elétrica, descreve a AIE, para depois esclarecer que teriam de ser repostos mais de três mil postes elétricos no país e cerca de 900 quilómetros de cabos. Mais de 768 mil clientes foram afetados e cerca de 39 mil pessoas em comunidades remotas permaneceram sem eletricidade durante uma semana.

Avançando para leste, a Austrália foi fustigada pelo ciclone Alfred, em março. Novamente, interrompeu o acesso à eletricidade a centenas de milhares. O furacão Melissa teve o mesmo efeito em outubro, na Jamaica, já depois de o Super Tufão Ragasa, que em setembro passou pelas Filipinas e depois pela China, ter causado danos significativos em infraestruturas críticas. Hospitais, instalações de abastecimento de água e estações de telecomunicações tiveram de recorrer a geradores de emergência para manter serviços essenciais.

As temperaturas invulgarmente elevadas, próximas dos 50 graus centígrados, que assolaram o Iraque em agosto, levaram ao encerramento de duas linhas de transporte, resultando num apagão nacional. “Este incidente demonstra o dilema de manter operações estáveis do sistema face às pressões simultâneas do aumento das temperaturas e do crescimento da procura por parte dos consumidores”, afirma a AIE.

Eletrificação continua, mas tem de ser acompanhada de soluções

O novo relatório da AIE conclui que a procura global por eletricidade deverá crescer, em média, mais de 3,5% por ano ao longo do resto desta década, impulsionada pelo aumento do consumo da indústria, dos veículos elétricos, do ar condicionado e dos centros de dados. Esta subida na procura deverá ser acompanhada pela expansão da produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, gás natural e energia nuclear, de modo a satisfazer esse aumento.

Contudo, e face aos dissabores em termos de apagões, há que prevenir as falhas. A AIE considera “essencial” o reforço da proteção física das infraestruturas críticas e a implementação de sistemas avançados de monitorização e deteção precoce das ameaças. Além de de redes elétricas robustas, sublinha a importância de cadeias de abastecimento resilientes e recursos diversificados de flexibilidade e quadros operacionais modernizados, incluindo requisitos de reserva “mais refinados”.

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