Do Reino Unido à Eslováquia, ficheiros Epstein provocam demissões e deixam governos sob fogo na Europa
O britânico Peter Mandelson é o caso mais polémico da série de demissões que está a surgir na sequência dos novos documentos relacionados com o falecido magnata e agressor sexual nova-iorquino.
- A recente divulgação de documentos de Jeffrey Epstein revela ligações entre figuras da elite europeia, incluindo políticos e membros da realeza, gerando controvérsias e demissões.
- Peter Mandelson e Miroslav Lajčák são dois políticos que enfrentaram consequências diretas, com Mandelson a renunciar ao Partido Trabalhista e Lajčák a demitir-se para evitar custos políticos ao primeiro-ministro eslovaco.
- As revelações sobre contactos com Epstein provocam um escrutínio crescente sobre a conduta de figuras públicas, levando a pedidos de desculpas e exigências de mais esclarecimentos sobre os seus envolvimentos.
Políticos, multimilionários e membros das famílias reais. São vários os nomes da elite europeia que surgem referidos na mais recente “leva” de documentos do arquivo de Jeffrey Epstein, figura influente da alta sociedade de Nova Iorque que foi encontrado morto na prisão em 2019, antes de ser julgado por exploração sexual de menores.
Embora não seja a primeira vez que algumas destas pessoas são associadas a Epstein, nem a sua presença nos ficheiros seja necessariamente prova de qualquer ilegalidade ou crime, já há consequências – incluindo demissões. O ECO reúne, neste artigo, os principais nomes referidos nos cerca de 3,5 milhões de documentos.
Peter Mandelson, ex-ministro e embaixador britânico
Provavelmente o caso mais polémico, deixando sob fogo o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, é o de Peter Mandelson, político britânico que integrou os executivos de Gordon Brown e Tony Blair.
No passado domingo, Mandelson anunciou a sua desfiliação do Partido Trabalhista após as novas revelações, dizendo que não queria causar “mais constrangimento” ao Labour.
A renúncia acontece depois de, no ano passado, ter sido afastado por Keir Starmer do cargo de embaixador da Grã-Bretanha nos EUA, devido a documentos anteriores que mencionavam a amizade que o político de 72 anos manteve com o gestor de fortunas nova-iorquino, incluindo uma carta em que se referia a Epstein como o seu “melhor amigo”.
“Fui novamente associado este fim de semana ao alvoroço compreensível em torno de Jeffrey Epstein e sinto-me arrependido e triste por isso“, afirmou Peter Mandelson numa carta dirigida ao Partido Trabalhista, que foi partilhada com os meios de comunicação social britânicos.

Mandelson disse que as alegações sobre pagamentos que teria recebido de Epstein, noticiadas pelos media com base nos arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano, eram falsas e afirmou que iria investigá-las.
Em causa está uma transferência, entre 2003 e 2004, de cerca de 75 mil dólares (cerca de 63 mil euros) feita pelo magnata norte-americano ao ex-ministro britânico, repartida em três transações de 25 mil dólares (21 mil euros).
Nos mais recentes documentos do caso Epstein, constam ainda e-mails trocados entre o magnata e o ex-membro da Câmara dos Lordes. Num deles, enviado em junho de 2009, Peter Mandelson pedia a Epstein para ficar hospedado numa das suas propriedades. Noutro, referiu-se ao gestor de fortunas como o seu “principal conselheiro de vida”.
Uma outra mensagem, datada de dezembro do mesmo ano, revela que o ex-ministro britânico terá tentado alterar uma proposta do governo da altura, relativamente a um imposto sobre bónus a banqueiros, a pedido de Epstein. À época, Mandelson assumia o cargo de secretário de Estado do ministro das Finanças Gordon Brown.
Ambos os e-mails foram enviados após Jeffrey Epstein ter sido detido em 2008 por crime de prostituição de menores. Ao todo, o nome de Mandelson é referido mais de 5.000 vezes nos documentos publicados no site do Departamento de Justiça dos EUA.
Note-se ainda que Peter Mandelson foi comissário europeu para o Comércio entre 2004 e 2008 e, entre as mensagens trocadas com Epstein, está uma em que terá adiantado o resgate que a União Europeia estava a preparar para salvar vários países, entre os quais Portugal, na crise da dívida soberana.
A porta-voz principal do Executivo comunitário, Paula Pinho, disse, na última segunda-feira, que durante o mandato em Bruxelas “não foi encontrado nada” nas mais recentes correspondências divulgadas pelos Estados Unidos.
Miroslav Lajčák, ex-conselheiro de segurança nacional da Eslováquia
Outra baixa de relevo que os novos documentos do caso Epstein fizeram na política europeia foi Miroslav Lajčák, que servia como conselheiro de segurança nacional do atual primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico.
Uma troca de mensagens que data de outubro de 2018 – altura em que era ministro dos Negócios Estrangeiros da Eslováquia, após ter servido como presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas – mostra Miroslav Lajčák e o magnata nova-iorquino a falar sobre mulheres jovens.
Epstein partilhou uma foto que não está visível nos arquivos divulgados, à qual o político eslovaco respondeu: “Porque não me convidas para esses jogos? Eu ficaria com a rapariga ‘MI'”.
“Quem não gostaria? Pode ficar com as duas, não sou possessivo. E com as irmãs delas também”, afirmou, por seu lado, o norte-americano.
Ainda que Lajčák tenha descrito esta troca de e-mails como informal e descontraída, sem qualquer substância real, além de ter negado qualquer irregularidade e condenado os crimes perpetrados por Epstein, disse que apresentaria a sua demissão para que a situação não fosse usada para atacar o primeiro-ministro: “Não por ter feito algo criminoso ou antiético nas minhas ações, mas porque não quero que ele [Robert Fico] arque com os custos políticos por algo que não está relacionado com as suas decisões”.
A saída de Lajčák do Governo eslovaco foi anunciada pelo primeiro-ministro no sábado, através de um vídeo partilhado na rede social Facebook. A Eslováquia perde “uma fonte incrível de experiência em diplomacia e política externa”, afirmou Robert Fico.
Andrew Mountbatten Windsor e Sarah Ferguson, ex-membros da família real britânica

Os laços de Andrew Mountbatten Windsor, outrora o príncipe André da família real britânica, com Jeffrey Epstein já eram conhecidos. Mas os novos documentos voltam a mencionar o irmão mais novo do Rei Carlos III, incluindo, desta vez, uma fotografia que parece mostrar Andrew agachado sobre uma mulher deitada no chão. O rosto da mulher, deitada de costas no chão, está ocultado. Numa das imagens, que não têm legenda nem data, Andrew parece ter a mão sobre a barriga dela.
Noutro e-mail, pouco depois de o agressor sexual norte-americano ter saído da prisão domiciliária, em agosto de 2010, o antigo príncipe e Epstein falavam sobre uma mulher russa “linda” de 26 anos. Um mês depois, sugeriu ao gestor de fortunas nova-iorquino “jantar no Palácio de Buckingham e ter muita privacidade”. O ex-príncipe disse que “ficaria encantado em vê-la”, embora não haja nenhuma sugestão no material divulgado de que tenha ocorrido qualquer encontro entre ambos.
Simultaneamente, os novos arquivos revelam trocas de mensagens entre Sarah Ferguson e o magnata nova-iorquino – todas datadas após a acusação de Epstein por aliciar menores para prostituição. “Nunca fiquei tão comovida com a gentileza de um amigo quanto com o seu elogio a mim à frente das minhas filhas. Obrigada, Jeffrey, por ser o irmão que sempre desejei ter“, escreveu a ex-mulher de Andrew Mountbatten Windsor e antiga duquesa de York num dos e-mails agora divulgados.
No ano seguinte, Sarah Ferguson escreveu num outro e-mail: “Você é uma lenda. Realmente não tenho palavras para descrever o meu amor e a gratidão pela sua generosidade e gentileza. Estou ao seu dispor. Apenas case comigo”.
A antiga duquesa de York ainda não reagiu às mais recentes divulgações, mas anteriormente declarou que abomina “a pedofilia e qualquer abuso sexual de crianças e sabe que este foi um erro gigantesco de julgamento”. Mountbatten Windsor também não comentou, até ao momento, sobre estes arquivos, mas sempre negou qualquer irregularidade.
Em outubro, o Palácio de Buckingham divulgou uma declaração de Andrew, na qual voluntariamente renunciava ao uso do título de Duque de York, juntamente com vários outros. Na altura, afirmou: “Portanto, não usarei mais o meu título nem as honras que me foram conferidas. Como já disse anteriormente, nego veementemente as acusações contra mim.”
Mette-Marit, princesa herdeira da Noruega
Não é só a família real do Reino Unido que tinha ligações a Jeffrey Epstein. Os arquivos divulgados na semana passada pelo Departamento de Justiça norte-americano mostram também uma extensa correspondência por e-mail entre Mette-Marit e o agressor sexual – já depois de Epstein ter sido considerado culpado de crimes sexuais contra crianças em 2008.
No passado sábado, Mette-Marit, mulher do príncipe herdeiro da Noruega, Haakon, pediu desculpas por ter mantido contacto com Epstein, dizendo que demonstrou falta de discernimento. “Tenho de assumir a responsabilidade por não ter investigado mais a fundo o passado de Epstein e por não ter percebido mais cedo que tipo de pessoa ele era. Lamento profundamente isso, e é uma responsabilidade que tenho de assumir. Cometi um erro de julgamento e lamento ter tido qualquer contacto com Epstein. É simplesmente embaraçoso“, afirmou.

O primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Stoere, concordou com a princesa herdeira. “Estou realmente a usar as suas próprias palavras. Ela diz que demonstrou mau senso. Concordo e acho que vale a pena dizer isso quando me perguntam a minha opinião sobre o assunto”, disse Stoere na segunda-feira, em resposta aos jornalistas.
Para o líder do Governo do país nórdico, Mette-Marit e outros noruegueses proeminentes que surgem mencionados nos últimos documentos publicados sobre Epstein devem fornecer mais detalhes sobre o seu envolvimento com o gestor de fortunas norte-americano. “Vimos que as informações que surgiram lançaram mais luz sobre o assunto do que o que foi dito anteriormente. Talvez seja razoável dizer que devem explicar a extensão dos contactos que ocorreram”, sugeriu.
Outros noruegueses que aparecem nos documentos incluem Børge Brende, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente do Fórum Económico Mundial desde 2017 – que terá jantado com Epstein em 2018 e 2019 –, a diplomata Mona Juul, suspensa temporariamente do cargo de embaixadora da Noruega na Jordânia; e o ex-primeiro-ministro Thorbjorn Jagland.
Princesa Sofia da Suécia
Além de Reino Unido e Noruega, também a família real da Suécia surge nos arquivos Epstein, com a Casa Real deste país nórdico a confirmar que a princesa Sofia teve um contacto histórico limitado com Jeffrey Epstein.
Os documentos incluem uma fotografia da princesa a quem o magnata norte-americano se refere como “Nossa Sofia”. O e-mail dizia: “Em breve, a princesa Sofia… toda a imprensa sueca está à sua procura… enquanto ela está na África!”. Este e-mail terá sido enviado em 2010, cinco anos antes de se casar com o príncipe Carl Philip.
“A princesa Sofia lembra-se de ter encontrado o Sr. Epstein em algumas ocasiões há cerca de 20 anos, muitos anos antes de se tornar membro da Família Real. Gostaríamos de esclarecer que os encontros em questão ocorreram em ambientes sociais, como um restaurante e uma estreia de cinema“, disse a Casa Real da Suécia.
“Estamos cientes de que o nome da princesa (escrito incorretamente) teria sido encontrado num documento de uma estreia em 2012. No entanto, a princesa não sabe como o seu nome foi parar a essa lista. Sua Alteza Real estava na Suécia na época e, como mencionado acima, não se encontrava com o Sr. Epstein há vários anos”, acrescentou.
Bilionário Richard Branson

Por fim, os novos documentos mostram relações amigáveis entre Epstein e Richard Branson, o multimilionário que fundou o Grupo Virgin. Num e-mail enviado em 11 de setembro de 2013, o empresário britânico escreveu: “Foi muito bom vê-lo ontem. Os rapazes da Watersports não param de falar sobre isso! Sempre que estiver na região, adoraria vê-lo. Desde que traga o seu harém!”
Em reação a estas divulgações, um porta-voz da empresa de Branson afirmou que “qualquer contacto que Richard e Joan Branson tiveram com Epstein ocorreu apenas em algumas ocasiões há mais de 12 anos e limitou-se a contextos de grupo ou de negócios, como um evento de ténis de caridade“.
“Richard acredita que as ações de Epstein foram abomináveis e apoia o direito à justiça para as suas muitas vítimas”, acrescentou o porta-voz, assinalando que Branson nunca teria usado o termo “harém” se todos os factos fossem conhecidos e estava apenas a repetir uma frase usada pelo norte-americano.
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