Exposição de seguradoras portuguesas ao risco de catástrofes naturais atinge 1 bilião de euros
Relatório da ASF mostra que a exposição agregada do setor segurador nacional aos riscos climáticos físicos atingiu cerca de 1.010 mil milhões de euros, uma subida de 11,7%.
Numa altura em que o país recupera da devastação deixada por sucessivas depressões atmosféricas, a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) divulgou a terceira edição do Relatório Anual de Exposição ao Risco Climático.
Nesse relatório, a ASF voltou a defender a criação de mecanismos nacionais de resiliência e responsabilidade partilhada para fazer face a catástrofes naturais, alertando que a exposição agregada do setor segurador aos riscos climáticos físicos atingiu cerca de 1 bilião (1.010 mil milhões de euros), uma subida de 11,7%, face a 2022. Para efeitos desta análise, a ASF explica que a exposição é representada pelos capitais seguros das apólices da carteira de incêndio e multirriscos, enquanto a perigosidade e a vulnerabilidade são inferidas a partir de fontes públicas especializadas para cada fenómeno.
Recorde-se que a entidade supervisora já tinha entregue um projeto para o Fundo Sísmico, que o Governo pretende agora estender a outras tipologias de catástrofe. No entanto, esse projeto ainda está em avaliação técnica e só deverá chegar a Conselho de Ministros nos próximos meses, segundo fontes governamentais – já demasiado tarde para lidar com os estragos da depressão Kristin e das outras.
“A crescente materialidade dos riscos de catástrofes naturais, especialmente os que podem gerar impactos sistémicos, exige soluções que ultrapassem a capacidade de resposta individual“, afirma Gabriel Bernardino, presidente da ASF, sublinhando a necessidade de “promover mecanismos de resiliência partilhada, envolvendo os diversos stakeholders e o Estado, para facilitar a mutualização do risco e reforçar a proteção financeira da sociedade”.
O relatório confirma a crescente materialidade dos riscos climáticos – tanto físicos como de transição – para o setor segurador e fundos de pensões, alertando para lacunas significativas na proteção da população. A ASF considera que, sem mecanismos coletivos de resiliência que ultrapassem a capacidade isolada das famílias, empresas e seguradoras, os impactos deste tipo de fenómenos vão agravar-se.
Exposição concentrada em habitação e edifícios
A exposição de 1.010 mil milhões de euros está associada ao total dos capitais seguros da carteira de apólices de seguro de incêndio e multirriscos, refletindo predominantemente o segmento de habitação e a cobertura de edifícios. Esta exposição distribui-se por níveis diferenciados de risco ao longo do território nacional.
Na análise aos riscos de incêndio rural, a maioria do capital seguro concentra-se em zonas de perigosidade nula ou muito baixa, sobretudo em áreas urbanas. Contudo, persistem concentrações relevantes de risco médio, alto e muito alto nos territórios do interior e centro do país, onde a perigosidade estrutural é superior.
Quanto ao risco de inundação, a maioria do capital seguro situa-se em zonas com níveis de risco globalmente moderados (inferiores a 0,5 numa escala de 0 a 1).
Grande maioria da população sem proteção
O documento alerta ainda que “uma parte substancial dos agentes económicos não dispõe de proteção seguradora face a riscos climáticos físicos“, reforçando a necessidade de implementar mecanismos de resiliência partilhada que reduzam as lacunas de cobertura e que aumentem a robustez coletiva.
Transição climática nas carteiras de investimento
No que respeita aos riscos de transição climática, o relatório identifica uma tendência positiva nas carteiras de investimento dos setores supervisionados. Todas as carteiras de dívida soberana registaram uma melhoria anual, com maior exposição a países que avançam na transição climática.
Nos títulos de dívida privada, reforçou-se a proporção alocada a empresas com menor intensidade carbónica – 50% no setor segurador e 46% nos fundos de pensões, que apresentam menor rácio de emissões por volume de negócio.
Nas posições acionistas, existe alguma vulnerabilidade aos riscos de transição devido à maior proporção de contrapartes com intensidades carbónicas intermédias, embora mitigada pelo peso contido desta classe de ativos nos portefólios.
Objetivos ambientais são afetados por instabilidade geopolítica
O relatório alerta ainda para os “elevados níveis de tensão e incerteza geopolíticos” que têm gerado protecionismo económico e fragmentação, com repercussões na definição de objetivos ambientais e na permanência em metas supranacionais, como o Acordo de Paris.
A nível europeu, destacam-se iniciativas políticas que procuram equilibrar a ambição de sustentabilidade com maior simplificação, visando a retoma da competitividade económica, incluindo a revisão de vários diplomas legislativos na área da sustentabilidade.
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