2025 termina com ‘saldo negativo’ para fundos ESG. Mercado está mais exigente e pede clareza
Para a Europa e para o resto do mundo foi o primeiro ano com saldo negativo, embora os Estados Unidos já estejam a repetir a façanha pelo terceiro ano.
Os fundos sustentáveis globais registaram 84 mil milhões de dólares em saídas líquidas no ano passado, em contraste com os 38 mil milhões de dólares em entradas que marcaram o ano de 2024. Isto torna 2025 o primeiro ano a ter um balanço anual negativo desde que a Morningstar faz esta monitorização, em 2018. Para a Europa e para o resto do mundo também foi o primeiro ano com saldo negativo, embora os Estados Unidos já estejam a repetir a façanha pelo terceiro ano.
“O contexto geral manteve-se desafiante, com ventos contrários persistentes a continuarem a pesar sobre o apetite dos investidores”, lê-se no último relatório. Entre os fatores que afetaram o apetite dos investidores por fundos sustentáveis estiveram as tensões geopolíticas, o sentimento anti-ESG, a incerteza regulamentar e um desempenho misto.
Para a Morningstar, a nova administração dos EUA marcou um ponto de viragem com a sua postura explicitamente anti-ESG e a mudança em direção à desregulamentação. Tal levou, por sua vez, a Europa a reduzir as suas ambições em matéria de regulamentos de divulgação relacionados com a sustentabilidade e a dar prioridade ao crescimento e à competitividade. Neste ambiente político e regulamentar volátil, muitos investidores questionaram se as empresas manteriam os seus compromissos em matéria de sustentabilidade.
A Morningstar define fundos sustentáveis como fundos abertos e fundos cotados em bolsa que, através do respetivo prospeto ou de outros documentos regulamentares, afirmam centrar-se na sustentabilidade, no impacto ou em fatores ambientais, sociais e de governação (ESG).
“O ano transato de 2025 deverá marcar um ponto de inflexão, mas não um ponto final”, separa João Queiroz, Head of Trading do Banco Carregosa. O analista encara com naturalidade esta nova fase no investimento verde, a qual vê como uma fase de “ajuste”, depois de um grande entusiasmo.
Na ótica deste responsável, o investimento sustentável atravessa uma fase de “desideologização” forçada, mas também de uma maior exigência técnica e foco em resultados. Vê este primeiro ano negativo como uma “correção de expectativas”, mais do que como uma rejeição do conceito ESG. “Para investidores sofisticados, isto representa menos um retrocesso e mais uma oportunidade de redefinir o ESG como ferramenta de gestão de risco e alocação estratégica, em vez de simples rótulo comercial”, remata.
O ano transato de 2025 deverá marcar um ponto de inflexão, mas não um ponto final.
“É uma evolução expectável, tendo em conta o contexto atual”, considera, por sua vez, Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe. Este afirma que, num ambiente geopolítico de fortes tensões, “a sustentabilidade passa para segundo plano”, e o capital é direcionado para áreas consideradas “essenciais”, como defesa e tecnologia. João Cruz, analista da XTB, acrescenta que em períodos de maior incerteza e volatilidade, os investidores tendem a privilegiar produtos mais amplos, mais liquidez e custos mais baixos.
Ao mesmo tempo, sublinha Valente, aumentou a desconfiança em torno do conceito ESG, devido ao risco político, a dúvidas sobre greenwashing e a incerteza regulatória. “Não significa o fim do investimento ESG, mas obriga a uma reavaliação clara da forma como é definido e apresentado ao investidor”, entende o analista da ActivTrades.
Apesar das saídas, os ativos globais dos fundos sustentáveis subiram o valor em cerca de 4% no quarto trimestre, para 3,9 biliões de dólares, apoiados pela valorização dos mercados acionistas. Desde o final de 2018, os ativos globais dos fundos sustentáveis cresceram mais de seis vezes, a partir de cerca de 600 mil milhões de dólares. A Europa representa quase 86% dos ativos globais de fundos sustentáveis, seguida dos Estados Unidos, com 9%, e o resto do mundo corresponde à parte sobrante.
Europa com trocas que podem não penalizar
O último trimestre do ano passado reforçou a tendência negativa que se vinha a verificar. Os fundos sustentáveis a nível global registaram saídas líquidas estimadas de 27 mil milhões de dólares no quarto trimestre de 2025, reforçando as saídas de quase 55 mil milhões de dólares registadas no trimestre anterior, aponta a Morningstar Sustainalytics. Na Europa, as saídas registadas no quarto trimestre foram de 20 mil milhões de dólares, reforçando os 49,6 mil milhões de dólares de saldo negativo registado no trimestre anterior.
O movimento na Europa é explicado “em grande parte” pela realocação feita por investidores institucionais do Reino Unido, de investimentos de fundos ESG agregados para mandatos ESG personalizados, ressalva a mesma entidade que reuniu os dados. “Caracterizar 2025 como um annus horribilis parece exagerado, e os dados apresentam nuances muito mais complexas”, considera Matt Christensen, diretor global de Investimento Sustentável e de Impacto na Allianz Global Investors (AllianzGI), olhando precisamente para a particularidade de “uma parcela significativa dos resgates” no terceiro e quarto trimestres se explicar pela transferência de ativos de investidores institucionais de fundos ESG agrupados para mandatos segregados de ESG personalizados.
Caracterizar 2025 como um annus horribilis parece exagerado, e os dados apresentam nuances muito mais complexas.
Um fundo comum ou agrupado (pooled fund), que é o foco desta análise da Morningstar, combina os ativos de muitos investidores numa carteira partilhada, enquanto estes mandatos referem a uma carteira personalizada e segregada, gerida exclusivamente para um único cliente, incluindo critérios de exclusão personalizados ou requisitos relacionados com o clima. A distinção entre estes dois veículos “não implica, por si só, qualquer diferença no nível de incorporação de ESG”, afirma a AllianzGI. Valente complementa dizendo que as carteiras personalizadas “podem ser mais atrativas para grandes investidores, porque lhes dão controlo sobre os objetivos e métricas ESG”.
“Trata-se menos de ‘abandono’ do investimento sustentável e mais de uma mudança no veículo de implementação”, reforça João Queiroz. Ainda assim, o mesmo considera “inegável” que o contexto europeu se tornou menos favorável, dada a renovada prioridade à competitividade, defesa e crescimento económico, bem como incerteza regulatória. Além desta reorganização em termos de produtos, o movimento de saídas na Europa pode ser justificado por um maior escrutínio regulatório, pontua João Cruz.
A AllianzGI ressalva ainda que, de acordo com os critérios previstos na norma europeia SFDR (o Regulamento de Divulgação de Finanças Sustentáveis), alguns dos fundos sustentáveis continuaram a atrair fluxos líquidos positivos nos primeiros três trimestres de 2025 (com os dados para Q4 ainda pendentes).
EUA mantêm tendência negativa
Nos Estados Unidos, os fundos sustentáveis registaram saídas líquidas pelo 13.º trimestre consecutivo, totalizando 4,6 mil milhões de dólares no quarto trimestre de 2025. “Neste momento não é realista esperar uma inversão da tendência”, antevê Henrique Valente, para depois vaticinar: “Mesmo que Donald Trump deixe de ser presidente, as prioridades dos EUA estão na independência energética e tecnológica”, enquanto “há uma tensão real entre a narrativa ESG e as necessidades do investimento em infraestrutura digital”. Os investimentos em centros de dados, redes e capacidade energética não são particularmente amigos do ambiente no curto prazo, exemplifica.
Mesmo que Donald Trump deixe de ser presidente, as prioridades dos EUA estão na independência energética e tecnológica.
“O investimento sustentável tornou-se um tema muito politizado”, realça o head of trading do Banco Carregosa. O mesmo considera que “a inversão é possível, mas dificilmente imediata”, não dependendo de uma mudança presidencial. Fica antes dependente do “regresso” do ESG a um terreno económico e financeiro, centrado na gestão de riscos materiais, na eficiência do capital e na criação de valor de longo prazo. “Uma alteração do ciclo político poderá acelerar esse processo, mas não é condição única nem suficiente”, entende.
No mesmo sentido, João Cruz afirma que uma mudança no clima político pode reduzir o ruído e facilitar a normalização do tema, mas a inversão de fluxos tende a acontecer quando houver condições objetivas, independentemente de quem está na Casa Branca. Quando o rótulo, a politização e a falta de clareza melhorarem, com uma ajuda do ciclo de mercado, “os fluxos podem estabilizar e recuperar”.
Em oposição, o diretor da AllianzGI observa nos Estados Unidos “uma mudança de narrativa, e não uma mudança de capital”. Christensen aponta um “silêncio verde”, no qual as empresas continuam a investir em áreas como as energias renováveis, armazenamento e veículos elétricos, mas enquadram estas ações em termos de segurança energética, abundância de energia, resiliência, competitividade nacional ou força industrial, em vez de as colocarem na categoria “ESG”. “Os fundamentais da transição permanecem intactos e impulsionados pela economia”, conclui.
Desempenho não ajudou. 2025 foi segundo pior ano desde 2018
“O desempenho também foi um problema no ano passado”, assinala o relatório da Morningstar. Ao comparar os índices de sustentabilidade desta entidade com equivalentes sem este pendor, 2025 foi o segundo pior ano desde 2018, ficando apenas atrás de 2022. Apenas 26% dos índices ESG superaram os seus equivalentes não ESG, em comparação com 45% em 2024.
“A capacidade de um gestor de ativos demonstrar o potencial de desempenho a longo prazo dos fundos ESG é, sem dúvida, uma consideração fundamental para qualquer investidor”, reconhece Christensen. O desempenho destes fundos deverá ter ficado aquém do resto do mercado “pela sua exposição limitada ou inexistente aos setores que apresentaram melhor desempenho financeiro durante o período”, indica a Allianz. Em particular, o setor da defesa apresentou um desempenho “notavelmente forte em 2025”, apoiado por elevadas tensões geopolíticas e o aumento das despesas relacionadas com a segurança, destaca Christensen.
Apenas 26% dos índices ESG superaram os seus equivalentes não ESG, em comparação com 45% em 2024.
Na ótica de João Queiroz, são “fatores técnicos e conjunturais” que justificam o desempenho dos fundos ESG em 2025, como é o caso da elevada concentração do mercado em poucas empresas de grande dimensão e da forte valorização de setores intensivos em carbono. Ao mesmo tempo, destaca também a subexposição a defesa, num contexto geopolítico adverso. O analista da XTB, João Cruz, sublinha ainda o efeito dissuasor que têm os custos de transição, “ainda elevados” em vários setores verdes. “Em suma, 2025 foi um ano em que os fatores tradicionais, energia, valor e cash-flows imediatos, superaram narrativas de longo prazo, penalizando os índices de sustentabilidade”, conclui.
“O desempenho foi e continuará a ser um problema, enquanto as empresas que aderem a este modelo dependerem de apoios governamentais para competirem em pé de igualdade com empresas que não seguem estes objetivos”, critica, por fim, Henrique Valente.
Mais clareza precisa-se
“O mercado está a ficar mais exigente com o que significa ESG”, aponta João Cruz, da XTB. “É fundamental redefinir o conceito de ESG, que hoje junta dimensões muito diferentes” e “tornar as métricas ESG mais claras, mensuráveis e realistas”, acredita, por sua vez, o analista da ActivTrades. Para este, se a sustentabilidade for encarada como eficiência e gestão de risco, torna-se mais fácil voltar a atrair capital.
Também a AllianzGI indica que a atratividade de investir em ESG pode subir com “definições mais claras”, sobretudo no que diz respeito àquilo que se insere na categoria “transição”. Embora o financiamento da transição esteja hoje centrado principalmente na mitigação das alterações climáticas e na gestão de riscos, novas orientações podem alargar o seu âmbito para incluir a adaptação, a resiliência e outras prioridades ambientais. “Esperamos que estes desenvolvimentos apoiem a maior consolidação da transição como classe de ativos em 2026”, indica o diretor da AllianzGI.
O mercado está a ficar mais exigente com o que significa ESG.
Do lado do Banco Carregosa, entre os fatores que podem contribuir para uma retoma gradual dos fluxos para estratégias sustentáveis está “uma maior previsibilidade regulatória”, que inclui a simplificação e clarificação dos enquadramentos existentes, assim como, novamente, a ancoragem das estratégias ESG à rentabilidade ajustada ao risco. A estes junta-se um fator mais estrutural: “a procura latente por parte de investidores mais jovens e de grandes proprietários de ativos”, que continuam a manifestar interesse em integrar sustentabilidade nas decisões de alocação, ainda que de forma mais pragmática.
Um eventual contexto de taxas de juro mais benigno, favorável a investimentos intensivos em capital, também pode ser adjuvante, indica Queiroz. Em ambientes de juros menos restritivos e maior apetite por risco, costuma aumentar o interesse por estratégias ligadas a transição e transformação económica, onde muitas teses ESG se inserem, sublinha, por seu lado, o analista da XTB. Sem esse “vento macro”, a rotação vai mais facilmente para produtos defensivos, assinala.
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