Empresas no centro da tragédia aguentam contratos, mas temem pelas encomendas futuras

Empresas afetadas pelo temporal têm tentado dar resposta às encomendas, com recurso a geradores e ajuda de outras fábricas, mas receiam dificuldades na captação de novas encomendas.

Desde que a depressão Kristin varreu Portugal, os dias de João Faustino, dono da JF Moldes, são passados entre as suas cinco fábricas. Com duas unidades “sem recuperação”, o empresário da Marinha Grande, distrito de Leiria, divide-se entre os edifícios do grupo que detém e que fornece grandes empresas, como a alemã Porsche. A produzir a menos de 30% da sua capacidade, com recurso a geradores, Faustino receia que não cheguem novas encomendas. Uma preocupação partilhada por outras empresas, que receiam pelo futuro.

O grupo JF Moldes foi um dos mais fustigados pelo temporal que varreu a região centro do país. Das cinco unidades detidas pelo grupo, nenhuma escapou sem danos, sendo que duas ficaram totalmente destruídas. “Essas estão anuladas“, lamenta João Faustino, em declarações ao ECO.

Relativamente às outras três, o empresário, que é também presidente da Associação Nacional da Indústria de Moldes (Cefamol), diz que houve prejuízos, nomeadamente nos telhados. “Estamos a remendar, a fazer remendos”. Tudo somado, estamos a falar de prejuízos de milhões, ainda a calcular.

Sem eletricidade, nem internet e água, Faustino está a mover todos os esforços para produzir, com recurso a geradores, a uma antena Starlink, que comprou em Espanha, e água do poço. “Estamos a produzir 30%, ou menos, nas três fábricas“, explica. Apesar de todas estas limitações, a empresa conseguiu “resolver” a situação com a Porsche, que estava à espera de uma entrega da companhia para continuar a produzir um carro na Alemanha.

A situação com a Porsche ficou resolvida. Os homens da Porsche vieram na segunda [ver a fábrica] e na quarta mandamos os moldes (…) Esperamos que depois tenham novas encomendas para nos colocar.

João Faustino

Dono da JF Moldes

“A situação com a Porsche ficou resolvida. Os homens da Porsche vieram na segunda [ver a fábrica] e na quarta mandamos os moldes“, diz, garantindo que a empresa mantém o contrato com a companhia alemã. Em relação aos outros clientes garante que continua “a cumprir”, mas os clientes também “compreenderam” a dimensão da tragédia.

O empresário garante que, “a nível de produção de peças, [a empresa] está a fazer face às necessidades dos clientes. Está assegurado com as empresas da região“, a quem está a recorrer para os serviços que não consegue assegurar neste momento.

O problema é o futuro. “Esperamos que depois tenham novas encomendas para nos colocar”, realça, justificando que “muitos clientes neste momento, devido às questões geopolíticas, estão a adiar o lançamento de novos produtos e isso é um problema”.

O ECO sabe que, tal como a JF Moldes, outras empresas afetadas pelo temporal não estarão a receber novas encomendas e receiam que estas não cheguem.

Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol, avisa que é preciso manter contacto com o mercado

Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol, não tem, para já, conhecimento de empresas que estejam a perder contratos, mas avisa que é preciso manter o contacto com os clientes, para garantir novas encomendas.

As maiores dificuldades são a conquista de novos clientes e procurar novas encomendas“, refere, adiantando que a situação “condiciona a atividade normal” do setor, que fornece grandes construtoras automóveis na Europa. “As empresas não podem perder o contacto com o mercado“, avisa o responsável.

Quanto à situação atual do setor, Manuel Oliveira nota que há uma “recuperação lenta”, “a situação continua difícil em termos de energia elétrica e comunicações, com algumas empresas a laborar com geradores, o que não é ideal e tem custos enormes“.

Apesar disto, o secretário-geral da associação que representa o setor dos moldes indica que as companhias estão a “fazer todos os esforços” para responder às encomendas, havendo uma “colaboração entre empresas do setor para terminar as operações e colmatar necessidades de outras empresas”.

José Couto, presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, reconhece dificuldades

O setor das componentes automóveis é outro que foi fortemente afetado e que está a retomar lentamente a laboração. “As empresas estão a conseguir iniciar a atividade”, refere José Couto, presidente da AFIA, notando que não estão a trabalhar a 100%, “mas com soluções que permitem satisfazer em parte as encomendas”.

“Sabemos que existem conversas com os clientes de forma a poderem resolver a bem das duas partes”, esclarece. Quanto às unidades mais afetadas, onde os prejuízos são maiores, “há empresas que continuam a não poder produzir”. Situações que “vão demorar mais tempo a resolver“, admite.

Danos ainda por calcular

Embora calcule prejuízos de milhões, o dono da empresa de moldes da Marinha Grande ainda está em fase de “levantamento de prejuízos para apresentar à seguradora”. Para já diz que ainda não sabe o que vai fazer em relação às duas unidades “irrecuperáveis”.

Está tudo a ser estudado“. A reconstrução, explica, levaria meses e conduziria a um abrandamento de encomendas. “Pode demorar dois anos a construir e daqui a dois anos pode não haver encomendas“. Com mais de uma centena de colaboradores, o empresário está, neste momento, a distribuir os funcionários pelas três unidades em funcionamento.

Grandes exportadoras preocupadas

Com fornecedores afetados pelo temporal, Bosch, Autoeuropa e Stellantis têm conseguido manter a produção, com algumas empresas a recorrerem aos stocks disponíveis para garantir entregas. Maiores constrangimentos vão depender do tempo que vai demorar até empresas afetadas conseguirem retomar a atividade.

“Até ao momento, não registamos impacto na produção das fábricas da Bosch em Portugal”, adianta fonte oficial da multinacional alemã Bosch ao ECO, acrescentando que “alguns dos fornecedores localizados na zona afetada pela tempestade estão, para já, a assegurar os fornecimentos através de stocks disponíveis”.

A Bosch refere que “a eventual existência de constrangimentos dependerá do tempo necessário para a retoma da atividade desses fornecedores. Estamos a acompanhar a situação de forma contínua mas, neste momento, as nossas fábricas mantêm a sua atividade normal”, reforçou.

Já a Autoeuropa explicou que “as tempestades das últimas semanas afetaram alguns dos nossos fornecedores, o que levou à paragem temporária de alguns turnos de produção”.

A mesma fonte explicou que “a Volkswagen Autoeuropa está a acompanhar de perto a situação e a implementar medidas para minimizar o impacto na produção” e, “no momento, a produção decorre com normalidade”.

A fábrica da Stellantis, em Mangualde, é outra das gigantes do setor automóvel que também tem fornecedores na região mais afetada pelo mau tempo. “Confirmamos que temos fornecedores na região de Leiria. No entanto, as entregas estão a decorrer conforme o planeado, não se tendo verificado qualquer impacto na produção da fábrica de Mangualde”, adiantou fonte oficial da empresa ao ECO.

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