Acordo que derrubou ações da Galp deixa de assombrar. Cotação já recuperou
O retorno aos mesmos preços é visto pelos analistas consultados pelo ECO/Capital Verde como uma nova forma de olhar para o acordo na Namíbia, mas também como consequência das negociações com a Moeve.
- As ações da Galp recuperaram para 17,56 euros, um nível não visto desde dezembro, após uma queda significativa relacionada com um acordo na Namíbia.
- Os analistas destacam que a recuperação das ações reflete uma avaliação mais racional do mercado sobre a parceria com a TotalEnergies e as sinergias com a Moeve.
- O futuro da Galp dependerá da execução dos acordos e da volatilidade dos preços do petróleo, que continua a ser um fator crucial.
As ações da Galp GALP 0,00% fecharam esta terça-feira nos 17,56 euros, um nível que já não tocavam desde o início de dezembro, ou seja, há cerca de dois meses. Dezembro que foi o mês em que se registou a maior quebra no preço da ação desde a pandemia de covid-19. Uma descida a pique que aconteceu após o anúncio de uma parceria com a TotalEnergies, para a exploração de petróleo na Namíbia. O retorno aos mesmos preços é visto pelos analistas consultados pelo ECO/Capital Verde como uma nova forma de olhar para o acordo na Namíbia, mas também como consequência das negociações, anunciadas posteriormente, com a Moeve.
“É sempre complexo isolar as variáveis que justificam os movimentos nas cotações, uma vez que múltiplos fatores pesam simultaneamente”, ressalva Vítor Madeira, analista da XTB. Contudo, afirma que “a recuperação das cotações evidencia uma mudança significativa na perceção dos investidores relativamente à estratégia de parceiras da Galp para o futuro”.
A recuperação das cotações evidencia uma mudança significativa na perceção dos investidores relativamente à estratégia de parceiras da Galp para o futuro.
João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, fala de “uma leitura de mercado mais informada e equilibrada após o primeiro impacto do anúncio”. “O mercado passou de uma reação emocional inicial para uma avaliação mais racional e estratégica de ambos os acordos, reconhecendo o potencial de criação de valor a médio longo prazo”, considera.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
A sustentar a evolução positiva dos títulos da Galp está, em primeiro lugar, a “recuperação significativa” nos preços do petróleo. “Este fator é determinante para a valorização das ações de empresas petrolíferas”, destaca Vítor Madeira. Contudo, olha para as sinergias recentemente anunciadas pela petrolífera como fatores também adjuvantes.
O mercado passou de uma reação emocional inicial para uma avaliação mais racional e estratégica de ambos os acordos.
O segredo está na gestão de risco
O analista da XTB entende que “as expectativas dos investidores relativamente aos resultados futuros da empresa melhoraram substancialmente”. Na sua ótica, houve uma reavaliação do acordo com a TotalEnergies, empresa com a qual a Galp decidiu partilhar o projeto que detinha na Namíbia. A empresa francesa ficou com 40% deste ativo da Galp, comprometendo-se a suportar metade dos custos de investimento para exploração. Além disso, o acordo prevê também troca de participações noutras descobertas da TotalEnergies na região.
Inicialmente, a reação dos mercados ao acordo entre as duas empresas foi negativa, registando-se uma queda superior a 15% no dia do anúncio, o maior “mergulho” da empresa desde a pandemia. O head of trading do Banco Carregosa interpreta que, no início, houve um foco na valoração implícita do acordo, na dimensão dos recursos, na magnitude potencial do investimento, no ritmo de desenvolvimento e no risco de o projeto Mopane ficar atrás de outros na hierarquia de decisões de capital. Afirma que surgiram também questões sobre se a Galp teria “vendido cedo demais”.
As expectativas dos investidores relativamente aos resultados futuros da empresa melhoraram substancialmente.
No próprio dia do anúncio, numa chamada com jornalistas, o co-CEO da Galp João Diogo Marques da Silva concedeu que, do lado do mercado, houvesse a expectativa de “um acordo com mais benefícios no curto prazo, com cash up front evidente”, e que nesse sentido alguns investidores poderão ter ficado “menos entusiasmados”. Contudo, afirmou: “nós estamos claramente entusiasmados com a visão de longo prazo que estes ativos nos trazem e que ganham com este parceiro”. Explicou ainda que existiam um conjunto de indicadores que teriam de ser digeridos pelo mercado, os quais acreditou poderem levar a uma visão diferente por parte dos investidores.

Dois meses volvidos desde este anúncio, Vítor Madeira acredita que o acordo estará a ser entendido numa perspetiva mais estratégica, da partilha de risco e custos de investimento, mantendo exposição a projetos promissores. No seu entender, esta opção “demonstra uma gestão prudente dos recursos da empresa”. Para João Queiroz, à medida que a gestão enquadrou a decisão como um exercício de gestão ativa de risco — e não de maximização de preço — “ganhou força a perceção de que o acordo preserva valor ajustado ao risco”. Queiroz destaca, como conquistas, que o acordo protege o balanço, suaviza o perfil de Capex e evita pressão financeira adicional.
Ganhou força a perceção de que o acordo preserva valor ajustado ao risco.
Além disso, o analista da XTB identifica “uma clara correção técnica após um movimento vendedor excessivamente agressivo”. Na sua ótica, a “queda abrupta” de dia 9 criou uma oportunidade de entrada para investidores institucionais e de médio longo prazo, que identificaram uma “desvalorização injustificada face aos fundamentos da empresa”.
Já a 8 de janeiro, a Galp avançou com um novo anúncio. Desta vez, algo menos definitivo, na medida em que se trata de abrir negociações com a espanhola Moeve, considerando uma fusão parcial entre as duas empresas. “A recuperação da cotação também espelha a forma construtiva como o mercado tem vindo a interpretar as negociações entre a Galp e a Moeve”, acredita, por sua vez, o responsável de trading do Banco Carregosa.

A nova estrutura, que dividiria o negócio de downstream da Galp em RetailCo e IndustrialCo, “permite maior foco estratégico, melhor alocação de capital e captura de sinergias num setor onde a escala e a eficiência são cada vez mais determinantes”, pontua. Este anúncio “reforçou a confiança dos investidores na estratégia de criação de valor da empresa”, afere Vítor Madeira.
[Acordo com Moeve] reforçou a confiança dos investidores na estratégia de criação de valor da empresa.
A combinação dos ativos cria uma rede de cerca de 3.500 postos na Península Ibérica e consolida três refinarias, aproximando a nova plataforma da dimensão de pares como a Repsol e reforçando o posicionamento ibérico com ambição europeia, destaca o mesmo representante do Banco Carregosa.
Ações devem subir, mas sem euforias
Quanto à evolução do título ao longo do ano, “o cenário mais provável aponta para um comportamento construtivo, ainda que sem euforias”, defende Queiroz. Segundo o analista e a cotação deverá beneficiar à medida que vão sendo executados os acordos anunciados, e também quando existirem eventuais clarificações adicionais sobre estrutura, governação e retorno do capital investido.

A decisão final de investimento no projeto Venus (esperada para 2026) e os progressos nos três poços de perfuração previstos em Mopane serão marcos importantes, acrescenta Madeira. Em paralelo, o processo de aprovação regulatória e a efetivação das sinergias operacionais, no que diz respeito ao acordo com a Moeve, estarão debaixo dos holofotes. A influenciar pela negativa, está a volatilidade dos preços da energia, o ambiente macroeconómico e o escrutínio regulatório, que “permanecem fatores de risco relevantes”, indica Queiroz.
O cenário mais provável aponta para um comportamento construtivo, ainda que sem euforias.
Na visão de Vítor Madeira, o preço de petróleo continuará a ser o principal motor, e a atual tendência de recuperação dos preços do crude favorece as perspetivas, mas a volatilidade geopolítica e as decisões da OPEP+ (cartel de produtores e aliados) serão determinantes. No que diz respeito aos resultados operacionais, a produção de petróleo da Galp aumentou 2% no quarto trimestre de 2025, “sinalizando uma trajetória positiva”.
“A Galp surge hoje como uma história mais legível e equilibrada, o que tende a sustentar uma trajetória de consolidação com viés ligeiramente positivo, desde que a execução acompanhe a ambição estratégica”, conclui Queiroz.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Acordo que derrubou ações da Galp deixa de assombrar. Cotação já recuperou
{{ noCommentsLabel }}