Tecnológica de Leiria compra empresa em Espanha com Kristin ‘em casa’

Grupo inCentea fica com a Dragomar na Andaluzia e espreita “várias oportunidades” na Catalunha enquanto negoceia aquisição no Brasil. Tempestade “condicionou” serviços e obrigou a realojar as equipas.

Vítima da depressão Kristin, que obrigou inclusive a redistribuir por outros locais a equipa de 130 pessoas baseada em Leiria, e ainda a tentar “regressar gradualmente à normalidade”, a tecnológica inCentea acaba de fechar mais uma aquisição em Espanha, adianta ao ECO Rui Silva, administrador da empresa e responsável pela área internacional.

Poucos meses após ficar com o braço angolano da concorrente bracarense F3M, o grupo que no ano passado faturou perto de 25 milhões de euros junta agora ao portefólio a Dragomar. Tem sede em Almería (região da Andaluzia) e é especializada na implementação e suporte de soluções de software de gestão empresarial, incluindo um vertical dedicado ao setor do pescado.

Fundada em 2010 e detida até agora por Daniel Martínez Góngora, teve vendas anuais a rondar os 700 mil euros, concentradas numa “base sólida de clientes na Andaluzia, assente na proximidade e na personalização das soluções”. Para o grupo português passa ainda uma dezena de colaboradores com experiência nas áreas de tecnologias de informação e consultoria empresarial.

“Esta aquisição insere-se na estratégia de crescimento sustentado da inCentea, que combina crescimento orgânico com integrações seletivas. Em Espanha atuamos nos ecossistemas Sage, Cegid e Microsoft, e a Dragomar permite reforçar de forma clara a nossa capacidade técnica e comercial no universo Cegid, através de uma equipa especializada e de uma base de clientes já consolidada”, aponta o gestor.

Rui Silva, administrador e responsável pela área internacional da inCentea

Foi em 2014, em Lugo (Galiza) que a inCenta se estreou no país vizinho com a aquisição da Ardinova. Uma década depois comprou a Extom, com presença em Madrid, Barcelona e Granada, alargando agora a presença à Andaluzia. Rui Silva conta que está a “acompanhar várias oportunidades no mercado espanhol” e que “neste momento, a Catalunha é uma das geografias onde [está] a analisar mais possibilidades, pela relevância económica e tecnológica da região”.

Mercado prioritário pela proximidade geográfica e cultural — “facilita a criação de sinergias, tanto ao nível dos clientes ibéricos como na relação com os principais fabricantes de software, que operam frequentemente numa lógica de supervisão ibérica” –, e com “elevado potencial de digitalização das empresas e de adoção de soluções tecnológicas mais avançadas”, Espanha contribuiu com perto de três milhões de euros para a faturação do grupo no ano passado.

Comprar no Brasil e vender nas telecomunicações

Nascida em 1987 no seio de um grupo empresarial de Leiria do setor dos plásticos, é no ano 2000 que acontece um MBO protagonizado por um conjunto de colaboradores, que ainda hoje se mantêm na gestão. Volvidos três anos iniciou o crescimento por incorporação de outras empresas, até que em 2007 arranca com o processo de internacionalização. Os mercados externos representam um terço do negócio.

Atualmente com 365 colaboradores, dos quais 247 espalhados por Leiria, Lisboa, Porto e Braga, lá fora tem escritórios em Espanha (Madrid, Barcelona, Granada, Lugo e Almería), Angola (Luanda), Moçambique (Maputo), Cabo Verde (São Vicente, Sal e Santiago) e Brasil (Curitiba e Rio de Janeiro). A presença no mercado brasileiro está prestes a ser reforçado com uma aquisição em “fase avançada de formalização” e que poderá ser oficializada até ao final deste mês, garante o administrador.

Estamos numa fase avançada de formalização desse negócio [aquisição no Brasil] e contamos comunicar oficialmente ao mercado durante o mês de fevereiro.

Rui Silva

Administrador e responsável pela área internacional da inCentea

Este arranque acelerado no novo ano segue-se a um exercício de transição em que executou o projeto de transformação Iniciativa Vanguard, em colaboração com a EY, que resultou na alienação de empresas que não estavam nas áreas core do grupo. Vendeu a Voznet e a Teleleiria (ambas do setor das telecomunicações) ao gestor de uma delas, sendo que antes já se tinha desfeito de outras da área da engenharia de produto e da impressão 3D.

O presidente executivo, António Poças, que foi presidente da Nerlei – Associação Empresarial da Região de Leiria entre 2018 e 2024, descreveu ao ECO que o plano estratégico tem como objetivo atingir uma faturação de 50 milhões de euros em 2028, impulsionada por um equilíbrio entre crescimento orgânico e operações de fusão e aquisição, assim como pelo reforço da presença internacional.

Kristin “condiciona” serviços e deslocaliza equipas

Quando a depressão Kristin bateu à porta, o edifício na Zona industrial da Zicofa, em Leiria, não resistiu à quebra de uma claraboia, que fez entrar o vento e sobretudo a chuva nos escritórios. Ainda assim, seria possível rapidamente voltar a utilizar o espaço, não fosse a total quebra de energia. Em termos de danos mais sérios, a InCentea teve 12 carros afetados pela queda de objetos, dos quais três ficaram destruídos.

“A primeira prioridade foi saber das nossas pessoas. A segunda foi tentar que as pessoas que temos fora de Leiria continuassem a trabalhar. E a terceira foi começar a arranjar alternativas”. Sendo fim do mês, havia tarefas indispensáveis a cumprir, no curto prazo. E logo no primeiro dia dirigiu-se a um hotel em Coimbra para fazer o pagamento dos salários e aos fornecedores. “E conseguimos pagar tudo”, conta o CEO.

António Poças, CEO da Incentea, com parte da equipa realojada temporariamente na Startup LeiriaHugo Amaral/ECO

No day after, foi preciso encontrar colocação para as pessoas poderem trabalhar. Foram 20 para as instalações da Nerlei e 15 para a Startup Leiria, que abriu as portas às empresas desalojadas e se tornou na “Casa do Povo”. Outros ficaram a trabalhar a partir de casa. Os escritórios de Lisboa, Porto e Braga mantiveram-se a operar a 100% e, com o apoio da restante presença internacional, reforçou a capacidade noutras localizações para assegurar a continuidade do serviço aos clientes.

Rui Silva conta que a depressão Kristin teve um “impacto significativo” na operação local da inCentea, “com falhas de energia e limitações nas comunicações, o que condicionou temporariamente alguns serviços”. “Em Leiria, reorganizámos a operação através de vários polos com energia e comunicações ativas e ativámos planos de contingência para estabilizar os sistemas críticos. Estamos a trabalhar para regressar gradualmente à normalidade, embora as comunicações na região ainda não estejam totalmente restabelecidas”, frisa o administrador.

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