Europa tem uma estratégia para os drones. O que pode ganhar Portugal?

Proposta da Comissão Europeia para os drones chega no momento certo e só peca por tardia. Portugal poderá tirar partido desta estratégia se continuar a sua aposta em drones e contra-drones.

A proposta da Comissão Europeia para aumentar a produção de drones no continente, e desenvolver as capacidades de defesa da região a esta ameaça, “é estratégica” e Portugal poderá ter um papel muito relevante “se continuar a apostar em tecnologias de drones e contra-drones”.

Chega também “no momento certo”, como prova o atual momento vivido no país onde os drones têm sido usados para monitorizar impacto das intempéries nas infraestruturas, mas falta uma estratégia nacional para a sua utilização em situações de calamidade. “Este vazio operacional reforça a pertinência do plano europeu e a necessidade de preparar capacidades permanentes, e não apenas respostas ad hoc.

“Para nós não é novidade que o mercado de drones comerciais na Europa poderá valer 14,5 mil milhões de euros em 2030, podendo exceder os 50 mil milhões em 2033. Este KPI justifica plenamente o investimento de Portugal numa nova e moderna cadeia de fornecimento. É um excelente indicador de que o nosso país poderá ter um papel muito relevante no cenário da Defesa e do dual use, se continuar a apostar em tecnologias de drones e contra-drones”, começa por comentar José Neves, presidente do AED Cluster, a proposta apresentada na quarta-feira pela Comissão Europeia.

“O ponto anterior é ainda mais relevante quando a soberania tecnológica é uma prioridade europeia, com foco total em soluções home-grown (europeias) e na redução da dependência de fornecedores externos à UE”, reforça.

Isto abre portas não só para os integradores finais — onde já temos várias empresas portuguesas de referência que dão cartas no exterior — mas também para a promoção de toda uma nova cadeia de valor que envolve o nosso Sistema Científico e Tecnológico Nacional, onde a inovação é a palavra-chave”, considera o presidente do cluster que reúne empresas de defesa, aeronáutica e aeroespacial que atuam em Portugal.

José Neves, Presidente do AED Cluster Portugal.Hugo Amaral/ECO

Dário Pedro não hesita em classificar a proposta da Comissão como “estratégica”. E reconhece que os drones deixaram de ser apenas uma ferramenta económica e passaram a ser também um vetor relevante de risco híbrido e de segurança interna”, aponta o cofundador da Beyond Vision. “O documento assume claramente que a ameaça é estrutural e permanente, e não episódica. Isso muda o paradigma”, diz ainda.

Um plano que chega no “momento certo”, diz, lembrando a atual situação vivida em Portugal, onde têm sido usados drones para a deteção dos estragados provocados pela depressão Kristin — e todas as outras que se seguiram nas últimas semanas —, sem haver uma estratégia de utilização destes equipamentos em situações de emergência.

“Os acontecimentos recentes em Portugal, com tempestades severas que afetaram infraestruturas elétricas e exigiram respostas urgentes da proteção civil e das empresas de energia, demonstraram de forma clara que o país não dispõe ainda de uma estratégia estruturada de utilização de drones para resposta a emergências”, atira o CEO da Beyond Vision.

“Apesar de serem ferramentas cada vez mais críticas para avaliação rápida de danos, inspeção de linhas elétricas, apoio à coordenação no terreno e aumento da segurança das equipas, não existem planos de contingência baseados em drones integrados nos mecanismos nacionais de resposta”, reforça.

Este vazio operacional reforça a pertinência do Plano europeu e a necessidade de preparar capacidades permanentes, e não apenas respostas ad hoc, argumenta o responsável que teve equipas no terreno para auxiliar a Proteção Civil e a eRedes na deteção dos efeitos das intempéries nas infraestruturas.

O que propõe Bruxelas

O plano de ação para combater as ameaças crescentes que os drones representam para a segurança da União Europeia (UE) — que ameaçam infraestruturas e a segurança da população — apresentado por Bruxelas passa também por promover o aumento da produção de drones na região, melhorar o sistema de deteção, usando para isso as redes 5G, propondo entre outras medidas um projeto-piloto para melhorar a vigilância marítima. Para isso, Bruxelas quer mobilizar 400 milhões para a compra de drones para os Estados-membros.

Dário Pedro, cofundador e CEO da Beyond Vision.Hugo Amaral/ECO

“Os drones trazem enormes benefícios económicos e reforçam significativamente a segurança da UE. Ao mesmo tempo, esta tecnologia está frequentemente a ser mal utilizada a baixo custo e com elevado impacto. Com o plano de ação hoje apresentado, temos mais flechas na nossa aljava para combater as ameaças à nossa segurança e utilizar esta tecnologia como uma vantagem, nomeadamente através do lançamento de um novo centro de excelência de combate aos drones, da criação de uma plataforma de incidentes de drones da UE e da despesa de 400 milhões de euros em tecnologia de drones e de combate aos drones”, justificou Magnus Brunner, comissário da Administração Interna e Migração.

Deste bolo, “150 milhões vão ser destinados à segurança das fronteiras, à aquisição de equipamento de vigilância, que servirá não apenas para uso individual dos Estados-membros, mas também para operações conjuntas lideradas pela Frontex. Os restantes 250 milhões vão servir para comprar diretamente sistemas de drones”, indicou em conferência de imprensa.

Álvaro Patrício, cofundador da startup Zero Industries, relativiza. “Este Plano de Ação constitui o reconhecimento, ainda que tardio, mas fundamental, de que os drones são hoje o sistema nervoso da defesa moderna e da resiliência económica. O volume anunciado, de 400 milhões de euros, é relevante e sinaliza compromisso político com o setor. No entanto, importa colocá-lo em perspetiva: desde 2025, a Ucrânia tem vindo a alocar cerca de 60 milhões de dólares por mês apenas para aquisição e produção de drones destinados às unidades no terreno, o que representa mais de 700 milhões por ano“, aponta.

“Quando comparado com a escala de produção e aquisição já internalizada pela Ucrânia, percebe-se que o desafio não é apenas de financiamento, mas, sobretudo, de escala industrial, velocidade de integração e maturidade tecnológica”, considera o cofundador da startup, com João Silva (CTO) e Frederico Baptista (CEO), que depois da participação num hackathon, em Varsóvia, o European Defense Tech Hackathon (EDTH), já levantou capital junto dos fundos dos Heartfelt_ e Project Europe.

José Neves alerta para o tema do financiamento. “Será vital uma articulação ágil entre Governo, Forças Armadas e Indústria para garantir o acesso aos instrumentos financeiros previstos: o Fundo Europeu de Defesa com 200 milhões de euros previstos para os próximos dois anos em inovação); o EDIP, focado na massificação da produção; e o programa SAFE para a aquisição de sistemas (com foco na entrega até 2030)”, destaca.

E, mais, “considerando que o plano propõe a criação de um Coordenador Nacional de Segurança de Drones, seria estratégico para Portugal que esta figura estivesse em estreita ligação com o Cluster AED, alinhando as necessidades operacionais com as janelas de financiamento”, destaca ainda.

Álvaro Patrício (à direita) com a equipa fundadora da Zero Industries, João Silva e Frederico Baptista.

Dário Pedro considera que o plano responde às necessidades da indústria em “quatro pontos críticos“: escala e industrialização — “fala explicitamente em massificação de produção e apoio a startups e scaleups (que se encontra com a posição da Beyond Vision). Este é hoje o maior desafio europeu face à concorrência externa” —, test beds e sandboxes regulatórias — “a aceleração da passagem de laboratório para deployment é essencial”.

“A criação de centros de teste e um framework harmonizado responde a uma lacuna real. Vamos esperar que consigam passar da retórica à prática. Temos o exemplo das zonas livres tecnológicas, que de livres têm muito pouco (fora exceções)” — procura estruturada via compras conjuntas — “a iniciativa de joint purchasing para proteção de infraestruturas críticas cria previsibilidade de mercado, algo que faltava ao setor” —e, por fim, software soberano e C2 europeu [classe de drones] com IA. Ou seja, o reconhecimento de que o software layer é central e absolutamente alinhado com a realidade operacional moderna”.

Por isso, conclui, “se bem executado, este plano pode reduzir a fragmentação europeia, que tem sido um dos principais entraves à competitividade do setor“, defende o CEO da Beyond Vision.

Como Portugal pode tirar partido?

José Neves mostra-se otimista com o potencial que esta proposta poderá representar para a indústria portuguesa, com players já com alguma dimensão a produzir e a exportar este tipo de equipamentos para vários mercados externos.

“Este documento é um sinal claro de que a Europa quer ‘reindustrializar’ o setor dos sistemas não tripulados. As empresas portuguesas, conhecidas pela sua agilidade e competência, estão na linha da frente não só na produção de plataformas, mas no desenvolvimento de novos materiais, engenharia, software, cibersegurança e Inteligência Artificial. Estamos bem posicionados para capturar estas linhas de financiamento, liderar em soluções de contra-medidas e galvanizar uma nova cadeia de fornecimento baseada em Portugal”, considera o presidente da AED Cluster.

Por fim, dada a nossa posição geográfica, “Portugal deve igualmente capitalizar a perspetiva marítima: a proteção de infraestruturas críticas e subaquáticas. O nosso objetivo não é apenas ‘fazer drones’, mas ser o parceiro que resolve os problemas mais complexos da segurança europeia (mar, cibersegurança e autonomia)”, aponta.

O tema da proteção das fronteiras marítimos e de infraestruturas críticas como cabos submarinos — que têm sido alvo de sabotagens ou suspeitas de atos — está de resto nas preocupações da Comissão que, até 2027, pretende lançar um piloto para melhorar a vigilância da fronteira marítima dos drones submersos e de superfície.

José Neves destaca ainda o selo ‘EU Trusted Drone’ que a Comissão Europeia quer avançar até o quarto trimestre de 2026. “Vou ter de analisar os requisitos técnicos específicos que serão exigidos para esta certificação, de forma a percebermos como a nossa indústria pode liderar também nesta norma de segurança”, refere.

“Para a indústria nacional, a mais-valia residirá menos na montagem e mais nas camadas de maior valor acrescentado, nomeadamente navegação resiliente, IA embarcada, sistemas anti-jam e interoperabilidade. Quem dominar estas camadas capturará a componente estratégica da cadeia de valor”, aponta Álvaro Patrício.

“Do que observamos no terreno, o verdadeiro gargalo não é apenas produzir mais drones, mas torná-los efetivamente operacionais em ambientes degradados, onde o Global Navigation Satellite System (GNSS) é negado e a superioridade depende da robustez do sistema como um todo“, aponta o cofundador da Zero Industries, startup que tem uma solução que ajuda os drones a voar e a atingir o seu destino, mesmo sem GPS, normalmente bloqueado em cenários de guerra.

Para Dário Pedro, Portugal “tem uma oportunidade clara se atuar de forma coordenada”, posicionando-se em “nichos tecnológicos de alto valor, em vez de competir em volume com grandes fabricantes”. No entender do CEO da Beyon Vision, “a indústria nacional pode liderar em sistemas modulares C2 com IA, na integração multi-sensor e em soluções dual-use para proteção de infraestruturas críticas”.

As empresas devem ainda “participar ativamente nos test centers e programas piloto” — “quem estiver presente nos primeiros projetos piloto e nos exercícios europeus ganha vantagem competitiva na fase de procurement” —, bem como integrar consórcios europeus com foco industrial, não apenas R&D.

“O plano deixa claro que a prioridade é industrialização e deployment, não apenas investigação. Há muitos (demasiados) programas de R&D europeus no qual apenas se desenvolve papel, contribuindo muito pouco para ecossistema, e tendo um retorno super baixo para a economia/defesa”, realça. E, por fim, alavancando os fundos europeus “combinando defesa e civil”.

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