Hermès supera pela primeira vez os 16 mil milhões em receitas à boleia de malas Birkin e Kelly

Lina Santos,

A empresa francesa contraria os resultados das concorrentes LVMH e Kering e cresce em 2025. As malas continuam a puxar pela marca, mas na Ásia, sem o Japão, o crescimento desacelerou

A francesa Hermès fechou 2025 com receitas de 16.002 milhões de euros, superando pela primeira vez a fasquia dos 16 mil milhões, de acordo com os resultados apresentados pela empresa esta quinta-feira. A divisão de marroquinaria, onde se incluem os seus produtos mais conhecidos, as malas Birkin e Kelly, é o mais forte. Perfumes e relojoaria contrariam a tendência de crescimento. Na Ásia, excluindo o Japão, o crescimento desacelerou.

A Hermès aumentou também o resultado operacional recorrente para 6,5 mil milhões, mais 7% do que no ano anterior. A margem operacional melhorou para 41%, face a 40,5% em 2024. Números positivos num setor em que os dois maiores atores do mercado, LVMH e Kering, não mostraram tão bons resultados.

A marroquinaria e selaria, onde se incluem peças de assinatura da marca como as malas Birkin e Kelly, representa cerca de 44% das receitas, e manteve-se como principal motor da empresa, com um crescimento de 13,1%, suportado pelo aumento de capacidade produtiva em França. O ready to wear e acessórios cresceram 6,1%, enquanto a divisão de seda e têxteis subiu 4,7%. Em sentido contrário, a divisão de perfumes e beleza recuou 7,6%, penalizada pela comparação com o ano de lançamento do perfume Barénia em 2024. Na relojoaria, apesar de ter recuperado no segundo semestre de 2025, caiu 1,5%.

“Temos um bom equilíbrio entre divisões”, defendeu o CEO da Hermès, Axel Dumas, descendente do fundador da empresa, na apresentação dos resultados, em Paris. “Não vendemos o mesmo que há uns anos. Quando comecei, 55% era marroquinaria, hoje é 45%. Peço às divisões para serem equilibradas até dentro delas. Queremos criar desejo de forma equilibrada, pedimos que se renovem. Há liberdade de criação, o que é muito importante e cria um interessante diálogo entre quem compra e quem faz. Somos uma empresa baseada em craftsmanship, uma mala leva 16 horas de trabalho, é um trabalho lento. Somos exigentes nos materiais e no saber-fazer. Enquanto existir equilíbrio, há desejo”.

Na manutenção de uma estratégia baseada no trabalho de artesãos qualificados, o CEO salientou a abertura de uma nova oficina Hermès em 2025 e as que estão previstas até 2030, prevendo a formação de 250 novos profissionais. “Tirámos alguns dos nossos melhores para ensinar”.

Crescimento em todas as geografias, com um ponto fraco: China

Todas as regiões registaram crescimento em 2025, segundo a Hermès:

  • A Ásia, sem Japão, aumentou 4,9%, e o Japão destacou-se com 14,1%.
  • As Américas cresceram 12,4%.
  • A Europa, sem França, subiu 11,3%. Em França avançou 8,9%.
  • O Médio Oriente registou uma das maiores evoluções: 14,9%.

O CEO reforçou a importância da classe média nos resultados da Hermès e, a propósito dos resultados por geografia, que “não é verdade que a classe média esteja a sofrer em todo o mundo, é verdade em França, mas os números mostram que a classe média aparece”. “Há pessoas com mais poder de compra na Ásia, na América do Sul e nos EUA, onde crescemos 18%”, sublinhou.

“Estamos muito otimistas na Zona Euro, porque temos uma base de clientes local forte. As pessoas compram na loja local. Na china, os clientes chineses compram na China. No Japão também temos uma base leal. Numa análise mais fina, em França dependemos de turistas, mas o resto da Europa tem uma base de clientes forte. Na Europa, tanto na Zona Euro como fora, estamos confiantes”, disse Dumas, lembrando as aberturas previstas de lojas em Bond Street, Londres, e Genebra. Berlim, Pequim, Osaka e San Diego também vão sofrer alterações este ano.

Para 2026, a desaceleração de crescimento da Hermès na Ásia, excluindo o Japão, é uma ‘bandeira vermelha’, abordada durante a apresentação de resultados.

O CEO foi otimista, mas cauteloso em relação a este território, um assunto que gerou várias perguntas entre os analistas. “O ano novo chinês tem um grande impacto nas nossas vendas e é difícil entender o resultado, já que começa em diferentes alturas. Há um ano foi em janeiro, este ano será a meio de fevereiro, não teremos uma ideia clara sobre o que vai acontecer [em 2026] antes do final do primeiro trimestre”, disse, durante a apresentação de resultados, esta quinta-feira de manhã, em Paris.

Dumas reforçou que a China permanece como um “território de conquista”, mas que não pretendem mudar a estratégia já traçada. “Temos de ser sensatos e não ir a todo o lado, não ter demasiadas lojas. Abrimos uma loja por ano. Mantemos o nosso plano”.

“Acredito que há sempre um problema a cada dois anos, por isso temos uma estratégia global. Durante a covid-19, todas as áreas geográficas sofreram, mas um ano depois todas duplicaram as vendas. A China vai melhorar, os problemas são parte da vida, temos de estar preparados”, desvalorizou.

Outro ponto fraco: perfumes e relógios

Sobre os resultados negativos da empresa nas divisões de perfumes e relojoaria, Axel Dumas foi breve. “Podemos fazer melhor, francamente”. E confirmou os planos para o lançamento de uma linha de skin care da marca. Mantém-se igualmente o plano de entrar na alta costura, anunciado há um ano. “Qual chegará primeiro?”.

O lucro líquido atribuível ao grupo fixou-se em 4,524 milhões, abaixo dos 4,603 milhões de 2024 devido à contribuição excecional sobre os lucros das grandes empresas em França, segundo a Hermès.

A empresa vai propor um dividendo anual de €18 por ação, incluindo um intercalar de €5 já pago em fevereiro de 2026. Na apresentação, Dumas referiu ainda que os salários nas Hermès subiram uma média de 120 euros e que será distribuído um bónus.

 

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