Barragens cheias servem de ‘seguro’ à agricultura, mas tempestades ameaçam produção
Os níveis de armazenamento das barragens hidroagrícolas aproximaram-se de máximos. Se, por um lado, a agricultura ganha um "seguro" para anos de seca, as tempestades ameaçam o ano agrícola.
- O início de 2026 é marcado por um "comboio de tempestades" que, apesar de causar devastação, encheu barragens em Portugal, especialmente no Algarve.
- As barragens hidroagrícolas passaram de uma média de 53% de capacidade em 2022 para 95% em 2026, refletindo uma recuperação significativa após anos de seca.
- Embora a situação hídrica melhore, as tempestades podem comprometer as colheitas, gerando incertezas sobre a produção agrícola e a necessidade de uma gestão mais eficiente dos recursos hídricos.
O início de 2026 ficou marcado por um “comboio de tempestades” que ainda não parou, mas que já deixou muita água pelo caminho. Ao mesmo tempo que este comboio tem deixado um rasto de devastação, provocando inundações que afetam casas e destroem estradas, tem também enchido barragens que há muito que não estavam tão compostas — no Algarve, deu-se o feito inédito de todas as barragens terem de fazer descargas, de forma a não acumular água a mais. Para o setor agrícola, há boas e más notícias. O armazenamento elevado das barragens traz tranquilidade para os próximos anos, mas a severidade das tempestades pode afetar as colheitas deste ano.
Olhando para a semana que fechou cada um dos meses de janeiro dos últimos cinco anos, notam-se grandes diferenças no enchimento das barragens hidroagrícolas, sobretudo de 2022 para 2026. No final de janeiro de 2022, a água das barragens com fins agrícolas em Portugal, em média, ultrapassava ligeiramente metade da sua capacidade, ficando-se pelos 53%. Cinco anos volvidos, a média de 53% da capacidade preenchida passou a 95%.
Estas conclusões são retiradas com base nos dados do Sistema de Informação do Regadio, responsabilidade da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) enquanto Autoridade Nacional do Regadio. Os números partilhados traduzem a situação das reservas de água nas albufeiras hidroagrícolas. “A nossa monitorização incluiu as barragens com o principal uso agrícola e que estão concessionadas para esse fim”, explica o ministério da Agricultura, ao ECO/Capital Verde.
Mais em detalhe, na última semana de janeiro de 2022, das 44 barragens listadas, quatro apresentavam níveis abaixo dos 20%, e quase metade – 18 – não excediam 50% da capacidade. Apenas cinco (11%) mantinham níveis acima dos 80%. Nos anos seguintes, a média de armazenamento melhorou: subiu dos 53% para rondar os 75%, entre 2023 e 2025.
O número de barragens listadas é superior a partir de 2023, atingindo as 65 barragens, que comparam com as 44 anteriores. A diferença do número de barragens listadas verifica-se porque passaram a ser monitorizadas aquelas que estavam sob gestão direta das CCDR.

Georgete Félix, consultora e investigadora na área da agricultura, assinala que, apesar de a precipitação ter estado presente nos últimos anos, só em setembro de 2025 foi efetivamente revertido o período de seca severa que teve o expoente em 2022 e 2023. Até então, regiões como o Algarve ainda sentiam impactos relevantes. “O único lado positivo desta tragédia [o recente comboio de tempestades] é a recuperação da seca extrema”, refere. Em paralelo, ressalva que as barragens foram conseguindo recuperar não só pela existência de alguma precipitação nos últimos anos, mas também porque foram aplicadas medidas de contenção do regadio: não houve expansão e apostou-se na eficiência.
Em 2026, de volta ao enchimento das barragens, o cenário muda radicalmente face há cinco anos: todas as 66 barragens listadas, exceto cinco, estão em níveis entre os 80% e os 100%. As cinco que fogem à regra dividem-se em dois níveis: as quatro cujo enchimento está entre os 60% e os 80% e uma única, a de Óbidos, que se situava nos 59%. É um mapa praticamente pintado a azul, como pode ver abaixo, em contraste com o de há cinco anos.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
Estes níveis “significam tranquilidade”, afirma José Pedro Salema, CEO e presidente da EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva. Para o gestor, com o armazenamento a chegar a 100%, “cada um desses sistemas [hidroagrícolas] ganha uma grande confiança para encarar o futuro”, embora as perspetivas dependam da capacidade de cada albufeira e do respetivo consumo. “As [albufeiras] mais pequenas reservam água que dá para um ano, as maiores para dois anos, as muito grandes para três”, ilustra.
Feito o quadro geral, há situações onde o otimismo pode ser maior. No Mira, por exemplo, se só se gastarem 40 hectómetros de água por ano – um número realista, já que no ano passado os consumos até ficaram abaixo – a capacidade máxima significa água para cinco anos, mesmo que sejam de seca, observa Salema. No Alqueva, “temos confiança para os próximos três anos”, assinala.
Apesar de ultrapassada a seca extrema, esta ainda “afeta” o país neste momento, na medida em que levou à degradação dos solos, sublinha, por seu lado, Georgete Félix. Os solos saudáveis têm um efeito de esponja natural, permitindo absorver e armazenar a água, o que diminui a velocidade enxurradas e evita inundações de escoamento rápido. Já um solo erodido garante menos resiliência.
Colheitas em risco
Georgete Félix conta que, ainda na semana passada, se deparou com uma vinha “cortada a meio”, em Torres Vedras. “O solo pura e simplesmente cedeu”, indica, em jeito de alerta: as tempestades enchem barragens mas podem levar a uma perda total ou parcial de colheitas, sejam permanentes ou temporárias.
“Os campos agrícolas estão completamente submersos, com muita água. Não vai ser um bom ano agrícola”, vaticina Gonçalo Tristão, presidente da direção do Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR).
Não vai ser um bom ano agrícola.
Tristão indica que, nestas condições, há sementeiras que não se fazem, e há culturas permanentes que “podem ser asfixiadas”. “Se as raízes estiverem debaixo de água várias semanas, a árvore pode ressentir-se e morrer”, afirma. O mesmo não tem conhecimento, para já, de situações destas no país, mas indica que esteve recentemente em Espanha, nas regiões da Andaluzia e Huelva, e foi um dos problemas identificados, em relação às laranjeiras.
No que diz respeito a prejuízos, afirma que podem ser menores caso os agricultores ainda não tenham do seu lado as sementes e os adubos, o que será o caso de alguns. Ao mesmo tempo, há situações em que dá para atrasar a plantação um ou dois meses.
A capacidade de produção fica limitada nalgumas culturas.
O presidente e CEO da EDIA reconhece também que a abundância de água no solo pode atrasar algumas culturas. “Se tiver que fazer sementeiras em fevereiro ou março, provavelmente não vou conseguir”, indica, já que os tratores não conseguem circular em terrenos alagados. A título de exemplo, “as sementeiras do milho vão atrasar-se imenso”, apesar de ser possível semeá-las até julho. O problema dos atrasos é que as produções poderão ficar aquém do esperado. Ao plantar mais tarde, “a capacidade de produção fica limitada nalgumas culturas”, diz.
Olhando às culturas permanentes, Salema afirma que o risco está nas flores. Os amendoais, por exemplo, iniciam agora o período de floração. “Se agora para de chover e essas florações ocorrem sem problema, é um ano excelente”, afere José Pedro Salema. Contudo, se ventos e chuvas fortes derrubarem as flores, “não há amêndoas”. Só com as flores da próxima primavera.
O setor agrícola é altamente exposto a riscos climáticos, é uma fábrica a céu aberto.
No Alqueva, indica que existem muitos campos alagados, e por isso podem haver alguns problemas de drenagem e de algumas doenças, mas “ainda não há estragos de culturas permanentes”. As consequências vão depender da duração e severidade das chuvas e, claro, de cultura para cultura.
Uma outra camada de perda são as infraestruturas. Os ventos e chuvas fortes destruíram estufas, armazéns, equipamentos agrícolas e sistemas de rega, e levaram até à perda de alguns animais. “O setor agrícola é altamente exposto a riscos climáticos, é uma fábrica a céu aberto”, afirma Félix.
Água “a mais” tem dias contados
Apesar da saturação agora provocada pela precipitação que resulta do comboio de tempestades, olhando para o futuro, esta pode ser “chuva de pouca dura”.
“Não podemos agora achar que temos muita água e de repente começarmos a querer expandir produção de culturas muito exigentes [em termos de consumo]”, sublinha a investigadora e consultora. “Temos bons reservatórios, mas não podemos baixar a guarda. Não sabemos o que vem a seguir” diz. Georgete Félix assinala que o expectável é que nos próximos anos a seca regresse, pelo que é necessária “inteligência na gestão dos recursos” para não terem de ser tomadas “medidas drásticas” como as que foram aplicadas no Algarve, sujeito a severos cortes no abastecimento.
Não podemos agora achar que temos muita água e de repente começarmos a querer expandir produção de culturas muito exigentes [em termos de consumo]. (…)Não sabemos o que vem a seguir.
No entender de José Pedro Salema, “Portugal precisa de uma gestão mais profissionalizada da água e investimento na modernização, ciências e alguns novos sistemas”, isto é, novos empreendimentos de fins múltiplos, que pressupõem a construção de barragens. Na Estratégia Água que Une estão identificadas sete, entre elas a de Girabolhos — cujo concurso foi aprovado pelo Governo esta quarta-feira — e a do Alvito. Fora as novas construções que defende, “dezenas de barragens que têm de ser intervencionadas para serem mais eficientes”, indica, alertando para algumas ruturas. Além disso, os mesmos “remendos” têm de ser feitos nas redes. “Precisamos de investir”, defende.
Portugal precisa de uma gestão mais profissionalizada da água e investimento na modernização, ciências e alguns novos sistemas.
A consultora indica ainda que é necessário apostar em mais tecnologia que permita modelos de previsão cada vez mais sofisticados. E acrescenta: “Temos de trabalhar almofadas financeiras para estas situações que são complexas, para serem acionadas em situações de emergência”. Por fim, aponta que os Planos Intermunicipais de Adaptação às Alterações Climáticas têm de estar mais atentos às questões agrícolas e do solo.
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