BRANDS' ECO Impacto da sazonalidade do turismo na prestação de cuidados de saúde: O caso do Algarve
No Algarve, durante o verão, o afluxo de turistas exerce pressão sobre os serviços de saúde. Esta situação, agravada pela escassez de profissionais, dificulta a sua boa prestação.
Em Portugal, os hospitais públicos representam mais de metade da dívida do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e são decisivos na sua insuficiência financeira. Embora o lucro não seja um objetivo dos hospitais públicos, é essencial garantir a sustentabilidade financeira e os recursos necessários para assegurar bons cuidados de saúde aos utentes. Os hospitais têm demonstrado um bom desempenho em termos de acesso, mas uma baixa eficiência/produtividade o que sugere desperdício de recursos. Frequentemente é dada prioridade à gestão financeira, em detrimento da qualidade dos serviços, o que levanta preocupações sobre a administração hospitalar (Matos et al., 2021). O aprofundar do conhecimento acerca da variação da procura pelos cuidados de saúde ao longo do ano poderá contribuir para melhores decisões na alocação dos recursos.
Os hospitais menores, sobretudo localizados no interior e sul do país, apresentam uma escassez de médicos especialistas e alguns praticamente não têm médicos com menos de 55 anos (Ayres de Campos, 2023). Segundo este autor, atualmente muitos profissionais, principalmente de gerações mais novas, não estão interessados em trabalhar no SNS devido à falta de: segurança financeira, identificação com as lideranças hospitalares e políticas para alterar a situação.
A sazonalidade também exerce uma influência substancial na prestação de cuidados de saúde, com variações significativas observadas ao longo do ano (Ministério da Saúde, 2022). Exemplos de fenómenos sazonais são relacionados com o turismo, mas também com certas doenças como a gripe e a covid. Em Portugal, durante o Outono/Inverno, verifica-se um aumento da incidência de infeções respiratórias na população (Al-Vita, 2022). Esta sazonalidade também é observada em várias partes do mundo, onde a procura dos serviços de saúde aumenta durante os meses mais frios (Metz et al., 2024). Por outro lado, a sazonalidade do turismo produz um comportamento atípico num outro período temporal. É nos meses de verão (particularmente julho e agosto) que essa incidência apresenta valores mais altos. Nestes meses, a região do Algarve revela variações sazonais significativas da população, registando a maior taxa de ocupação durante o mês de agosto, o que tem exacerbado a procura por cuidados de saúde durante esse período (INE, 2024).

Durante o verão, uma maior afluência de turistas sobrecarrega os serviços de saúde locais. Esta pressão agrava a escassez de profissionais e dificulta a gestão eficiente dos hospitais e centros de saúde. O objetivo geral deste artigo consiste em investigar a relação entre a sazonalidade do turismo e a procura de cuidados de saúde no Algarve. Objetivos específicos são: identificar as problemáticas sazonais da procura de serviços de saúde na região e discutir soluções para otimizar a alocação de recursos. Para isso, utilizou-se uma abordagem ‘mista’, por meio de uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL) seguida de entrevistas a agentes-chave da saúde na região do Algarve, pelo facto de haver uma lacuna de estudos no tema.
A RSL permitiu identificar padrões globais e desafios relacionados com o impacto do turismo nos serviços de saúde; e as entrevistas forneceram dados qualitativos específicos sobre a realidade local. A RSL evidenciou que, em regiões turísticas internacionais, o turismo aumenta as admissões hospitalares e a pressão no serviço de urgência (Turcato et al., 2023). Por outro lado, as entrevistas com profissionais de saúde locais confirmaram que a região enfrenta desafios semelhantes (com picos de procura no verão) sobrecarregando os serviços de urgência, cuidados intensivos e internamentos. A escassez de recursos humanos e materiais, agravada pelas férias dos profissionais, é um dos principais fatores que comprometem a qualidade dos serviços. A pesquisa feita destaca a necessidade de políticas eficazes para gerir recursos de saúde em regiões turísticas, tais como reforçar infraestruturas hospitalares, contratar mais profissionais e criar protocolos específicos para lidar com a sazonalidade. A colaboração entre setores público e privado e a integração de estudantes da área são sugeridas entre as medidas para aliviar a falta de pessoal durante os períodos críticos. A cooperação entre o setor do turismo e as entidades de saúde pode ser uma ferramenta poderosa para promover a segurança e o bem-estar dos turistas, minimizando os impactos negativos da sua afluência sazonal sobre a saúde pública das comunidades recetoras.
Estas medidas visam não apenas melhorar a resposta do sistema de saúde às flutuações sazonais, mas também mitigar problemas estruturais que afetam o setor, garantindo uma prestação de cuidados de saúde mais eficiente e sustentável para a população residente e turistas. A implementação destas estratégias requer um esforço colaborativo entre as autoridades de saúde, as instituições educativas e a comunidade médica para promover um sistema de saúde mais resiliente e adaptável às necessidades da região.
Autoras: Ema Baptista, Faculdade de Economia (mestre em Gestão de Unidades de Saúde), Universidade do Algarve; Paula V. Martins, Faculdade de Ciências e Tecnologia & CISCA (Centro de Investigação em Sistemas Ciber-físicos do Algarve), Universidade do Algarve e Sílvia Fernandes, Sílvia Fernandes, Faculdade de Economia & CINTURS (Centro de Investigação sobre Turismo, Sustentabilidade e Bem-estar), Universidade do Algarve.
Este artigo expressa apenas a opinião das suas autoras, não representando a posição das entidades com as quais colaboram.
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