Márcia Pereira: “Nem sei como consegui porque era uma empresa sem histórico”
Considera-se "ansiosa ambiental" e viu na engenharia mecânica a oportunidade de criar soluções que ajudem o planeta. Márcia Pereira é CEO da Bandora e partilha, no "E Se Corre Bem", a sua jornada.
Márcia Pereira, CEO da Bandora, é a 65ª convidada do podcast “E Se Corre Bem”. Desde cedo, sentia uma consciência ambiental pouco comum, mas que acabou por influenciar o seu percurso profissional. Anos mais tarde, depois de um curso de engenharia mecânica e alguns trabalhos na área da energia, Márcia Pereira fundou a Bandora, uma empresa que otimiza edifícios e respetivos ares condicionados para promover a sua eficiência energética.
“Eu comecei desde muito miúda a ter uma preocupação com a camada do ozono e com os gases com efeitos de estufa. Na altura, nos anos 90, os meus pais compraram um carro novo que já vinha com ar condicionado, mas era um drama para mim. Os meus pais achavam insuportável porque eu ia toda a viagem a dizer: ´Por favor, não liguem o ar condicionado´. Eu era muito ansiosa ambiental”, começou por dizer.
Curiosamente, a mesma menina que não suportava o ar condicionado, hoje em dia tem uma empresa que lida com estes equipamentos todos os dias. No entanto, até aqui chegar, teve de tomar várias decisões e a primeira foi tirar o curso de engenharia mecânica: “Fui para engenharia também influenciada pelo meu pai, que é mecânico. Por causa disso, sempre tive acesso a materiais elétricos e sempre fiz experiências. Muitas vezes, fazia pequenas instalações com materiais da oficina do meu pai”.
Quando terminou o curso, começou a estagiar numa empresa de ar condicionado, a France Air, mas não achou “interessante” pelo facto de sentir que estava numa função “mais comercial”. Por essa razão, enquanto estagiava, acabou por se candidatar ao programa de doutoramento do MIT Portugal e, em simultâneo, entrou na Agência de Energia. “Entrei na Agência da Energia, que era aquilo que eu queria mesmo fazer, mas fiquei lá nem dois anos. Na altura, o diretor abriu um novo projeto e levou-me com ele”, contou, revelando que esse projeto resultou numa empresa dentro da holding da Glinnt.
“Eu era a nº 2 dessa empresa e, de alguma forma, fiz ali algum intraempreendedorismo. A empresa era na área da sustentabilidade e da energia e era transversal a toda a holding, ou seja, a Glinnt pertence ao universo da Associação Nacional das Farmácias, mas, na altura, o diretor-geral achava que fazia todo o sentido ter esta funcionalidade dentro da holding, com o objetivo de criar as melhores condições energéticas para as farmácias e para os hospitais“, disse.
Apesar de não ter começado a pensar no seu negócio nesse momento, Márcia Pereira reconhece que a aprendizagem que esta função lhe deu a ajudou muito quando abriu a sua startup: “Foi aí que percebi como trabalhar no setor privado e como procurar um financiamento para um determinado projeto. Estávamos no período da Troika, então não havia dinheiro para investir em projetos de sustentabilidade. Foi nessa altura que começaram as primeiras empresas ESCOs – Energy Services Companies, que investiam em projetos de substituição de iluminação por leds, de substituição de equipamentos por outros mais eficientes, e faziam um leasing. Curiosamente, esse é o modelo de negócio da Bandora. Foi aí que comecei a perceber como funcionava o mercado”.
A sua passagem por este cargo terminou quando as farmácias começaram a passar por algumas dificuldades e a Glinnt decidiu vender a Glinnt Energy, a empresa onde era a nº 2. “Ao fazer essa venda, o projeto esvaziou-se e eu pensei: ´Vou fazer consultoria´. Ainda trabalhei durante alguns meses como consultora em projetos de sustentabilidade, eficiência energética e sistemas solares, mas depois recebi uma mensagem no Linkedin da EaseGreen, onde diziam estar à procura de uma pessoa para ser business developer. Inicialmente, achei o projeto interessante, mas estive lá quatro meses e percebi que não era ali que eu ia estar porque o mercado já oferecia soluções equivalentes ao que eles estavam a desenvolver, não era uma novidade”, contou.
Foi nesse momento que começou a pensar na sua startup porque, ao perceber o que falhava no projeto que estava a desenvolver na EaseGreen, descobriu uma solução que a permitia lançar o seu próprio negócio. O hardware que estava a desenvolver na empresa instalava-se na iluminação e permitia, remotamente, reduzir ou aumentar a luminosidade e fazer ajustes com a luz natural com a ajuda de sensores, no entanto era uma solução que já existia: “Foi aí que eu pensei que era preciso criar um controlo mais preditivo e comecei logo a matutar na minha startup”.
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Márcia Pereira, CEO da Bandora, no 65º episódio do podcast "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
"Estávamos no período da Troika (...). Foi nessa altura que começaram as primeiras empresas ESCOs - Energy Services Companies, que investiam em projetos de substituição de iluminação por leds, de substituição de equipamentos por outros mais eficientes, e faziam um leasing. Curiosamente, esse é o modelo de negócio da Bandora. Foi aí que comecei a perceber como funcionava o mercado" Hugo Amaral/ECO -
"Mesmo tendo todo o background de experiência corporate, a partir do momento em que nos lançamos numa empresa parece que fazem um reset a tudo aquilo que está para trás" Hugo Amaral/ECO -
"Cumprimos todos os requisitos de elegibilidade e conseguimos meio milhão de euros. Foi assim que conseguimos contratar as primeiras pessoas, mas atualmente já somos cerca de 23 pessoas" Hugo Amaral/ECO
No entanto, da ideia até concretizar o projeto houve alguns desafios que teve de enfrentar. Estava grávida da segunda filha e tinha “zero investidores”, muito devido à desconfiança que pairava no mercado, mas não só. “Faziam-me uma pergunta constantemente, que era: ´O produto é interessante, mas qual é o teu background?´. Ou seja, eu não era suficiente. Mesmo tendo todo o background de experiência corporate, a partir do momento em que nos lançamos numa empresa, parece que fazem um reset a tudo aquilo que está para trás”, afirmou.
Ainda assim, e sem que nada o fizesse prever, Márcia Pereira conseguiu o seu primeiro cliente numa altura em que a ideia não havia sido testada: “O nosso primeiro cliente foi uma cadeia de fast food e acabou por acontecer tudo com ele. O cliente apareceu e o produto não estava pronto. Eu disse que tínhamos tudo em ambiente de simulação e que nunca tínhamos testado em ambiente real, mas o cliente só nos disse que nos dava o seu restaurante para o testar. A verdade é que, logo no primeiro mês, conseguimos ganhos de 63% de poupança“.
“Como não conseguimos apoio privado, foi fundamental conseguirmos um financiamento de fundos estruturais. Sem isso, não tínhamos conseguido. Ou seja, para nós foi crucial haver este apoio e confesso que nem sei como é que eu consegui porque era uma empresa sem histórico, com um único colaborador, e no ano anterior tinha dado resultados negativos, mas confiaram. Cumprimos todos os requisitos de elegibilidade e conseguimos meio milhão de euros. Foi assim que conseguimos contratar as primeiras pessoas, mas atualmente já somos cerca de 23 pessoas“, continuou a CEO.
Atualmente, a Bandora está também no Qatar e nos EUA, mas quando questionada sobre fazer uma internacionalização na Europa, Márcia Pereira admitiu que já fez algumas tentativas, mas que a burocracia a fez desistir: “Por exemplo, Espanha é um mercado tão burocrático que obrigava a abrir empresa e esse processo era um pesadelo. Não tem nada a ver com Portugal, que eu acho que está no topo da Europa em termos da digitalização de processos. Mas, atualmente, face ao nicho que nós endereçamos, que são as cadeias de fastfood, considero que já estamos no nosso mercado por excelência“.
Enquanto CEO, a sua principal preocupação, além de estar no mercado certo, centra-se em criar inovação e ter uma equipa eficaz ao ponto de lhes confiar tarefas que, até determinado momento, estavam bloqueadas em si. “Essencialmente, eu procuro boas pessoas, e aquilo que eu sinto é que eles são bastante melhores do que eu era, muito mais focados. Tenho pessoas muito válidas, com um excelente background, um excelente currículo, que vêm de excelentes universidades, tanto nacionais como internacionais. Todos os dias trabalho para que, a partir do momento em que contrato mais pessoas, esteja a libertar-me de temas que estavam comigo. Portanto, quando olho para trás, posso dizer que correu e está a correr bem“, concluiu.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e dos Vinhos de Setúbal.
Pode assistir ao episódio completo aqui:
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