Exclusivo Produtora de motores de foguetão Hypermetal busca 5 milhões e tem na mira projeto com Dassault Aviation

A empresa de Vila Nova de Gaia tem no aeroespacial a sua maior fonte de receita, mas este ano está apostada na diversificação e em colocar o setor da Defesa a pesar 25% nos resultados.

A produtora de motores de foguetão de Vila Nova de Gaia Hypermetal quer, até final de fevereiro, fechar uma ronda de financiamento de até cinco milhões e tem na mira “com potencial muito real de execução, um projeto relacionado com um veículo espacial envolvendo a Dassault Aviation”. Este ano a companhia estima atingir 1,2 milhões de euros de faturação.

A empresa, com a maioria da atividade focada no setor aeroespacial, investiu recentemente numa máquina — a NXG XII 600 Laser Beam Powder Bed Fusion (PBF-LB) — “configurada para trabalhar com Inconel, uma superliga de níquel amplamente utilizada em aplicações aeroespaciais e de defesa devido à sua resistência mecânica e térmica em ambientes extremos”, explica Afonso Nogueira, CEO da Hypermetal, ao ECO/eRadar.

Afonso Nogueira, CEO da Hypermetal.

Este equipamento — que exigiu um investimento de cerca de 5 milhões de euros, dos quais 1,83 milhões de euros financiados pelo PT2030, com o remanescente a ser assegurado através de uma combinação de capitais próprios, dívida bancária e investidores — permite à empresa, sedeada na zona industrial de São Caetano, em Vila Nova de Gaia, ganhos de escala, uma produção mais económica e redução de tempos de produção.

Na prática, permite o “fabrico de componentes estruturais e de propulsão de grande dimensão numa única construção”, dando ainda à empresa “capacidade de integrar cadeias de fornecimento europeias com requisitos de produtividade e repetibilidade elevados”, explica o CEO.

“No último ano, cerca de 75% da nossa atividade esteve ligada ao setor espacial, sobretudo sistemas de propulsão para lançadores. Produzimos motores de foguetão utilizando a mesma tecnologia de manufatura aditiva metálica empregue, por exemplo, pela SpaceX nos motores Raptor”, adianta. “Com esta nova capacidade produtiva, passamos de uma lógica mais próxima de prototipagem avançada para uma lógica clara de produção industrial certificada”, sintetiza Afonso Nogueira.

Estamos muito próximos de fechar um contrato relevante com um dos principais players mundiais do setor aeroespacial e temos produções já acordadas com outro grande grupo internacional da área da propulsão e defesa, tendo iniciado o processo de qualificação para nos tornarmos direct production suppliers.

Afonso Nogueira

CEO da Hyper Metal

A companhia recebeu ainda recentemente a certificação EN9100, uma norma específica para a indústria aeroespacial e de defesa — “que estabelece requisitos rigorosos ao nível de controlo de processos, rastreabilidade, gestão de risco, qualificação de fornecedores e garantia de qualidade” — abrindo-lhe outras oportunidades. “Esta certificação é um requisito fundamental para integrar cadeias de fornecimento de grandes grupos internacionais e reforça a nossa posição como parceiro industrial qualificado“, explica.

O investimento feito na capacidade de produção já está a dar frutos, admite Afonso Nogueira. “Temos vários NDA [Non Disclosure Agreements] assinados, processos de qualificação em curso e pedidos de cotação ativos”, diz. “Estamos muito próximos de fechar um contrato relevante com um dos principais players mundiais do setor aeroespacial e temos produções já acordadas com outro grande grupo internacional da área da propulsão e defesa, tendo iniciado o processo de qualificação para nos tornarmos direct production suppliers. Este é um percurso exigente, com duração estimada de cerca de dois anos, que culmina na produção de flight parts“, revela o gestor.

Diversificar para setor de Defesa

No ano passado, a empresa registou cerca de 300 mil euros de faturação.Para 2026 estimamos atingir 1,2 milhões de euros, com aproximadamente metade desse valor já contratualizado. Este crescimento resulta do progresso natural da empresa, e é também consequência direta da certificação EN9100, que nos permite participar em processos de qualificação mais exigentes e responder a requisitos típicos de programas aeroespaciais e de defesa, e do investimento verdadeiramente diferenciador que estamos a fazer, que nos posiciona num patamar industrial distinto”, aponta Afonso Nogueira.

O setor aeroespacial representa a maioria da atividade (cerca de 75%), principalmente sistemas de propulsão, e o restante correspondente a projetos industriais on demand, mas para 2026 “estimamos uma maior diversificação, com o setor da defesa a representar aproximadamente 25% da atividade”, refere.

“O nosso objetivo é manter um crescimento sustentado, acompanhando a industrialização dos contratos em curso e a integração em cadeias de fornecimento europeias. Acreditamos que Portugal pode ser fornecedor industrial estratégico da nova cadeia europeia, desde que consiga combinar a inovação tecnológica com capacidade produtiva certificada”, considera.

Recentemente, a empresa esteve presente no Industry Day realizado pela embaixada de França em Portugal. “Temos participado ativamente em Industry Days promovidos pela idD e pelo AED Cluster, acompanhando tecnicamente os grandes projetos nacionais de aquisição no domínio da defesa e apresentando as nossas capacidades como parceiro industrial”, diz. “No caso específico do Industry Day em França, foram discutidos projetos de cooperação no âmbito do SAFE“, adianta, referindo-se ao programa de empréstimos europeu para o qual a Comissão Europeia mobilizou um pacote de 150 mil milhões de euros.

Um encontro que gerou expectativas de concretização de negócio positivas. “Para além de reuniões institucionais, reunimos com nove empresas francesas. Destacaria, com potencial muito real de execução, um projeto relacionado com um veículo espacial envolvendo a Dassault Aviation“, revela. “O balanço é claramente positivo, sobretudo ao nível de posicionamento estratégico e criação de parcerias industriais.”

Ronda de financiamento em curso

Para além do investimento feito recentemente em equipamento, a “curto prazo” a Hypermetal pretende “montar dois laboratórios internos de qualidade”: “um de pré-produção (Powder & Process Qualification Lab), para validação de matéria-prima e qualificação de processo”, e um segundo para “verificação independente e aprovação de lotes (Independent Verification & Batch-Approval Lab), com capacidade interna para ensaios de tração, dureza, fadiga e controlo tridimensional de geometria toleranciada”.

“Num horizonte de um a dois anos poderá fazer sentido investir numa tecnologia complementar, como uma máquina DED (Directed Energy Deposition). Entre dois a quatro anos, prevemos a possibilidade de adquirir uma segunda máquina de grande formato equipada com outro material”, elenca. E a cinco anos, “poderá ser viável a aquisição de equipamentos ainda mais sofisticados, que ainda não estão no mercado, mas cujo desenvolvimento estamos a acompanhar de perto”.

Para além do investimento produtivo, a Hypermetal lidera o projeto de I&D “A3Shell”, aprovado no âmbito do PITD/FEDER, com um investimento total de 1,1 milhões de euros, detalha o CEO. “O projeto, desenvolvido em copromoção com a Universidade de Coimbra e o Instituto Pedro Nunes, tem como objetivo investigar novos métodos de fabrico aditivo de estruturas metálicas estanques para o setor aeroespacial, combinando modelação numérica avançada e machine learning para mitigar defeitos e deformações durante o processo produtivo”, descreve.

“Esta componente de I&D é complementar ao investimento industrial, permitindo-nos não apenas produzir, mas também desenvolver tecnologia própria e diferenciar-nos pela qualidade e robustez dos processos”, explica.

Estamos a estruturar um levantamento com um target até 5 milhões de euros, alinhado com o plano de investimento industrial e tecnológico em curso. A ronda já está em curso e pretendemos encerrá-la até ao final de fevereiro.

Afonso Nogueira

CEO da Hypermetal

Estes desenvolvimentos industriais e tecnológicos têm vindo a atrair o interesse de investidores”, reconhece Afonso Nogueira, admitindo que em breve a empresa deverá receber uma injeção de capital. “Estamos neste momento a estruturar uma ronda de investimento que visa reforçar a nossa capacidade de crescimento e acelerar a consolidação da Hypermetal como player industrial de referência no setor aeroespacial e de defesa”, diz.

“Estamos a estruturar um levantamento com um target até 5 milhões de euros, alinhado com o plano de investimento industrial e tecnológico em curso. A ronda já está em curso e pretendemos encerrá-la até ao final de fevereiro”, detalha quando questionado pelo ECO/eRadar sobre o objetivo de captação.

Mas, assegura, o “plano de investimento não está dependente exclusivamente desta captação: o que não for levantado através de investidores será assegurado por financiamento bancário e capitais próprios, mantendo assim a execução do projeto plenamente garantida”.

Planos de crescimento que se irão refletir em reforço de equipa, atualmente, de nove trabalhadores. “No segundo semestre de 2026 e no primeiro de 2027 prevemos praticamente duplicar a equipa, reforçando sobretudo com perfis de engenharia (materiais, mecânica e física), operadores especializados e funções administrativas e de suporte às operações e qualidade”.

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