Tempestades ‘afundaram’ preço grossista da eletricidade. Mas nas próximas semanas volta a subir

Depois de a chuva e vento fortes terem contribuído para uma queda a pique nos preços grossistas da eletricidade, nas próximas semanas deverão recuperar.

O mercado grossista da eletricidade, onde os produtores vendem os seus ‘eletrões’ aos comercializadores, voltou para descer a níveis negativos neste mês de fevereiro. As tempestades, que trouxeram ventos fortes e água em abundância, acabaram por ditar esta “onda” de preços baixos que se vive no mercado grossista, e que pode ser aproveitada pelos clientes que têm a fatura indexada a este mercado. Não deve, contudo, durar muito: a previsão é que nas próximas semanas os preços voltem a subir.

Os preços no mercado ibérico de eletricidade, olhando em particular para o polo português, marcaram, em janeiro, uma média de 71,19 euros por megawatt-hora. Um número que se alterou radicalmente a partir do dia 30, quando os preços desceram para cerca de cinco euros por MWh. Em fevereiro, até ao dia 13, a média desceu para os 3,48 euros por MWh.

O valor mais baixo registado, desde o início do ano, foram 50 cêntimos negativos, atingidos nos dias 31 de janeiro e 2 de fevereiro. Desde 1 de junho de 2025 que os preços não desciam a níveis tão baixos — nesse dia, chegaram a marcar -5,48 euros por MWh. Estes mínimos contrastam com os 200 euros por MWh a que a negociação chegou no dia 19 do mesmo mês. Os preços também não chegavam a níveis tão elevados desde outubro do ano passado, quando tocaram os 225 euros por MWh.

Os preços baixos de eletricidade no mercado diário estão sobretudo relacionados com o excesso de água e vento”, que Portugal e Espanha têm tido nas últimas semanas, afirma ao ECO João Nuno Serra, presidente da Associação dos Comercializadores de Energia no Mercado Liberalizado. O mesmo faz o paralelo com os períodos anteriores, mais próximos de abril, nos quais se registou abundância de água, a qual se refletiu em preços em torno de zero.

“As recentes tempestades contribuem para o aumento da produção de renováveis, o que, por sua vez, reduz os custos de produção de energia”, complementa, por seu lado, José Trovão, indicando que os períodos de muita chuva e vento forte criam “um excesso de oferta” que o consumo doméstico e industrial não conseguem absorver totalmente. Além disso, acrescenta Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, como as energias renováveis têm “custos marginais muito baixos”, diminuem a necessidade de recorrer a centrais a gás natural, cuja eletricidade é mais cara, pressionando em baixa os preços da eletricidade do mercado grossista.

No que diz respeito às empresas do setor, os impactos destes preços baixos divergem. “Para quem produz é penalizador, porque vende a sua eletricidade a preço muito baixo ou mesmo zero”, afirma João Nuno Serra, que é também presidente executivo da Enforce, empresa que oferece soluções de energia solar. Quando há excesso de sol, vento ou chuva, todos os produtores produzem ao mesmo tempo, o que faz o preço cair “drasticamente” no momento em que têm mais energia para vender, explica o ComparaJá, para depois alertar: “Isto pode afetar a rentabilidade de novos projetos que não tenham contratos de venda a preço fixo (PPAs) garantidos”.

Já para quem compra a eletricidade no mercado grossista, que são em grande parte os comercializadores, “pode ser uma vantagem, se vendem a preços fixos aos seus clientes e não tinham realizado coberturas de preço”, assinala João Nuno Serra. A descida do preço de compra da eletricidade permite reduzir custos de aquisição e melhorar margens ou oferecer tarifas mais competitivas, realça ao ECO Paulo Rosa. No caso de comercializadores mais pequenos e sem produção própria, de acordo com o responsável do ComparaJá, pode haver dificuldades em competir com os concorrentes, caso não possuam boas estratégias de cobertura de risco.

A água é descarregada da Barragem da Aguieira após atingir a capacidade máxima em Penacova, Coimbra, Portugal, a 12 de fevereiro de 2026. Às 08h00, a bacia do Mondego era a única bacia continental em risco, com o volume de armazenamento da Aguieira acima dos 99%, próximo do limite de segurança para esta infraestrutura.EPA/PAULO NOVAIS

Consumidores só beneficiam se tiverem tarifas indexadas. Preços devem subir para a semana

Caso a baixa de preços de mercado seja momentânea, então não haverá nenhum efeito significativo para os consumidores, independentemente de estarem com tarifas simples ou indexadas”, afirma ao ECO José Trovão. “O impacto nos consumidores finais é limitado” e “dificilmente se reflete de forma direta na fatura das famílias”, concorda o economista sénior do Banco Carregosa, salientando o peso de outras componentes do preço da eletricidade que vem na fatura, como as chamadas Tarifas de Acesso às Redes.

Contudo, o caso muda de figura se os preços reduzidos se mantiverem por um período mais alargado, ressalva Trovão, em particular se estivermos a olhar para os consumidores com preço indexado, cuja fatura oscila conforme o preço do mercado grossista.

Para os clientes que escolheram estes tarifários indexados, a frequência da atualização dos preços varia consoante o contrato. Para contratos com atualização mais frequente, por exemplo diária, “os consumidores beneficiarão destas quedas”, garante Trovão. “Todavia, devem estar atentos, porque os preços baixos não se irão manter por muito tempo”, ressalva João Nuno Serra.

De acordo com os dados recolhidos pelo ECO/Capital Verde, na próxima semana os preços do mercado grossista da eletricidade deverão subir, para atingirem uma média de 17,5 euros por MWh, e dão novo salto para os 43,5 euros por MWh na semana seguinte. Olhando mais para a frente, os contratos futuros apontam para uma média de 32,25 euros por MWh no segundo trimestre e acima de 60 euros no terceiro e quarto, uma trajetória descrita como “habitual” por fontes do setor.

Para os consumidores com contrato a preço fixo, ou seja, a maioria, os preços baixos no mercado grossista não têm impacto direto na fatura atual, evidencia o ComparaJá. Ainda assim, “podem trocar de comercializador a qualquer momento”. O conselho de José Trovão é que, caso o consumidor goste de acompanhar o mercado de energia, vá oscilando entre tarifas simples e indexadas, consoante seja mais barato. “As tarifas indexadas são mais baratas que as tarifas simples entre dois a três meses por ano”, afirma.

Se, por outro lado, o consumidor não tem tempo ou disponibilidade para acompanhar o mercado de energia diariamente, a recomendação é que opte por tarifas simples, e que faça uma simulação anual ou semestral, para perceber se está com o comercializador mais adequado para o seu caso.

Ainda assim, fora do segmento doméstico, há vencedores. “Quem mais beneficia de preços grossistas baixos são os grandes consumidores industriais e empresariais, que compram eletricidade diretamente indexada ao mercado e conseguem aproveitar imediatamente as descidas”, aponta Paulo Rosa.

Funcionários da E-Redes procedem aos trabalhos de recuperação da rede elétrica de média tensão devido aos estragos provocados pelo mau tempo, em Leiria, 09 fevereiro 2026. Um homem morreu hoje e outro ficou ferido num acidente de trabalho, em Leiria, quando reparavam estruturas elétricas para a E-Redes danificadas pela tempestade Kristin.PAULO CUNHA/LUSA

Preços mais baixos em Portugal do que em Espanha

Geralmente, os preços grossistas da eletricidade em Portugal e em Espanha andam taco a taco, já que formam um mercado comum, o chamado Mibel, e estão fortemente interligados, funcionando em sintonia. Contudo, desde meados de janeiro, tem-se vindo a notar alguma divergência de preços entre os dois países, salienta Paulo Rosa, economista sénior no Banco Carregosa.

A somar-se a este comportamento pouco comum, continua, houve a inversão da tendência habitual de, sempre que há divergência, o beneficiado ser o mercado espanhol, já que possui maior produção de energia solar. Nos últimos dias, Portugal saiu favorecido, apresentando preços mais baixos que os do país vizinho.

Mas porquê? Em primeiro lugar, “a energia hídrica tem um peso relativo maior em Portugal do que em Espanha”, indica o economista. Depois, as interligações elétricas entre os dois países são limitadas, o que pode ditar que nem toda a energia barata disponível passe para o outro lado da fronteira.

“Assim, enquanto no verão é o solar espanhol que pressiona os preços em baixa durante o dia, num inverno chuvoso como o atual, é Portugal que regista preços mais baixos, graças à forte produção de energia hídrica”, conclui Paulo Rosa.

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