Ataques de ransomware disparam 52% em 2025. Portugal sofreu 28

IA está a acelerar ataques e a proliferação de "Crime-as-a-Service", com os grupos criminosos a criarem uma espécie de kits, dando acesso aos 'não especialistas' a esta atividade criminosa.

Os ataques de ransomware a nível mundial dispararam 51,5% no ano passado, com a conflitualidade geopolítica e a inteligência artificial a acelerar o ritmo, mas Portugal, com 28 ataques, permanece como um dos países menos afetados por este tipo de atividade maliciosa de extorsão.

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No ano passado foram registados um total de 7.701 incidentes de ransomware a nível global, mais 51,5% do que em 2024. Portugal registou 14 ataques no segundo semestre, para um total de 28 no ano passado, o que indica uma atividade de ransomware estável, mas relativamente baixa, em comparação com outros países europeus, aponta o relatório “Cyber Threat Intelligence”, da Thales, conhecido esta quarta-feira.

O nível deste tipo de ameaça tem vindo a crescer. Em 2022, registava-se ‘apenas’ 2.953 ataques desta natureza.

Fonte: “Cyber Threat Intelligence”, da Thales.

O setor industrial é o mais ameaçado — com 2.801 empresas afetadas —, representando 36,37% do total, seguido pelo setor de consultoria com 948 ataques (12,31%), e pelo setor de serviços com 620 ataques (8,05%), aponta o relatório. O setor financeiro, com 533 ataques (6,92%), o de saúde com 516 (6,70%), e de tecnologia com 404 (5,25%) estão também entre os mais visados.

 

Fonte: “Cyber Threat Intelligence”, da Thales.

 

Os Estados Unidos, com 3.946 ataques, representam mais de metade dos incidentes registados (51,23%), seguido do Canadá com 411 ataques (5,34%), Alemanha com 296 (3,84%) e Reino Unido com 268 (3,48%). Mas há ainda a destacar ataques a organizações de países como França, com 175 ataques (2,27%), Itália com 173 (2,25%), Espanha com 164 (2,13%), Brasil com 146 (1,90%), Austrália com 119 (1,55%), e Índia com 117 ataques (1,52%).

O número de grupos criminosos dedicados a esta atividade tem vindo igualmente a aumentar. No ano passado foram identificados 63 novos grupos, um aumento de 37% em relação a 2024, um disparo de 97% em relação a 2023 e um crescimento de 232% em relação a 2022, alerta o relatório.

Mas há três grupos particularmente ativos. O Qilin foi aquele que realizou mais ataques de extorsão (1.032 ataques), seguido pelo Akira (770 ataques) e pelo Cl0p (436 ataques). “Juntos, esses três grupos foram responsáveis por aproximadamente 29% de todos os ataques de ransomware registados em 2025, sublinhando a influência contínua de um pequeno conjunto de operações bem estabelecidas”, pode ler-se no relatório.

Fonte: “Cyber Threat Intelligence”, da Thales.

 

Inteligência Artificial como fator de aceleração

Os ataques impulsionados por IA “amadureceram”, obrigando as equipas a repensaram a forma como planeiam a defesa. “Este ano passamos da teoria à prática”, aponta Hugo Nunes, CTI team leader da Thales, num encontro com jornalistas, apontando que esta tecnologia está a auxiliar parte dos ataques que as empresas estão a ser sujeitas.

“Os atacantes estão cada vez mais a usar inteligência artificial para automatizar grande parte da cadeia dos ciberataques: desde o reconhecimento e a descoberta de vulnerabilidades até à criação de exploits, recolha de credenciais e movimentação lateral”, elenca o relatório. “A grande maioria das organizações já enfrentou ciberataques impulsionados por IA, com um conjunto de estimativas que sugere que quase 87% das organizações sofreram um incidente impulsionado por IA no ano passado e que o phishing gerado por IA agora representa mais de 80% das ameaças por e-mail em muitos ambientes”, aponta o documento.

“A capacidade da IA de criar autonomamente conteúdos convincentes de engenharia social, analisar conjuntos de dados massivos para padrões de vulnerabilidade e dimensionar tarefas repetitivas permite que os adversários operem mais rapidamente e com muito
menos recursos humanos”, refere ainda.

Um desses ataques ocorreu em setembro do ano passado, com os atacantes a manipularem o “Claude Code para conduzir cerca de 80 a 90% do fluxo de trabalho de intrusão de forma autónoma, visando cerca de 30 organizações nos setores de tecnologia, finanças, indústria de produtos químicos e governo”, exemplifica.

“A IA realizou tarefas normalmente reservadas a equipas humanas: sondar sistemas, identificar pontos fracos, criar e implementar código de exploração e extração de dados confidenciais, com supervisão mínima e à escala da máquina, destacando tanto como a IA ofensiva pode operar de forma independente como os controlos atuais podem ser contornados”, detalha.

A IA também acelerou o modelo “Crime-as-a-Service”, criando uma espécie de kits para não especialistas, o que “reduziu as barreiras técnicas para criminosos e facilitou fraudes em larga escala, incluindo campanhas que imitam entidades como a Polícia Judiciária e a Interpol”, alerta a Thales.

Defesa entre os setores menos atacados

Apesar do aumento das tensões geopolíticas, com grupos ‘patrocinados’ por Estados (Rússia, China, Coreia do Norte, Irão…), o setor de defesa foi dos menos atacados no ano passado, com um total de 68 ataques. “A atividade foi mais pronunciada durante o primeiro semestre do ano, com 41 ataques registados, e diminuiu para 27 ataques no segundo semestre, indicando uma clara redução na pressão do ransomware contra organizações relacionadas com a defesa ao longo do tempo”, refere o relatório.

“Com foco no segundo semestre de 2025, os ataques de ransomware contra o setor de defesa representaram aproximadamente 0,7% de todos os incidentes de ransomware registados (27 de um total de 3.926 ataques)”, diz.

Em termos de autoria, o Qilin foi o”grupo observado com mais frequência, ligado a cinco ataques, enquanto o Sinobi, o Safepay, o WorldLeaks, o Play e o Akira foram associados a dois incidentes cada”, refere. “Todos os restantes grupos de ransomware estiveram ligados a ataques únicos e isolados, destacando a ausência de campanhas de ransomware sustentadas ou em grande escala direcionadas ao setor de defesa durante o segundo semestre do ano.”

Portugal situação mantém-se estável

Ransomware, fugas de dados e interrupções de IT constituem agora os principais perigos para a segurança nacional e estabilidade económica em Portugal.

“O hacktivismo registou uma atividade notável, impulsionada maioritariamente por grupos pró-Rússia que visaram instituições públicas e infraestruturas críticas. Destacam-se campanhas de desinformação, como a do grupo NONAME057(16), que alegou falsamente um “apagão” na Península Ibérica, e ataques mais concretos do grupo Z-PENTEST contra sistemas de gestão de águas e saneamento. Outros grupos, como o Dark Storm Team e o Z DIPLOMAT, centraram-se em ações com objetivos ideológicos, utilizando ataques Distributed Denial of Service e “defacements” (alteração ilegítima do conteúdo página web) para atingir os seus objetivos”, refere a Thales.

“No domínio do malware, Portugal enfrentou campanhas sofisticadas tanto em dispositivos móveis como em ambientes corporativos. O trojan de acesso remoto ‘PlayPraetor’ evoluiu para uma operação em larga escala dirigida a utilizadores Android, enquanto o trojan ‘Lampion’ impactou computadores, recorrendo a táticas avançadas de engenharia social, como o ‘ClickFix’. Estas campanhas incidiram especificamente em setores de elevado valor, comprometendo organizações nas áreas governamental, financeira e de transportes”, aponta a Thales.

Fonte: “Cyber Threat Intelligence”, da Thales.

A economia do cibercrime e a fraude digital também se “intensificaram”, com a atividade na “dark web associada a Portugal fortemente centrada na exfiltração de dados e na venda de acessos iniciais a redes corporativas. Os setores do comércio eletrónico e da banca foram os principais alvos, refletindo uma motivação financeira clara”, refere

O ransomware manteve uma atividade “estável”, com Portugal a registar 14 ataques no segundo semestre (28 no total do ano). “O país ocupa a 27.ª posição no ranking global de vítimas, muito abaixo de países vizinhos, como Espanha ou França”, refere.

Fonte: “Cyber Threat Intelligence”, da Thales.

Também em Portugal, o grupo Qilin lidera em ataques, concentrando-se no setor industrial, mas trata-se de “ameaças fragmentadas e oportunistas, sem evidências de campanhas sustentadas ou coordenadas por um único operador”.

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