Exclusivo Sound Particles entra na Defesa e já tem pilotos a decorrer

Empresa de Leiria que desenvolveu uma tecnologia de som 3D com recurso a IA, usada em filmes como StarWars ou Dune, está a estender a sua aplicação a áreas como sonares e deteção de drones.

Nuno Fonseca, CEO da Soundparticles

Depois de ver a sua tecnologia de som 3D com IA a ser usada na produção de filmes como Dune, Missão Impossível, Oppenheimer ou StarWars, a Sound Particles está a expandir para a área de defesa e já tem vários pilotos a decorrer. Para impulsionar a nova área, a deeptech de Leiria está a preparar uma ronda de investimento. “Gostaríamos de fechar a ronda nas próximas semanas”.

“Para ser franco, nunca nos passou pela cabeça usar a nossa tecnologia para a área da Defesa, mas a dada altura percebemos que há vários problemas na Defesa, que podem ser resolvidos com Inteligência Artificial aplicada ao som“, comenta Nuno Fonseca, CEO da Sound Particles, ao ECO/eRadar quando questionado sobre o que motivou a empresa, mais habituada a ver a sua tecnologia a ser usada em videojogos como Fortnite ou séries de TV como Guerra dos Tronos ou Stranger Things ou a colaborar com vencedores de Grammy — caso de Justin Gray, que recebeu para Immersed o Grammy de melhor álbum com som imersivo, no ano passado tinha sido a vez de Peter Gabriel com o álbum i/o (In-Side Mix) —, a entrar no setor da defesa.

“O nosso software é, provavelmente, a melhor ferramenta no mundo inteiro para gerar a quantidade massiva de dados necessária para treinar estes sistemas. Ou seja, temos uma vantagem competitiva que nem imaginávamos”, justifica o CEO.

Pilotos a decorrer

A empresa desenvolveu uma tecnologia de som 3D, já usada por exemplo na produção de som para Indiana Jones, que no caso da Defesa pode ter várias aplicações, como deteção de drones. Nuno Fonseca detalha.

“Todos já percebemos que os drones passaram a ter um papel fundamental na defesa, no entanto, os sistemas atuais de deteção apresentam limitações, quer sejam radares (objetos demasiado pequenos são detetados com dificuldade) ou câmaras (que não funcionam bem à noite)”, descreve.

“Usando microfones 3D com IA, consegue-se detetar drones (e as suas posições) a partir do som que fazem. Mas o problema é que para se usar IA, são precisos milhares de horas de gravações, perfeitamente anotadas segundo a segundo, algo que é muito complicado de fazer manualmente”, continua.

A mais-valia da tecnologia da Sound Particles é que “consegue gerar milhares de horas de sons (uns com drones, outros apenas como sons normais da rua), permitindo o treino de redes neuronais complexas e assim a criação de sistemas de elevada precisão“, sintetiza.

Já temos pilotos a decorrer. Além disso, estivemos recentemente num evento da NATO no estrangeiro, onde tivemos a oportunidade de apresentar a vários players internacionais, a nossa tecnologia.

Nuno Fonseca

CEO da Sound Particles

Mas não tem aplicação apenas à deteção de drones. “Outra área particularmente interessante acontece debaixo de água. Aí, o som é ‘rei e senhor’ — nem radares nem câmaras funcionam, e os sonares (baseados em som) são os olhos que permitem ver o que se passa nas redondezas“, aponta. “Como pode imaginar, mais uma vez, o conhecimento de topo da Sound Particles na área do som 3D, alinhado mais uma vez à área da IA, permite fazer coisas verdadeiramente disruptivas”, garante.

Estes são apenas dois exemplos. “Há ainda outras aplicações que, no momento, não nos é possível referir”, diz, sem mais detalhes.

Neste momento, a empresa já está a testar a aplicação desta tecnologia no terreno. “Já temos pilotos a decorrer. Além disso, estivemos recentemente num evento da NATO no estrangeiro, onde tivemos a oportunidade de apresentar a vários players internacionais, a nossa tecnologia”, refere.

“Temos contactos com vários stakeholders do setor que, por motivos de NDA, não podemos referir, mas que representam o melhor do que se faz na área da Defesa em Portugal, quer no setor público quer no privado”, diz apenas, sem revelar mais pormenores.

Bruxelas tem estratégia para drones

A entrada na empresa nova área surge numa altura em que na Europa há um crescente foco na defesa do continente, após a invasão russa da Ucrânia ter colocado o tema na lista de prioridades da região, e numa altura em que a tensão geopolítica se agrava e as relações com o aliado americano — e o papel da NATO na defesa da região — já viveram dias melhores.

A Europa precisa de reforçar a sua área da Defesa, e também é óbvio para todos que a produção de drones e tecnologia anti-drones tem de ser uma das prioridades. E Portugal não pode ficar para trás.

Nuno Fonseca

CEO da Sound Particles

Bruxelas tem vindo a avançar com inúmeros pacotes de investimento, só para o programa de empréstimos SAFE foram 150 mil milhões de euros — Portugal garantiu uma fatia de 5,8 mil milhões, com o primeiro cheque de mais de 876 milhões a chegar até março —, havendo um foco na aceleração da implementação de soluções inovadoras do ecossistema de empreendedorismo em soluções para as Forças Armadas.

No caso dos drones, equipamentos que têm ganhado maior relevância no setor de defesa, a Comissão Europeia avançou na semana passada com uma proposta para aumentar não só as capacidades da região se defender de ataques, como, em simultâneo, aumentar a sua produção deste tipo de equipamentos. Em cima da mesa está um envelope de 400 milhões.

“Obviamente, a Europa precisa de reforçar a sua área da Defesa, e também é óbvio para todos que a produção de drones e tecnologia anti-drones tem de ser uma das prioridades. E Portugal não pode ficar para trás”, comenta Nuno Fonseca.

Ronda de investimento na mira

Em maio de 2022, foi notícia a ronda de investimento de 2,5 milhões de euros, coliderada pela Indico Capital Partners, pela Iberis, e com participação do Fundo 200M, da Sound Particles, e agora a empresa está a preparar uma nova injeção de capital para impulsionar esta nova fase, admite o CEO e cofundador. “Como deeptech, em que estamos sempre a avançar face ao conhecimento existente e, dada a complexidade dos desafios tecnológicos e a multidisciplinaridade das áreas de trabalho, podemos estar a falar de investimentos de vários milhões de euros, especialmente em áreas mais complexas como o meio subaquático“, diz.

“Estamos neste momento à procura de investidores. Obviamente, não podemos fazer omeletes sem ovos, e para criar tecnologia de ponta a nível mundial, é preciso uma grande aposta em investigação e desenvolvimento”, diz, preferindo nesta fase não adiantar qual o valor target para essa injeção de capital

“Preferimos não divulgar publicamente esses valores. Quanto ao timing, estamos já em conversações com alguns investidores, e gostaríamos de fechar a ronda nas próximas semanas“, diz apenas.

Trabalhar no pós-Kristin

Neste momento a Sound Particles conta com 20 colaboradores, incluindo quatro doutorados e três autores de livros. “Uma equipa absolutamente fantástica, que cobre as mais diversas áreas (da Engenharia Informática à Física, do Áudio profissional à Inteligência Artificial). E ainda recentemente reforçámos a equipa com dois seniores nas áreas da física computacional e do desenvolvimento de sistemas críticos. E queremos continuar a crescer”, assegura o CEO.

A empresa de Leiria está, como toda a região centro, ainda a lidar com o impacto da depressão Kristin que arrasou infraestruturas de eletricidade, comunicações e deixando muitas empresas com a capacidade de produção comprometida.

No caso da Sound Particles “o pior impacto foi na vida das pessoas”, diz Nuno Fonseca. “Muitos tiveram danos significativos nas suas casas ou em casas de familiares, outros continuam ainda hoje (passadas semanas) sem energia, água e comunicações, e todos acabam por precisar de tempo para colocar as suas vidas novamente em pé: ir à seguradora, reparar os telhados, pedir orçamentos de construção civil, ajudar pais, avós, tios e primos com as suas casas”, descreve.

Como empresa, temos o dever de permitir às pessoas que organizem novamente as suas vidas. Obviamente, traduz-se em impactos de produtividade”, reconhece. E dá o seu próprio exemplo. “Para alguém como eu que ainda não tem energia em casa (passaram semanas), posso afirmar que tem um custo físico e mental muito significativo.”

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