Maria Luís Albuquerque defende seguradoras como “motor de investimento” da economia europeia

A comissária europeia defendeu que as seguradoras devem passar a ser investidores estratégicos ao serviço da economia e do crescimento europeu, e lembrou capital de longo prazo não pode ficar parado.

Num mundo sacudido por tensões geopolíticas, catástrofes climáticas e uma aceleração tecnológica sem precedentes, a Europa precisa de respostas à altura. E, para Maria Luís Albuquerque, comissária europeia para os Serviços Financeiros e União da Poupança e dos Investimentos, parte decisiva dessas respostas passa por um setor que muitos ainda veem apenas como um mecanismo de proteção.

Esta quinta-feira, no Fórum Económico Seguros promovido pela Associação Portuguesa de Seguradores (APS), no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a comissária europeia defendeu que as seguradoras têm de ir além da tradicional gestão do risco e assumir um papel de investidor institucional estratégico ao serviço da economia europeia.

Maria Luís Albuquerque abriu o discurso a enquadrar o momento atual: tensões geopolíticas, fragmentação económica, eventos climáticos extremos e mudanças tecnológicas aceleradas estão a redesenhar os riscos que as sociedades e as economias enfrentam.

Maria Luís Albuquerque reforçou o papel das seguradoras enquanto grandes investidores institucionais, notando que gerem poupanças de longo prazo e têm “um horizonte temporal único.”

Para a comissária europeia, “gerir o risco já não significa apenas reagir ao inesperado. Significa antecipar, adaptar e construir resiliência num mundo mais incerto.” Uma mudança de paradigma que coloca as seguradoras no centro da resposta.

Um dos temas centrais do seu discurso foi o chamado protection gap — o fosso entre os riscos existentes e os que estão efetivamente cobertos por seguros. A comissária recordou os recentes acontecimentos em Portugal, como a tempestade Kristin, para sublinhar que o impacto destes fenómenos “não é abstrato. É real, é humano e exige respostas concretas.” E deixou ainda um aviso: “Numa Europa cada vez mais exposta a riscos climáticos, geopolíticos e tecnológicos, reduzir este gap de proteção não é apenas uma prioridade económica — é também uma responsabilidade social e estratégica.”

Além da cobertura de riscos, Maria Luís Albuquerque reforçou o papel das seguradoras enquanto grandes investidores institucionais, notando que gerem poupanças de longo prazo e têm “um horizonte temporal único — um ativo fundamental numa economia que precisa de financiamento estável para investir na transição energética, na inovação tecnológica e nas infraestruturas estratégicas”, sublinhou.

É precisamente por isso que a Comissão Europeia avançou com alterações ao ato delegado da Solvência II, tornando as regras “mais proporcionais, mais eficientes e mais alinhadas com o papel das seguradoras como investidores de longo prazo”, destacou.

Numa Europa que precisa de investir mais, não podemos ter capital de longo prazo imobilizado por interpretações excessivamente conservadoras do risco.

Maria Luís Albuquerque

Comissária europeia para os Serviços Financeiros e União da Poupança e dos Investimentos

O argumento central é de que o capital de longo prazo não pode ficar parado. “Numa Europa que precisa de investir mais, não podemos ter capital de longo prazo imobilizado por interpretações excessivamente conservadoras do risco. Precisamos de um enquadramento que reconheça plenamente que o setor segurador não é apenas um mitigador de risco — é também um motor de investimento, inovação e crescimento económico europeu”, defendeu a comissária europeia, sinalizando que há espaço para uma maior participação das seguradoras como fonte de capital “paciente”, incluindo em capital de risco.

Esta visão enquadra-se diretamente no projeto que Maria Luís Albuquerque tutela em Bruxelas. “É precisamente este o espírito da União da Poupança e dos Investimentos: criar um sistema financeiro mais integrado, capaz de transformar a poupança europeia em crescimento económico e oportunidades reais”, afirmou. O objetivo de Bruxelas é assim transformar as seguradoras e o sistema financeiro europeu em geral numa alavanca efetiva de crescimento, e não apenas num mecanismo de proteção.

As pensões e a poupança para a reforma mereceram também destaque no seu discurso, com Maria Luís Albuquerque a referir-se ao pacote europeu sobre pensões apresentado em novembro último, focado em aumentar a participação dos cidadãos e criar incentivos à poupança de longo prazo.

No centro está a revitalização do Produto Individual de Reforma Pan-Europeu (PEPP), com o objetivo de o tornar “mais simples, mais flexível e verdadeiramente europeu”. A lógica é de um círculo virtuoso em que “mais poupança para a reforma significa também mais capital disponível para financiar a economia europeia — criando um círculo virtuoso entre segurança financeira individual e crescimento económico”, notou a comissária europeia.

O setor segurador não é apenas um observador — é um protagonista. Um gestor de risco, um investidor estratégico e um parceiro essencial na construção de uma economia mais resiliente.

Maria Luís Albuquerque

Comissária europeia para os Serviços Financeiros e União da Poupança e dos Investimentos

A estabilidade regulatória foi outro ponto incontornável do seu discurso. Num contexto de volatilidade crescente, Maria Luís Albuquerque sublinhou que “a estabilidade regulatória é hoje, mais do que nunca, um instrumento de competitividade europeia — porque num mundo em transformação acelerada, a confiança nas regras é tão valiosa quanto o capital que financia a economia.” Uma mensagem dirigida tanto aos investidores como às próprias seguradoras, que necessitam de previsibilidade para planear e investir no longo prazo.

No fecho da sua intervenção, a comissária europeia foi direta na definição do papel que espera do setor: “O setor segurador não é apenas um observador — é um protagonista. Um gestor de risco, um investidor estratégico e um parceiro essencial na construção de uma economia mais resiliente.”

Para Maria Luís Albuquerque, reduzir o protection gap, mobilizar poupança de longo prazo e garantir um quadro regulatório estável não são apenas desafios mas, acima de tudo, oportunidades que a Europa não pode perder.

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